Dança de Zalongo – as permanências históricas no desespero das mulheres sírias

Publicado em 16 de dezembro de 2016 por - artigos

Por Eneida Queiroz.

 

          “Adeus, primaveras, florestas, montanhas e colinas. Adeus, doce mundo, adeus”. Essa é a letra da “Dança do Zalongo”, uma manifestação cultural grega que rememora o suicídio em massa de mulheres suliotas com suas crianças, diante da invasão do exército Otomano inimigo. Esse evento estarrecedor de 1803, que é tema de músicas, danças, monumentos públicos e quadros em museus importantes pelo mundo, nos faz lembrar uma das práticas mais odiosas dos exércitos em conflitos bélicos: o estupro e o assassinato de inocentes, desde a Antiguidade até os dias de hoje. A questão é: como pode persistir hoje? Mesmo com as Convenções de Genebra, que declaram os estupros em zonas militarmente ocupadas como crimes de guerra e crimes contra a humanidade, essa prática não desaparece.

          Diante dos horrores que há alguns anos assolam a Síria nessa longa guerra civil de vários grupos e lados – todos sanguinários e com viés ditatorial – éramos embrulhados por notícias das práticas do grupo intitulado “Estado Islâmico” contra aqueles que, em territórios dominados, não obedeciam suas estritas regras. As histórias de meninas sequestradas para servirem de escravas sexuais (prática também adotada pelo grupo terrorista islâmico Boko Haram na Nigéria) eram só a espuma fétida do machismo e da misoginia, naquele caldeirão já transbordante de completo desrespeito pela vida humana: espancamentos, decapitações públicas, esfolamento de corpos amarrados à para-choques de carros, freiras queimadas vivas dentro de gaiolas e toda sorte de barbárie. Agora, no entanto, mesmo com o exército do governo (as forças de Bashar al Assad) retomando o controle da cidade de Aleppo, novas notícias estarrecedoras saltam dos jornais e mídias sociais: o massacre não se dá só pelas mãos do Estado islâmico e outros grupos rebeldes, alguns da Al Qaeda, mas também pelas tropas oficiais do antigo governo ditatorial. E nós aqui, querendo nos agarrar em qualquer esperança e comemorar que o Estado Islâmico perdeu mais um território…

         Surgem notícias, das quais não temos como comprovar a veracidade – mas não duvido que sejam verdade – de pais que enviam perguntas a religiosos: caso haja a iminência do estupro de suas irmãs, mulheres e filhas pelas tropas do governo, se eles teriam permissão divina para matar os membros femininos da própria família. Da mesma forma que surgiu uma carta de adeus, de uma enfermeira, que preferiu se suicidar, já que sabia o que fariam os homens do exército de Bashar al Assad: estupro. E é nesse caso que a enfermeira síria se aproxima espantosamente das mulheres suliotas de 1803.

         Esse evento foi tão dramático que, mesmo ocorrendo nos anos iniciais do século XIX, ficou conhecido em toda a Europa e virou tema de músicas e telas. Esse grau de desespero, que certamente não podemos mensurar, tenta estar presente no quadro “As mulheres suliotas”, de 1827, do holandês Ary Scheffer. O tema dessa pintura é justamente a morte de mulheres e crianças, em 1803, em decorrência de um conflito armado entre os suliotas, um povo autônomo nas montanhas gregas, e o Império Otomano, que dominava a região. Em uma das batalhas, cercadas pelos turcos no topo de uma montanha, um grupo de mulheres suliotas preferiu jogar-se do penhasco abraçadas em seus filhos, do que serem capturadas pelo exército inimigo. Mais uma vez, estamos diante da sombra do estupro e da crueldade contra crianças: sabedoras das atrocidades que iriam ocorrer consigo e com seus filhos, caso fossem capturadas pelo inimigo, preferiram uma morte rápida.

         É uma das telas mais trágicas da história da arte. Os seios e costas à mostra lá estão para sugerir a vulnerabilidade do corpo feminino diante da ameaça masculina, representada por um combate enevoado montanha abaixo. A cabeleira negra de uma das mães que se deita sobre o filho, quase a sair dos limites do quadro e derramar-se sobre o espectador, parecem ser um signo da morte. Na montanha de Zalongo, na Grécia, de onde as suliotas se atiraram num delírio desesperado em que cantavam e dançavam juntas (daí a ideia da Dança de Zalongo), de mão dadas entre si ou entre os filhos, foi feito um grande monumento em pedra, com figuras femininas unidas pelas mãos, em fila, diante do penhasco. Procure no Google por Zalongo Monument e você verá a força da obra.

