Quem tem medo do voto feminino?

       Por Márcia Pinna Raspanti.

 

       A luta das mulheres por um papel mais efetivo na política não é nova: desde 1830, escritoras como Nísia Floresta e Narcisa Amália tomaram da pena para reivindicar uma educação mais igualitária para uma maior atuação na sociedade. Nestas eleições, quase dois séculos após a atuação dessas pioneiras, as mulheres estão se organizando para que suas vozes sejam ouvidas. Hoje, elas representam 53% do eleitorado brasileiro. Muitos analistas têm afirmado que o voto feminino irá decidir o pleito. Um dos candidatos, Jair Bolsonaro (PSL), com suas afirmações “polêmicas” atingiu um índice de rejeição de 49% entre as eleitoras, segundo o Datafolha. E elas começaram a se mobilizar: foi criado um grupo apartidário na internet de repúdio ao deputado de extrema-direita que ultrapassou rapidamente a marca impressionante de 2,2 milhões participantes – todas do gênero feminino.

       Isso deflagrou uma guerra no campo virtual: homens e mulheres que apoiam o candidato têm se mobilizado no sentido contrário. As mulheres também são maioria entre os eleitores indecisos. Isso tudo demonstra que, apesar de terem adquirido o direito a voto em 1932, elas se sentem subrepresentadas e não aceitam mais essa situação. Dos 13 presidenciáveis, apenas cinco apresentam propostas concretas em relação a elas (Fernando Haddad do PT, Ciro Gomes do PDT, Marina Silva da Rede e Guilherme Boulos do PSOL e João Vicente Goulart do PPL) – outros quatro apenas citam genericamente o termo mulher. (https://www.cartacapital.com.br/politica/como-os-planos-de-governo-incluem-as-mulheres)

       Parece que os partidos ainda não entenderam a importância do voto feminino… Segundo a Justiça Eleitoral, 8.599 mulheres vão disputar as eleições de outubro, um aumento de pouco mais de 5% em relação a 2014. O percentual de candidaturas femininas, no entanto, continua o mesmo: 30%, que é exatamente o mínimo exigido pela lei. O Brasil ocupa a posição de número 152 num ranking de 193 países sobre participação feminina na política.

      Curiosamente, temos várias candidatas à vice-presidência: Mauela D’Ávila (PCdoB), Sônia Guadalajara (PSOL), Ana Amélia (PP), Kátia Abreu (PDT) e Suelene Nascimento (Patriota); enquanto Marina Silva (Rede) e Vera Lúcia (PSTU) disputam a presidência da República. Isso nos garantirá maior representatividade? A conferir, mas pela movimentação nas redes sociais, vemos que as mulheres não estão esperando que os partidos lhes concedam espontaneamente  maior participação política: estão se unindo em torno de pautas comuns e contra o que consideram prejudicial a elas.

          E sempre foi assim ao longo de nossa História. Mary del Priore conta que as mudanças trazidas pela República convidaram à fundação de organizações de luta. O Partido Republicano Feminino abriu suas portas a 23 de dezembro de 1910. Na presidência, a feminista baiana Leolinda Daltro. Objetivos? Promover a cooperação para o progresso, combater a exploração relativa ao sexo e o direito ao voto. A discussão sobre o tema vinha se arrastando desde 1880. Leolinda e suas companheiras de militância, não perdiam uma única oportunidade de promover o partido. Em novembro de 1917, levaram as ruas do Rio de Janeiro, dezenas de simpatizantes do sufrágio universal.

      Depois, foi a vez da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino. Lideradas pela bióloga Bertha Lutz, as sufragistas encontraram no senador Juvenal Lamartine um apoio para animar seu combate. Parceria duradoura, pois Bertha acompanhava o político em seus deslocamentos, aproveitava para fazer discursos, distribuir panfletos e dar entrevistas.

     Em 1930, começou a tramitar no Senado o projeto que daria o voto às mulheres, mas com a Revolução, as atividades parlamentares foram suspensas. Depois da vitória das forças democráticas, foi nomeado um grupo de juristas encarregado de elaborar o novo código eleitoral. Entre eles estava Bertha, formada em Direito. A Revolução Constitucionalista atrasou mais uma vez a aprovação do projeto. Só em fevereiro de 1932, Getúlio Vargas assinou o tão esperado direito de voto. Mulheres como Bertha Lutz tiveram todas as chances de fazer uma carreira política.

      Esperamos que a eleição de 2018 marque uma nova era na política nacional: que os partidos e candidatos entendam a urgência de, em primeiro lugar, respeitar as mulheres, criando políticas públicas para atender suas necessidades, e de incluí-las – de verdade – em seus programas de governo. Afinal, certas lideranças políticas estão aprendendo que não se pode ignorar mais da metade dos eleitores brasileiros…

  • Texto de Márcia Pinna Raspanti.

Charge da revista Fon_fon sobre o movimento sufragista no Brasil

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