A República e o furor anti-africano

             Em várias capitais, o espaço urbano colonial, fruto de uma experiência secular de adaptação da arquitetura portuguesa aos trópicos, cedeu lugar a projetos de reurbanização orientados pela abertura de largas avenidas e pela imitação de prédios europeus. A decisão levada a cabo pelos poderes públicos implicava em desalojar milhares de famílias pobres, expulsando-as de áreas centrais, onde estavam os cortiços, para locais de difícil edificação. Dessa maneira, a mesma cidade que se embelezava era também aquela que inventava a favela, termo que nasceu na época, aliás, ao mesmo tempo em que a expressão pivette – designação em francês, a língua da moda, significando erva daninha para descrever a “criança de rua” – explica o historiador Renato Venâncio.

            Existia um sentimento geral de que políticas públicas voltadas para o “saneamento” da sociedade poderiam colocar o país em nova rota: a do sucesso. O do progresso. Bastava europeizar-se e adotar métodos científicos nas escolas, cidades, prisões.  Nenhuma das intenções reformistas impediu, porém, a violência que ensanguentou o país. Massacres, lutas entre facções políticas, ou por ideais traziam insistentemente para as ruas o estrondo das botas e das armas de fogo.

            Apesar de ter elegido um presidente mulato, Nilo Peçanha, e um vice-presidente também mulato, Fernando de Melo Viana, e embora circulassem, na cena cultural, inúmeros intelectuais negros e mulatos como Machado de Assis, Raul Astolfo Marques, Arlindo Veiga dos Santos, Trajano Margarido, Alfredo Casimiro da Rocha, Ildefonso Juvenal, Abdon Batista, Antonieta de Barros, Oracy Nogueira, Manuel Querino, Nina Rodrigues ou Mário de Andrade, entre tantos outros políticos, escritores, médicos, jornalistas e professores, a República lançou-se ao combate de tradições culturais de origem africana. A capoeira, assim como, várias formas de religiosidade se tornaram, segundo o código penal de 1890, práticas criminosas, enquanto a culinária dos antigos escravos sofria severa condenação médica. O prometido progresso significava, entre outros, branquear o país.

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            Nem mesmo as festas escapam ao furor anti-africano. Em pleno Salvador, os batuques, afoxés e candomblés foram colocados na ilegalidade. Enquanto isso, em diversas outras cidades, o entrudo, comemoração pública na qual os negros participavam como coadjuvantes, nas festas de Momo ou na condição de alvo das brincadeiras com água de cheiro, começava a perder adeptos entre a elite. Ela passou a frequentar carnavais em bailes de salão, com serpentina e confete, à moda veneziana.

            Se a ideia de alguns era “europeizar ou civilizar”, nada ficou sem respostas, explica Venâncio. Algumas delas podiam assumir formas não violentas, como a reação frente à proibição das festas negras. Eis como: embora as mudanças promovidas pela elite tivessem por objetivo “desafricanizar” o carnaval, tais medidas acabaram – pelo menos em algumas cidades brasileiras – sendo assimiladas pelas camadas populares. Nessa festa, os elementos mais distintos e ricos da sociedade desfilavam em bondes e carros alegóricos, os corsos, competindo no brilho e luxo das fantasias. Corsos foram substituídos por ranchos até que, na década de 1920, foi fundada a Escola de Samba Estação Primeira da Mangueira, liderada por sambistas e passistas de origem humilde. Dessa forma, o corso da elite foi dando lugar ao desfile popular de escolas de samba, organizado nas favelas e bairros periféricos do Rio de Janeiro.

  • Mary del Priore. “Histórias da Gente Brasileira: República 1889-1950 (vol. 3)”, editora LeYa, 2017.
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