Uma feminista antifeminista?

“Sou contrária à ideologia feminista do presente, que é doente, indiscriminada e neurótica. E, mais do que tudo, não permite à mulher ser feliz. As mulheres precisam se responsabilizar por suas vidas e parar de culpar os homens por seus problemas, que têm mais a ver com questões e estruturas sociais, e não são fruto de uma conspiração masculina”, Camille Paglia.

Uma entrevista dada pela ensaísta e escritora Camille Paglia à Folha de S. Paulo (ver link abaixo), nesta semana, causou polêmica. Para ela, a mulher deve assumir seu lado maternal e parar de se fazer de vítima, culpando o homem por tudo de ruim que lhe acontece. O que mais me incomodou na sua fala foi a passagem em que ela ataca o movimento feminista atual, considerado “neurótico”. Por que reforçar os velhos estereótipos a respeito das feministas? Por que engrossar o discurso machista de que toda feminista é histérica, frustrada e que odeia os homens?

Nada contra discutir e criticar aspectos do feminismo, mas o que a autora fez foi desqualificar lutas importantes para as mulheres de hoje. Mesmo porque é muito complicado falar em um único movimento, já que o feminismo atual é muito fragmentado. As demandas das mulheres variam de acordo com sua nacionalidade, etnia, classe social, idade, etc. No Brasil, temos inúmeros grupos com pautas diferentes entre si.

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O feminismo não permite à mulher ser feliz? Que grande bobagem.  Mais uma vez, a autora generaliza e mostra que está presa ao passado. Não podemos dizer que haja um feminismo, um bloco homogêneo de ideias e dogmas que restrinjam a ação feminina. Temos necessidades diferentes das mulheres dos anos 60 ou dos anos 30, 20, etc.

A mulher enfrenta questões bastante concretas, como a desigualdade salarial (no Brasil, por exemplo, ganhamos, em média, 30% menos que os homens), a violência sexual e não sexual (mais de 50 mil estupros registrados todos os anos). Paglia tem razão quando diz que a estrutura social é responsável pela maioria de nossos problemas, porém, isso não significa que devemos ficar caladas e aceitar as “coisas como são”. Não acredito que nenhuma feminista minimamente consciente acredite que há “uma conspiração masculina” contra as mulheres. Esse tipo de afirmação serve apenas para ridicularizar o movimento.

Outro ponto que me incomodou:

“Se você é uma mulher livre, você tem que aceitar que, toda vez que se vestir de modo convidativo, está enviando uma mensagem e tem de se defender se for necessário. E é claro que ninguém tem o direito de fazer nada com você, mas só uma idiota acha que vai para as ruas de vestimentas provocativas sem correr o risco de ser atacada, culpando o Estado por isso”.

O que é se vestir de maneira “convidativa”? Quem define isso? O que é provocante para uns, não o é para outros. Ela diz que precisamos estar conscientes de que mensagem estamos passando para os homens e que não podemos culpá-los por entenderem errado quando nos comunicamos de maneira confusa.

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O que devemos fazer? Pautar nossas vestimentas e atitudes com base no medo que sejamos mal interpretadas? Ou tentar mostrar aos homens que eles podem estar equivocados em seus julgamentos? Fico com a segunda opção. Quanto aos “psicóticos e criminosos” realmente a sociedade não pode nos proteger deles o tempo todo, mas já está mais que provado que as roupas das vítimas têm pouquíssima influência nesses comportamentos.

Paglia fala ainda sobre a maternidade, criticando as mulheres que não querem ter filhos ou que o fazem mais tarde, por causa da sua carreira. Segundo ela, a maior culpada por esse “equívoco” é Gloria Steinem e “seus problemas psicológicos”. Discordo. Acho que simplesmente o mundo mudou. As mulheres, em geral, desejam e precisam ter uma carreira no mundo de hoje, inclusive e, talvez principalmente, por razões econômicas. Poucas têm condições de deixar tudo de lado para se dedicar exclusivamente aos filhos. E as que podem e querem devem fazê-lo.

Inegavelmente, a mulher tem mais opções do que no passado. Ainda temos que lidar com o machismo cotidiano, com as práticas discriminatórias e o ranço cultural da sociedade patriarcal. Cada uma de nós, escolhe seu caminho e a melhor forma de lidar com tudo isso. Acho que a Paglia trouxe alguns temas muito importantes à tona, mas empobreceu a discussão ao generalizar o comportamento das feministas e ao tenta dar receitas de comportamento.

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Enfim, essas são apenas algumas reflexões despretensiosas sobre a entrevista de Camille Paglia, nada além disso. Há muito mais a ser debatido, como a questão dos gêneros. Estes seriam construções culturais ou resultado de diferenças biológicas? As duas coisas, na minha opinião.

E você? O que acha?

– Márcia Pinna Raspanti

Abaixo o link com a entrevista completa da escritora e ensaísta americana. Confira:

https://www.google.com.br/url?sa=t&rct=j&q=&esrc=s&source=web&cd=10&cad=rja&uact=8&ved=0CEkQqQIwCQ&url=http%3A%2F%2Fwww1.folha.uol.com.br%2Filustrada%2F2015%2F04%2F1619320-nao-publicar-entrevista-camille-paglia-fronteiras-do-pensamento.shtml&ei=xJk7Vdf1McOwggSApYGgAw&usg=AFQjCNERhrlK9lJp7IUiMHJq2isErsxszw&sig2=n3ae50vbIBQUoFnm7ao9bg&bvm=bv.91665533,d.eXY

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Série de ilustrações inglesas, de 1909, que registram o movimento de greve de fome das mulheres pelo direito de voto, o que as levava à prisão, onde eram forçadas a ingerir alimentos, muitas vezes, amarradas.

 

 

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  1. Maria Cristina Lages
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  3. Fernanda
  4. celina
      • celina
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