Dia do Trabalho: a construção da classe operária

Muito de discute sobre a origem do 1º de Maio. Quem definiu a data e por quê? Michelle Perrot, em “Os Excluídos da História” (Editora Paz e Terra, 2017), destaca que a história do Dia do Trabalho continua bastante controversa porque cada um “puxa a brasa para sua sardinha”.  Segundo a autora: “resultante de um ato político deliberado, essa manifestação ilustra o lado voluntário da construção de uma classe – a classe operária -, à qual os socialistas tentam dar uma unidade política e cultural através daquela pedagogia da Festa cujo princípio, eficácia e limites há muito tempo tinham sido experimentados pela Revolução Francesa”.

Perrot nos lembra da carga simbólica do “maio operário”, um mês recordista de greves, e, se voltarmos mais ainda no tempo, período significativo na tradição da primavera dos maios aldeões. “A invenção do 1º de Maio, como se sabe, está ligada ao nascimento da Segunda Internacional, cujo primeiro congresso se realiza em Paris em julho de 1889”. A definição deste dia, comemorado internacionalmente, mostra a preocupação em demonstrar “a força do proletariado pela simultaneidade da demonstração, reveladora de um certo sentido de encenação e de uso da mídia típico de uma psicologia das multidões em pleno desenvolvimento. Trata-se de dar à classe operária consciência de si mesma através da realização de gestos idênticos num amplo espaço e de impressionar a opinião pública com tal espetáculo”, diz a autora.

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Tendo como base reivindicações concretas, principalmente relativas à jornada de trabalho, a data passou a incorporar uma série de simbolismos. Eric Hobsbawn, em “Mundos do Trabalho” afirma que, na América Latina, o 1º de Maio é associado a uma “celebração dos mártires”, principalmente os “mártires de Chicago” – e até hoje muita gente aceita essa versão. Houve uma série de manifestações, em 1886, nesta cidade americana, em que milhares de trabalhadores protestavam contra as condições de trabalho e a carga horária pela qual eram submetidos (13 horas diárias). A greve paralisou os Estados Unidos. Houve confrontos com a polícia e muitos manifestantes morreram. Os protestos ficaram conhecidos como a Revolta de Haymarket.

Em 1891, na França, houve um acontecimento semelhante. Uma manifestação de trabalhadores foi duramente reprimida na chamada “Fusillade de Fourmies” (Fuzilamento de Fourmies). Perrot também dá destaque para o episódio ocorrido nos EUA. “O 1º de Maio americano, inaugurado em 1886 pelos Cavaleiros do Trabalho (Knights of Labor), já tinha suas vítimas: naquele dia, a violência com as forças armadas resultara em mortes em Milwoukee e em Chicago. ‘O processo dos oito “mártires de Chicago’, entre os quais quatro foram enforcados em 11 de novembro de 1887, tivera uma repercussão real, visível nos jornais e no imaginário popular”.

Hobsbawm afirma que a origem exata da comemoração é menos importante que seus aspectos simbólicos.  Com o tempo, o sentido inicial do 1º de Maio – demandas por melhores condições de trabalho – passou para segundo plano, e a data se tornou uma afirmação anual da presença de classe. Uma comemoração com raízes populares e a única associada exclusivamente ao proletariado. E também um dia de festa.

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O Dia do Trabalho é festejado no Brasil desde 1895, quando foi realizada a primeira comemoração da data que se tem registro no país, por iniciativa do Centro Socialista de Santos, em São Paulo. Somente em setembro de 1925 a data tornou-se oficial, após a criação de um decreto do presidente Artur Bernardes – o que demonstra o crescimento dos movimentos operários na época (lembremos da greve geral  de 1917 e das que se seguiram). Getúlio Vargas soube aproveitar o simbolismo da comemoração: em 1º de maio de 1940, o presidente instituiu o salário mínimo; no mesmo dia, um ano depois, seria criada a Justiça do Trabalho.

–  Texto de Márcia Pinna Raspanti.

 

'The Strike.' Oil on canvas by Robert Koehler, 1886

“The Strike in the region of Charleroi” (1886), de Robert Koehler

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