        Comum nos conflitos da Antiguidade, da Idade Média e Moderna e até nos confrontos contemporâneas, como as duas grandes guerras mundiais do século XX, o estupro de guerra é prática utilizada como guerra psicológica, a fim de humilhar o inimigo e destruir sua moral, ou promover limpeza étnica. O estupro, em qualquer circunstância, é muito mais uma demonstração de poder do que desejo sexual realizado sem consentimento. Não se trata de impulso sexual não freado, mas de subjugação e demonstração de força. Na prática do estupro de guerra isso fica ainda mais claro: pois ele ocorre contra a coletividade, contra todo o povo conquistado, embora quem sofra seja o corpo e a alma de uma única mulher a vivenciar o ato. Mas o que se quer ferir é o todo: a mulher representa o todo. Ela é a paz e o refúgio do lar, ela é a mãe geradora dos futuros membros da comunidade, ela é – em grande medida – a honra dos homens. Quebrá-la é quebrar a coletividade como um todo. Mas então por que eles não as matariam logo? Porque o crime do estupro não cessa quando o ato acaba: ele é eterno. Vivas, elas arrastam as correntes do trauma na alma, minando sua autoestima, seu amor-próprio, seu cuidado consigo mesma, seu relacionamento familiar e social. Em sociedades machistas – grande parte do mundo atual – a moral de seus parentes do sexo masculino vai ao chão toda vez que eles olham aquela mulher que um dia foi estuprada: pois a desonra dela é a desonra deles, que falharam em seu papel masculino de proteção e defesa. Ademais, sexualmente violentadas, podem gerar filhos do povo invasor: a ideia de limpeza étnica. O crime é tão hediondo que, aquela criança completamente inocente da brutalidade que a gerou, é, psicologicamente para a família e para a coletividade, como uma maçã podre em meio aos frutos da esperança. Provas vivas da humilhação à qual a coletividade foi submetida. Por essa razão, o Direito Internacional hoje tende a tipificar o estupro de guerra como Genocídio, mesmo que as mulheres permaneçam vivas.

         Exemplos dessa vergonha humana não faltam na história recente. No pós Segunda Guerra, na Alemanha, as mulheres foram estupradas não só pelo Exército Russo como por membros dos Exércitos Aliados, muitas hoje tendo coragem de citar o outrora insuspeito exército americano. Soviéticos ou Aliados, eles estupravam de crianças a idosas, tendo predileção por mulheres próximas de seus 20 anos, e não raro os estupros eram coletivos, com dezenas de homens. As estimativas que os casos, em toda a Alemanha, tenham ocorrido na casa dos milhões. Por sua vez, muitos afirmam que os russos estariam se vingando dos estupros sofridos por suas mulheres nas invasões alemãs, afora toda a barbaridade cometida no período nazista. Durante a mesma guerra, o Japão também estuprava e explorava sexualmente chinesas, coreanas e todas as demais etnias as quais dominavam territorialmente: as chamadas mulheres de conforto ou batalhões de conforto. O reconhecimento dessa prática e desse crime por parte do governo japonês, que sempre teve a desfaçatez de o negar, gerava diversos embaraços diplomáticos entre China e Japão. O governo russo também nega as alegações de estupro e diz que são uma campanha difamatória da história russa na Segunda Guerra Mundial.

       São os horrores das duas grandes guerras mundiais que contribuem para os esforços entre as nações em criarem organizações e leis internacionais que promovam a paz e estabeleçam normas que devem ser respeitadas pelos países tanto em tempos de paz quanto em tempos de guerra entre os Estados (ou intra-Estado, como é o caso da guerra civil na Síria). Assim nasce a ONU e diversas convenções internacionais são realizadas. No entanto, vimos estupros sistemáticos nos conflitos em Ruanda, na Bósnia, no Afeganistão e agora na Síria: seja por parte do exército de Bashar al Assad ou do Estado Islâmico. Até quando? Até quando as mulheres vão ser tratadas como mero objeto em meio a conflitos armados? Acredito que, enquanto forem igualmente tratadas como mero objeto no cotidiano de tempos de paz, em tempos de guerra (quando homens têm autorização para matar) o que será do nosso consentimento de mulher?

Eneida Queiroz – Historiadora do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram/MinC) e autora de romances históricos, como “A mulher e a casa” e “Úmida trama: arte, sexo e feminismo”.

 

Referências Bibliográficas:

ASH, Lucy. “70 anos após fim da guerra, estupro coletivo de alemãs ainda é episódio pouco conhecido”. In: BBC Brasil. 08/05/2015. Disponível em: http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/05/150508_estupro_berlim_segunda_guerra_fn

MEDEIROS, Rostand. “Outra face da II guerra – as violações sexuais praticadas pelos aliados contra as mulheres alemãs”. 20/05/2015. In: TOK de História. Disponível em: https://tokdehistoria.com.br/2015/05/20/outra-face-da-ii-guerra-as-violacoes-sexuais-praticada-pelos-aliados-contra-as-mulheres-alemas/

PORTO, Alexandre Vidal. “Estupro: arma de guerra”. In: Folha de São Paulo. 31/05/2016. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/alexandrevidalporto/2016/05/1776502-estupro-arma-de-guerra.shtml

COLI, Jorge. Como estudar a arte brasileira do século XIX? São Paulo: Editora Senac, São Paulo, 2005.

 

zalongo

“As mulheres suliotas”, de 1827, de Ary Scheffer.

 

 

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