E as mulheres tomam as ruas novamente

Por Márcia Pinna Raspanti.

 

   Ontem, milhares de mulheres brasileiras tomaram as ruas para protestar contra o retrocesso político e mostrar a desaprovação ao candidato à presidência da república, Jair Bolsonaro (PSL). Em defesa da democracia, elas vestiram lilás, a cor do feminismo. Muitas levaram os filhos pequenos. A maioria empunhava cartazes com palavras de ordem contra o machismo, a violência e o preconceito. Havia bandeiras de diferentes partidos políticos, lado a lado, em uma convivência pacífica. Mulheres de todas as idades, perfis e ideologias mostraram a força do voto feminino, já que elas representam 53% do eleitorado brasileiro. Tudo começou com um grupo de Facebook, que hoje tem quase quatro milhões de participantes.

       No século XXI, o gênero feminino ainda precisa lutar por mais representatividade política. Apesar da atuação virtual, a ocupação do espaço público é fundamental. As ruas também são “lugar de mulher”, reivindicam as brasileiras. Houve também a participação dos homens, mas, desta vez, eles foram coadjuvantes. As mulheres sempre foram à luta para defender sua família e suas necessidades. Ao longo da História, elas participaram de revoluções, revoltas e se utilizaram de inúmeras formas de resistência à opressão. Sua participação, sempre reprimida, assumiu formatos diferentes, nem sempre tradicionais. As conquistas foram muitas, desde a autonomia econômica e financeira, a liberdade sexual, o direito de votar e ser votada, até coisas hoje consideradas banais como poder sair ou viajar sozinha. Agora, cansamos de ser subrepresentadas na política. Queremos eleger pessoas que realmente estejam em sintonia com nossas demandas.

     “Da história, muitas vezes, a mulher é excluída”, nos lembra Michelle Perrot, em “Os excluídos da História”. A autora destaca que esse processo ocorre na dimensão do relato, ou seja, quem conta a História omite a participação feminina no acontecimento político. O século XIX foi a época em que a definição dos papéis por gênero foi mais presente. O racionalismo definia o espaço de cada sexo: o espaço público, a rua, os cafés, a praça pertenciam ao homem; já a mulher deveria ficar restrita ao lar e à família. Se precisassem trabalhar por questões econômicas, deveriam exercer tarefas ligadas ao mundo doméstico, como costura e higiene.

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      Mães, esposas, musas, histéricas, decentes ou pecadoras: a sociedade buscava delimitar sua atuação e reduzi-las em sua complexidade. Mas elas continuavam atuantes. Responsáveis pelo orçamento doméstico, elas lutavam por melhores condições de vida para a família. Perrot afirma que, nos meados do século XIX, na França,”a maioria dos operários entrega seu pagamento às suas mulheres. (…) Administrar a miséria é, antes de tudo, sacrificar-se. Apesar disso, é também base do poder das donas de casa, o fundamento de suas intervenções, muitas vezes, estrepitosas, na cidade”.

     Como podemos notar, apesar do esforço em mantê-las dentro de casa, as mulheres tomavam as ruas quando lhes parecia justo. Os motins por alimentos, pela sua falta ou pela carestia, eram ainda muito presentes no século XIX, e quase sempre, iniciados pelas donas de casa. Perrot conta que quando um produto tinha alta de preço, elas intimavam os vendedores a abaixar o preço. Se eles recusassem, elas tomavam o estoque e vendiam a um valor que considerassem justo. A comunidade de mulheres estava “sempre pronta a se amotinar”. Elas agiam coletivamente, sem armas, rosto descoberto, muitas vezes acompanhadas dos filhos. Podiam atirar mercadorias na polícia ou, em casos mais extremos, pedras.

     Enfrentavam também os proprietários de suas precárias moradias, quando os preços dos aluguéis se tornavam excessivos para o orçamento da família. Em tempos de revolução, as ações femininas se tornaram mais agressivas. “Aos gritos de ‘recibos ou morte’, batendo panelas e caldeirões, formam-se ruidosas aglomerações sob as janelas do dono (dos imóveis) para exigir recibos sem pagamento”. A autora conta que, mediante a hesitação masculina, elas os acusavam de serem verdadeiros “moleirões” e tomavam a frente nas ações.

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     Outra fonte de revolta feminina eram as máquinas que começavam a tomar conta das fábricas, destruindo o modo de produção tradicional. Graves motins ocorreram na França desde o século XVII, por esse motivo. Os administradores temiam a sua força quando unidas por um objetivo comum e acreditavam que era melhor deixá-las isoladas umas das outras, trabalhando em casa, do que “reuni-las aos montes, pois pessoas dessa categoria são plantas que fermentam quando amontoadas”. E eles tinham razão: “Iniciadoras de motins, as mulheres, além disso, estão presentes na maioria dos distúrbios populares da primeira metade do século”, diz Perrot.

     Figuras importantes na Revolução Francesa, sua forma de atuação foi se transformando ao longo do século. Assustados com os motins femininos, os revolucionários as empurraram para funções auxiliares. “Ao se militarizar, a revolução se torna masculina, e relega as mulheres às gazes ou aos fornos. Na Comuna, por exemplo, são toleradas como cantineiras ou enfermeiras. Se querem carregar armas, têm que se vestir de homens. À frente das manifestações ou desfiles, elas se congelam como símbolos. E se a República se encarna numa Marianne, sem dúvida, é a última maneira de de transformar a mulher em objeto”, explica Perrot.

     Esse processo de calar as mulheres e reduzir suas ações políticas foi muito forte no século XIX. O tempo da racionalidade quer “educar e civilizar” as mulheres de forma a que se conformem com seu papel submisso na sociedade. Esse movimento tem impacto na dimensão política, reduzindo os espaços mistos, com a justificativa de combater a “promiscuidade”. Na Inglaterra, os pubs se tornaram exclusivamente masculinos, assim como as reuniões de sindicato. Na França, o processo foi o mesmo. O próprio movimento operário preferia que a mulher ficasse em casa. O sindicalismo se afastou dos movimentos das mulheres.

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     O discurso da virilidade e da suposta “racionalidade” masculina era a justificativa para excluir as mulheres da política. Mas as mulheres nunca foram passivas nem submissas, como mostra Michelle Perrot. “Elas são diferentes. Elas se afirmam por outras palavras, outros gestos. Na cidade, na própria fábrica, elas têm outras práticas cotidianas, formas concretas de resistência – à hierarquia, à disciplina – que derrotam a racionalidade do poder, enxertadas sobre seu uso próprio do tempo e do espaço. Elas traçam um caminho que é preciso reencontrar. Uma história outra. Uma outra história”, diz a autora.

Parece que as brasileiras estão reencontrando esse caminho…

  • Texto de Márcia Pinna Raspanti.
  • Referência bibliográfica: PERROT, Michele. “Os excluídos da História”, Paz e Terra, São Paulo, 2017.
Álvaro Rezende/Correio do Estado

Álvaro Rezende/Correio do Estado

 

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  1. Estevam

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