O pecado dos padres: fornicação, homossexualidade e maledicência

A leitura de inúmeros depoimentos relativos à sociedade colonial vem reforçar a imagem de total desregramento moral já arraigada na mentalidade brasileira. Muitos destes observadores, comprometidos de alguma forma com a Igreja ou o Estado, mostraram-se escandalizados com o comportamento nos trópicos. Nem mesmo os clérigos eram poupados em relação à moral. O jesuíta português Antônio Viera, zeloso com a postura que o pregador deve assumir perante os fiéis, faz uma referência indignada a desvios de atitude de alguns padres:

Na comédia o rei veste como rei e fala como rei, o lacaio, o rústico veste como rústico e fala como rústico, mas, um pregador, veste como religioso e fala como…não quero dizer por reverência ao lugar”.

Emanuel Araújo (“Teatro dos Vícios”) ressalta que padres e freiras, em geral, não procuravam nem mesmo manter as aparência de recato e pureza que se esperava deles. Segundo o autor, eram comuns entre os membros da Igreja casos de “homossexualismo, excessos no trajar-se, de sedução de mulheres, afora o mais frequente em que se envolviam os padres: o concubinato”.

As Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia os religiosos eram admoestados a viver “virtuosa e exemplarmente”. Na sátira atribuída a Gregório de Matos, padres e freiras são duramente desqualificados por seus amores ilícitos:

“Mas o frade malcriado,

o vilão, o malhadeiro

nos modos mui grosseiro,

nos gostos mui depravado (…)”

Outro jesuíta famoso, João Antônio Andreoni, também falava das transgressões do clero e da sua falta de condições para aconselhar os fiéis: “uma vez que não são poucos os sacerdotes na cidade, pouco iniciados, que carecem de conhecimento de teologia moral para assumir para assumir a cura das almas”.

Vieira, 40 anos antes, afligia-se com a “necessidade espiritual pouco menos que extrema” dos portugueses residentes no Brasil. A causa deste mal seria a escassez de curas e párocos, e a péssima situação dos poucos que existiam: “porque o que tem feito grande mal a este estado são homens de vida e doutrina pouco são homens de vida e doutrina pouco ajustada”. O despreparo dos religiosos e a soltura de seus costumes foram preocupações centrais na política contrarreformista. No Brasil, a ideia de um clero “profissional” encontrou dificuldades maiores, que comprometeram a propagação das das decisões tridentinas na América Portuguesa.

Ver mais  Princesas, santas ou p...

As acusações trocadas entre os próprios religiosos eram comuns. Em 1692, Andreoni, em defesa ao P. Alexandre Perrier, ataca o comportamento do seu acusador, P. Almeida: “o irmão João Álvares confirmou que, quase por três meses, foi provocado pelo P. Almeida para fins desonestos e uma vez para apetite da carne, e, com dificuldade ter-se escapado pela força de pedidos inoportunos, e ousadia pior e mais nefanda (…) E ainda era sabido que possuía torpe familiaridade com mulheres desonestas”.

Já com o Padre Rodrigues, Andreoni foi mais complacente, pedindo segredo quanto ao seu delito e suplicando absolvição da pena de cárcere. Rodrigues era acusado de ter enviado “remédios” para uma escrava provocar o aborto, com a qual teria admitido ter cometido adultério.

A imagem dos sacerdotes era bastante negativa nos tempos coloniais. É preciso levar em conta também que divergências internas às ordens religiosas podem causado algumas acusações injustas. Por outro lado, a falta de “decoro” dos representantes da Igreja poderia comprometer a harmonia idealizada da sociedade colonial, e por isso, deveria ser fortemente combatida. – Márcia Pinna Raspanti.

vieira2

Antônio Vieira: combate à falta de decoro de seus companheiros.

4 Comentários

  1. Marcos
      • Matheus

Deixe uma resposta