“As caixas” – uma crônica perdida de Lima Barreto

O pesquisador Felipe Rissato, que estuda a obra de Lima Barreto, encontrou, em revistas, três crônicas desconhecidas do autor carioca. São textos veiculados na revista Theatro & Sport, em 1917, 1920 e 1921. O tema das crônicas é o teatro. Vamos publicar hoje a segunda crônica (ontem foram publicadas a introdução do pesquisador e a primeira crônica). Boa leitura!

 

“As caixas…” (7)

Das minhas preocupações, não era certamente a mais forte aquilo a que chamam – o teatro.
Li sempre os folhetins de lástima do falecido Arthur, (8) mas nunca eles me moveram ir ao teatro. Entretanto, comprei-lhe O Dote, quando foi publicado em volume. (9) Gostei muito, tanto quanto tinha gostado de um romance de Paulo de Kock (10) em que há uma situação idêntica.
Não sei se já leram Vingança de mulher. É o capítulo XVIII; intitula-se – O Dote – Duas Amigas. Diz a mulher na tradução editada pela casa dos srs. J. G. Azevedo & Cia., Uruguaiana, 29: (11)
— Que diz! Trezentos e cinquenta francos! Engana-se: mil e duzentos é que eu preciso e que lhe mandei pedir pela minha criada.
Agora fala o marido:
— Sei isso muito bem, minha senhora, mas essa quantia é tudo o que atualmente lhe resta, não lhe darei mais.
Retruca a mulher:
— Que quer dizer isto? que significa este gracejo? Ousa recusar-se! Esquece que tive cinquenta mil francos de dote?
Volta o marido:
— Oh! Decerto que me não esqueço, e é por isso que até hoje tenho satisfeito todos os seus pedidos de dinheiro. Mas o seu capital está esgotado; em cinco anos gastou, ou antes, estragou todo o seu dote, menos 350 francos, que lhe entrego.
Fala a mulher:
— Gastei 50 mil francos em cinco anos! Isso é falso, o senhor engana-se!
O marido entra agora vitorioso:
— Minha senhora, nunca afirmo uma cousa senão quando tenho as provas. Aqui tem todos os recibos, não falta um sequer… importam em quarenta e nove mil seiscentos e cinquenta francos.
Cito isto, não porque pretenda postumamente acusar o mestre Arthur de plágio. (12) Lembro essas cousas tão somente para mostrar aos leitores as razões porque gostei tanto da peça do saudoso mestre como do romance de Paulo de Kock.
É como lhes dizia: não vou quase nunca ao teatro. Passam-se anos que não entro num templo da rua do Espírito Santo. (13) E olhem que durmo sempre tarde, às vezes mesmo nem durmo.
Ultimamente, porém, entrou-me pela casa adentro um demônio tentador para o teatro. É o meu tio, maestro Pereira de Carvalho. (14) Armou uma companhia no Méier, interessou toda a casa nela, até a mim, pessoa refratária à arte dramática; e eu dirigi a minha atenção para as cousas da ribalta.
Não contente com isto, acabada a companhia, mandou-me para as dependências da casa, umas caixas enormes de adereços ou cousa que valha, cobertas de etiquetas e letreiros.
Todas as manhãs, quando vou ao banheiro ou à bica, lavar o rosto, ponho-me a pensar o que conterão aqueles elefantes e como o seu conteúdo não fará ver cousas extraordinárias no palco; entretanto, jazem até obscuramente debaixo de telheiros ingratos, umas, e outras no porão escuro…
Tenho pena… Tudo aquilo pede luz, muita luz… O que, porém, me prende mais a elas, é o desejo de ver aquelas cousas ressuscitar em cores, se são vestuários; aprumados, se são cenários; enfim, é que elas tornem à sua vida normal, vida que elas vêm vivendo por esses brasis afora, como mostram os seus letreiros e etiquetas…
Tentam-me também a apreciar e gozar essa arte infernal do teatro, sempre amada e sempre desprezada; mas, para a qual, todos os povos apelam e até a religião dela se socorre… Vou frequentar plateias.

LIMA BARRETO

Notas:

(7) Theatro & Sport, Rio de Janeiro, ano VII, n. 292, 12 jun. 1920.
(8) Arthur Azevedo (1855-1908), um dos mais importantes dramaturgos brasileiros na virada do século XIX para o XX.
(9) Em 1907.
(10) Charles Paul de Kock (1793-1871), romancista francês também mencionado em Triste Fim de Policarpo Quaresma (1911).
(11) A edição citada aparece em anúncios do ano de 1908. A obra, porém, teve a primeira tradução no Brasil em 1899.
(12) Um ano antes, na crônica “Sobre o nosso teatro”, acima mencionada, Lima Barreto tece duras críticas ao gênio criador de Azevedo.
(13) Theatro Carlos Gomes, Theatro Recreio Drammatico, Theatro Maison Moderne, Theatro Lucinda, entre outros.
(14) Carlos Pereira de Carvalho, tio pelo lado materno, diretor da Companhia Dramática Nazareth.

 

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