O chiste, a piada e o riso no Brasil Império

Grupo estrangeiro dominante no Brasil do século XIX, dele fazia parte portugueses de todos os estratos econômicos. Impulsionados por laços sociais, amparados por migrantes mais antigos, família ou comunidade, a maior parte era constituída por trabalhadores agrícolas, pescadores, empregados domésticos e trabalhadores em indústrias rurais. Pobres, estes imigrantes sonhavam em ganhar dinheiro e voltar para a terrinha. Localizados no bairro de Ponte d’Areia em Niterói, o chamado Portugal Pequeno, na Saúde, Gamboa e Santo Cristo, em casas de arquitetura modesta, podiam ser encontrados em diversas atividades já mencionadas ou no pequeno comércio de bens imediatos. O comércio varejista e os negócios de pequeno porte estavam nas suas mãos. Eram os “Seu Joaquim, Seu Manuel ou Seu Antônio”, como já disse Almir Freitas Filho.

Identificado graças às locuções tradicionais estudadas por Luís da Câmara Cascudo como meco ou libertino, patacão de sola ou conquistador barato, ou ainda, como fazedor de pintos, ou pequenos furtos, o português, modesto, discreto, acabou por estimular, à revelia, certa lusofobia que teve seu apogeu no mundo do riso.  Elias Saliba demonstrou como o século XIX viu nascerem revistas humorísticas, estimuladas pelos avanços nas técnicas de impressão e reprodução, capazes de multiplicar tiragens e leitores. No período imperial chegaram a circular sessenta delas, ilustradas com charges ou com quadrinhos. A regularidade da Revista Ilustrada, publicada em 1860 e da Semana Ilustrada, de 1864, garantia a veia humorística que tinha no português o seu suporte.

A Encyclopedia do Riso e da Galhofa, publicada em fascículos, tinha por autor certo Pafúncio Semicúpio Pechincha, estapafúrdio pseudônimo atrás do qual se escondia Eduardo Laemmert. Só para ficar num exemplo, a apresentação da enciclopédia já faz uma paródia com o clássico do Renascimento português, as Peregrinações de Fernão Mendes Pinto – conhecido na época por Fernão Mendes Minto: “Não imagines, tu, leitor adorável que eu vou escrever as minhas Tribulações, como o Fernão Mendes traçou as suas Peregrinações, etc”.

Criações humorísticas, criticando a família imperial, identificada com Portugal, impregnavam paródias como o Hino da Brava gente”, só que um pouco …. Modificado:

Brava gente brasileira

Vosso rei vos fez servil

Não tereis a pátria livre

Sem varrê-lo do Brasil

Um real trampolineiro

Vos pregou um logro vil

Porque o grito do Ipiranga

Foi a morte do Brasil

Brava gente, etc”.

Mas onde o riso desconstrói o preconceito, a Madame e a saloia se confundem, o alfacinha e o mulato se dão as mãos, a língua herdada da metrópole portuguesa se mistura com o preciosismo e a mania de estrangeirismo da Belle Époque é nas paródias com línguas estrangeiras, notadamente a francesa. Paródias que refletem o cosmopolitismo e o provincianismo, a pobreza e a riqueza, o alto e o baixo do nosso país na transição do Império para a República.

O historiador Elias Saliba, as define como expressão do hibridismo destes tempos sociais. Elas aparecem na Encyclopédia de Pafúncio, ou na tradução que faz Artur Azevedo da peça La fille de madame Angot; na versão brasileira, A filha de Maria Angu. O historiador destaca que o trânsito constante dos escritores brasileiros nas duas línguas, particularmente, na virada do século, fez com que se exercitassem seus recursos verbais nas duas culturas. Isto afetou particularmente, diz Saliba, os humoristas, que utilizavam essa capacidade de trânsito entre as línguas, especialmente o francês, em seu próprio benefício, no sentido de subverter as formas linguísticas sérias, criando uma terceira língua, anárquica.

Expressão exemplar disto é a sessão cômica da revista Careta, intitulada “La Carète Économique”. Empregando, explica ele, uma forma macarrônica de aportuguesar a língua francesa, os redatores entre os quais Mário Bhering e Bastos Tigre, empregavam como recurso cômico, menos o conteúdo e mais a própria forma de expressão. Veja-se, por exemplo, o cabeçalho:

La Carète Economique, section de propagande du Brésil a l’etranger. Commerce, Finances, Industrie, Agriculture, cavations. Redaction et administration; Ici mesme. Assignature: quelque chose. Service Telegraphique (par e sans fil).

É notável, demonstra Saliba, como numa edição de 1909, usando argumentos aparentemente sérios, o articulista procura contestar a tese, já bastante difundida, de que o “povo brasileiro é um povo triste”:

« Le bresiliere est um peuve essentiellement triste, a dit une fois um chronist et qui naturellement avait perdu sa sogre quand il escrivit une telle asniere. Et ouçant cette phrase, autres chronistes l’ont repetue tantes fois qui au fin d’aucun temps la chose passa em julgué. Entretemps, la chose est une mentire de cet tamagne […] Nous, bresileires, sommes la gente la plus festeire et brincalhone de l’univers. Les emigrants puis, ne se devent deixer lever par les informations des chronistes, esperant encontrer ici gents qui chorent le die entier. Quand chegue l’heure de se divertir, le gent bien le sait comme le fait ».

Se a compreensão da algaravia nem sempre era fácil, já que exigia dos leitores o conhecimento, nem que apenas superficial, da língua francesa, na maioria das vezes o “Carète” servia-se de expressões familiares, extraídas da tradição oral:

Pour anglais voir

Dans le bois sans cachorre

De penser mourrut un burre

Dans le apaguer des lumières

Les politiques botent ses manguinhes de foure

Santinhes de bois ouque

Franceses e portugueses, separados pelas condições de imigração, educação e oportunidades se viam reunidos, num típico caldo de cultura brasileiro, pelo chiste, a piada e o riso. Riso que fazia rir da francofilia. Riso, escape para a lusofobia. Mas riso que permitia nossos avôs, rir deles mesmos.

  • Texto de Mary del Priore. “Histórias da Gente Brasileira: Império (vol.2)”, Editora LeYa, 2016.

Jean-Baptiste Debret - Vista do Paço de São Cristovão

Jean-Baptiste Debret – Vista do Paço de São Cristovão (1808)

 

 

 

 

 

Publicações Relacionadas

Add Comment