Turbantes, moda e racismo

         Os turbantes estão na moda, assim como a tendência chamada “étnica”. Tenho visto muitas mulheres, de diferentes idades, fazendo uso desse acessório. Observei também que existe certa polêmica quanto a ele: andei pesquisando e descobri que algumas pessoas acham que usar turbante é uma forma de racismo, já que o adereço possui significado religioso para algumas culturas. O turbante seria ainda um dos símbolos da luta do movimento negro e seria um desrespeito vesti-lo por puro modismo. Vamos, então, à História, que sempre nos ajuda nesses momentos.

         Não se sabe exatamente a origem do turbante, que pode ter surgido no Oriente ou na África. Encontrei referências ao uso do acessório no livro “História Ilustrada do Vestuário”, organizado por Melissa Leventon, em diferentes épocas e por diversas etnias. Persas, anatólios, lídios, árabes, argelinos, judeus, tunisianos aparecem com turbantes, utilizados de várias maneiras, bem antes da era cristã. Na Índia, o turbante também foi amplamente usado através dos séculos. O interessante é que entre os povos antigos, o adereço era predominantemente exibido por homens.

        Os significados eram muitos: podiam indicar a origem, tribo ou casta da pessoa, identificar a religião (como o Ojá africano) ou a posição social. O comércio tratou de estabelecer as relações entre Oriente e Ocidente, facilitando as trocas de costumes e culturas. A Europa também aderiu ao turbante, primeiramente entre marinheiros e navegadores. Mas, há referências ao uso de turbantes como item de moda pelas mulheres francesas já no século XVIII. Feito com grande quantidade de tecidos leves arranjados cuidadosamente na cabeça das damas, o turbante foi sucesso até meados do próximo século.

      No Brasil, o adereço chegou pelas mãos dos africanos que eram trazidos como escravos. As mucamas usavam saias, blusas leves e soltas, panos e xales nas costas e turbantes nas cabeças. O chapéu de feltro escuro e de abas largas também era comum. Os tecidos podiam ser coloridos, e algumas andavam de chinelas. Os cabelos eram muito curtos ou raspados. Não gosto de usar o termo “moda” para designar a indumentária dos cativos, pois, sabemos que havia uma série de restrições legais e econômicas que limitavam as suas escolhas.

      Por volta de 1910-20, o costureiro francês Paul Poiret trouxe os turbantes de volta ao cenário fashion. Coco Chanel também iria aderir ao adereço.  A moda, porém, realmente se popularizou no final dos anos 30, com a eclosão da II Guerra Mundial. Em tempos difíceis, os práticos turbantes se tornaram uma ótima ajuda para disfarçar cabelos mal cuidados. Muitas atrizes de Hollywood apareceram retratadas com glamorosos turbantes nos anos 20 a 40. No Brasil, Carmen Miranda iria adotar o acessório no seu figurino. Nos anos 60, o turbante ressurgiu como símbolo da cultura negra, nos movimentos que lutavam pelos direitos civis.

        E hoje? Tenho visto mulheres que adotam o adereço por achar prático ou bonito, mas também grupos de mulheres negras que utilizam como elemento de afirmação cultural. Há ainda o uso ligado à religião. Será que realmente existe esse componente racista na moda dos turbantes? É possível definir que teria direito a usá-los? Acho que não. Como vimos, eles foram apropriados pelas mais diferentes culturas em épocas distintas, e provavelmente vão continuar a fazer a cabeça das mulheres e talvez, até dos homens. É a lógica da moda…

  • texto de Márcia Pinna Raspanti.

marleneturbantesescravos1

Turbantes: Marlene Dietrich e outras atrizes de Hollywood; escravos no Brasil (Rugendas).

66 Comentários

  1. Maria do Carmo 10 de abril de 2019
  2. Rose 17 de agosto de 2018
  3. Flavia 3 de setembro de 2017
  4. Suzete Brito 8 de agosto de 2017
    • elio 9 de agosto de 2017
    • Ana de Jesus 5 de outubro de 2017
    • Levi 27 de dezembro de 2017
    • Paula Nusa 21 de fevereiro de 2018
  5. isi 6 de julho de 2017
    • elio 6 de julho de 2017
  6. elio 29 de Maio de 2017
    • Márcia 29 de Maio de 2017
  7. Flavia Vidal Magalhães 8 de Maio de 2017
    • Márcia 9 de Maio de 2017
      • Flavia 10 de Maio de 2017
        • Márcia 10 de Maio de 2017
    • DANIELA 17 de Maio de 2017
    • elio 29 de Maio de 2017
  8. Sandra 9 de março de 2017
  9. raquel 3 de março de 2017
  10. Zeneida Silva 28 de fevereiro de 2017
  11. Vi 24 de fevereiro de 2017
    • Márcia 24 de fevereiro de 2017
    • Pri 1 de março de 2017
    • edu 11 de março de 2017
      • edu 11 de março de 2017
  12. João 22 de fevereiro de 2017
  13. Nilda Costa 16 de fevereiro de 2017
    • Márcia 16 de fevereiro de 2017
    • Maria Lucia Daflon 21 de fevereiro de 2017
  14. Rodrigo Alves 14 de fevereiro de 2017
    • Nina 18 de fevereiro de 2017
    • edu 11 de março de 2017
  15. Jubs 14 de fevereiro de 2017
    • Márcia 14 de fevereiro de 2017
  16. alex 14 de fevereiro de 2017
    • Márcia 14 de fevereiro de 2017
  17. VITOR 13 de fevereiro de 2017
    • Márcia 13 de fevereiro de 2017
  18. Érica 28 de dezembro de 2016
  19. João 30 de agosto de 2016
    • Márcia 30 de agosto de 2016
  20. Joana 18 de junho de 2016
  21. Andressa 23 de fevereiro de 2016
    • marcia 23 de fevereiro de 2016
      • Andressa 23 de fevereiro de 2016
        • Andressa 23 de fevereiro de 2016
        • marcia 23 de fevereiro de 2016
          • Andressa 23 de fevereiro de 2016
  22. Camila Fernandes 6 de fevereiro de 2016
    • Andressa 23 de fevereiro de 2016
  23. Pingback: Looks com turbante – Cachos e Outras Ondas 29 de janeiro de 2016
  24. Graciela 15 de janeiro de 2016
    • Andressa 23 de fevereiro de 2016
      • Rafael José Nogueira 17 de fevereiro de 2017
      • Flavia 3 de setembro de 2017
  25. rebeca 19 de Maio de 2015
  26. Gabriela 30 de janeiro de 2015
    • marcia 31 de janeiro de 2015
      • Lúcia Leiro 4 de junho de 2015
      • Paula 13 de junho de 2015
      • gloria correia 7 de agosto de 2016
    • daianarcanjo 27 de setembro de 2015
      • marcia 27 de setembro de 2015
  27. Márcia 30 de janeiro de 2015

Deixe uma resposta