A obsessão pelo luxo: uma sociedade de aparências?

A chegada da Família Real Portuguesa, em 1808, trouxe importantes desdobramentos, dentre eles destacamos: a abertura dos portos às nações amigas (de novo, leia-se Inglaterra e seus aliados), a permissão de entrada aos estrangeiros e o início tímido das manufaturas. Em 1815, o Brasil é elevado à condição de reino, já que Portugal se torna Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves. Tal medida se justificava porque D. João VI precisava apresentar Portugal como uma grande nação no Congresso de Viena, no qual as principais potências da Europa tentavam reorganizar o continente após a derrota de Napoleão Bonaparte. O Brasil ajudou os portugueses a manter seus domínios territoriais nestas negociações.

A corte portuguesa não era das mais glamourosas e quando chegou à Colônia – em uma manobra ousada para escapar dos impulsos imperialistas de Napoleão e das pressões inglesas – estava faminta, exaurida pela longa viagem de navio, endividada e ávida pelas riquezas americanas. Mesmo assim, houve alguma movimentação que empolgou as elites, como bailes, cerimônias de beija-mão e outras cerimônias oficiais, óperas e teatros, além da generosa distribuição de títulos de nobreza (sonho da nossa aristocracia sem títulos). O povo também se alegrava em fazer festas nas ruas à passagem do monarca. Nos treze anos que passou aqui, a corte também trouxe medidas bastante desagradáveis para a população, entre elas, o confisco de casas e alimentos para abrigar os recém-chegados e o ataque aos cofres públicos – a corrupção já então velha conhecida dos brasileiros, continuou a florescer.

Com a liberação dos portos à importação de artigos ingleses e de outros países, o Brasil foi tomado por um desvario consumista. Finalmente, os mais abastados tinham um grande leque de opções de produtos de luxo para gastar seu dinheiro. Surgem as lojas sofisticadas que se agrupavam em regiões da cidade, principalmente no Rio de Janeiro. Os estabelecimentos que ofereciam serviços ligados à beleza e à higiene pessoal também pipocam: peruqueiros, cabeleireiros, perfumistas, barbeiros.

Revistas e suplementos voltados para o público chic, incluindo as mulheres, traziam as novidades em moda, teatro, literatura e espetáculos.“O Espelho” foi um semanário de vida curta (1859-1860), mas, que reuniu intelectuais como Machado de Assis e Álvares de Azevedo. Vejamos como o autor da coluna “Chronica elegante” caracteriza a rua do Ouvidor, templo do comércio chic carioca, comparável à “rua Rivoli de Paris”. “A nossa rua do Ouvidor já póde dar o que falar a qualquer parisiense recem-chegado. A elegância e a belleza deram-se as mãos e della fizeram um paraíso terreal. É o rendez-vous do belo[1]”.

O Império é substituído pela República. O baile da Ilha Fiscal[2] foi o último suspiro do governo de D. Pedro II (na verdade, o imperador era avesso a toda pompa e ostentação). A paixão dos brasileiros pelo luxo, contudo, não se esvai com os ideais republicanos.

O mundo ocidental viveu um período de prosperidade econômica e “euforia” em relação às mudanças sociais – foram os tempos da Belle Époque (1890-1914). Industrialização, estabilidade política, aburguesamento das elites, liberação feminina, tudo isso criou um ambiente de alegria e esperança, até a eclosão da Primeira Grande Guerra (1914-1918), que veio interromper estes tempos de delírios otimistas.

O Brasil também queria beber desta fonte de beleza e frivolidade. Após a proclamação da República (1889), as nossas elites passaram a sonhar com um país moderno, europeu. As turbulências políticas foram sufocadas, a “política dos governadores” amenizou as tensões, pelo menos temporariamente. O poder e o dinheiro haviam mudado de mãos: os velhos gentis-homens que sobreviveram à queda do Império davam passagem aos burgueses de ares cosmopolitas.

As grandes capitais, principalmente Rio de Janeiro e São Paulo, esforçam-se para se adaptar aos padrões europeus. Todos queriam ser chics e falar francês; as mulheres de sociedade vestiam-se de melindrosas, os homens deixavam para trás as casacas escuras e as cartolas e passaram a usar ternos claros de casimira, chapéus de palha (Panamá). Os dândis e a melindrosas eram as figuras-fetiche da high society. A crônica social invade os jornais e dita padrões de moda e comportamento. A elite se tornou mais ostensivamente consumista. O luxo era uma obsessão.

Aquele velho desejo, presente desde os primórdios da colonização, de manter distância da “arraia miúda” adquire novas roupagens. Até então, a aristocracia se reunia em mansões, clubes, palacetes e ruas de comércio elegante, deixando o restante do espaço público para o “povinho mestiço e pobre”. Agora, a cidade deveria se curvar ao “belo e civilizado” modo de vida dos mais abastados. A solução era expulsar os pobres dos centros urbanos, proibí-los de circular lado a lado com os chics ou smarts e reurbanizar as cidades. Rio de Janeiro e São Paulo seriam iguais a Paris! Obras faraônicas abriam largas avenidas e erigiam prédios suntuosos, campanhas de saúde pública e higiene marginalizavam e assustavam cada vez mais a população.

O Rio de Janeiro passou por uma “regeneração” urbana[3]. Leis foram aprovadas para impedir que os mais pobres andassem descalços ou mal vestidos pelo centro. Os cortiços foram derrubados e os moradores empurrados para a periferia. Tínhamos que esconder o lixo, sujo e feio, embaixo do tapete[4].

 

Não importava que São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador ou qualquer outra capital sofresse com a falta de saneamento básico, moradias com mínimas condições de serem habitadas ou com a pobreza endêmica: o importante era que o estrangeiro que visitasse estas cidades visse apenas o lado agradável e civilizado delas. A preocupação não era resolver as grandes questões sociais, mas, apenas mandá-las para longe dos olhos mais sensíveis.

Na chamada Belle Époque, tal ideia parece chegar ao ápice, já que ninguém mais se sentia constrangido em ser frívolo, como observou o professor Nicolau Sevcenko[5]. Criam-se leis que proíbem os pobres de andar descalços ou mal vestidos; os chics substituem os prosaicos “bom dia, boa tarde e boa noite” por um“Viva a França”. Tudo isso, como seria de se esperar, acompanhado de um grande consumismo e um agressivo exibicionismo.

  • Texto de Márcia Pinna Raspanti.

NOTAS:

[1] O Espelho – revista semanal de literaturas, modas, indústrias e artes. Edição fac-similar (1859-1860).  Rio de Janeiro, Fundação Biblioteca Nacional, 2008. p. 21

[2] ASSIS, Machado de. Esaú e Jacó. São Paulo, Gráfica Editora Brasileira, 1952.

[3] SEVCENKO, Nicolau. Literatura como Missão – Tensões sociais e criação social na Primeira República. São Paulo, Companhia das Letras, 2003 (2ª edição revista e ampliada).

[4] AZEVEDO, Aluísio. O Cortiço. São Paulo, Editora Martin Claret, s.d.

Largo de São Francisco, no centro do Rio de Janeiro: foto de Marc Ferrez.

 

 

 

 

[5] Op. Cit.

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