Das páginas dos jornais para o panteão dos heróis nacionais

Inimigos de José Bonifácio o intrigavam junto a D. Pedro e passaram a contar com uma aliada poderosa, a futura marquesa de Santos, com quem o Príncipe iniciara uma ligação amorosa. Sobre ela, contou um memorialista, confidente dos Andrada que Bonifácio teria dito a D. Pedro: “Ontem eu já esperei que V. M me falasse nisso. Estou informado que é empenho da Domitila e que essa mulher recebe para isso uma soma de dinheiro”. Gota d´água. Bonifácio considerou-se demitido naquela noite. E anotou: “Como sabia que eu não sabia dobrar o joelho, nem aviltar a dignidade de homem procurou estomacar-me”.

D. Pedro demitiu o ministério e Bonifácio passou à oposição. Saiu atirando: culpou o Imperador, os “pés de chumbo”, os corruptos e os defensores do absolutismo. Ao acusá-los, colocava-se, junto com os irmãos no patamar dos homens probos, sem mácula de roubalheira que foi, aliás, uma característica do período. Saíam do governo, “em honrosa pobreza” – deles disse John Armitage, representante de uma firma inglesa, na capital. Mas, no fundo, Bonifácio sabia que estava politicamente frágil, e que suas propostas reformistas e suas práticas autoritárias não desciam pela goela dos opositores.

Fundou, pois, O Tamoio, título proposital por ser a nação indígena que mais combateu os portugueses. Em suas páginas criticava “democratas”, “corcundas”, como eram chamados os favoráveis ao poder autoritário e “pés de chumbo” que mais e mais cercavam o Imperador. Contra seu jornal se erguiam O Correio do Rio de Janeiro, O Espelho e o Diário do Governo que, além de defender o governo, o acusavam de intrigar brasileiros e portugueses.

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Os irmãos Andrada também eram fustigados pelo Sylpho, de Ledo e Januário da Cunha Barbosa. Na guerra de papel, ficavam claros os projetos de Bonifácio para o Brasil. Por um lado, abolição e emancipação dos índios, incluídos na sociedade graças a educação pública e a destruição de preconceitos e abusos “tão antigos como as nossas cidades e vilas”. Por outro, uma soberania política determinada pela nação. E o que seria a nação? A parcela “esclarecida” limitada a um circuito restrito de proprietários. Ao contrário dos democratas como Soares Lisboa que afirmavam que o princípio da nação era determinado pelo “povo”, Bonifácio insistia em que nenhum Estado representativo dava participação de sua soberania às mulheres, aos meninos, aos imbecis.

Mas, com tantas acusações, de onde veio a imagem de “patrono da Independência” associada à Bonifácio? Até pouco antes do sete de setembro, os elogios que lhe eram dirigidos como varão sábio e judicioso, eram insignificantes. Os holofotes estavam sobre D. Pedro e o sábio da Corte era José da Silva Lisboa, futuro Visconde de Cairu, economista leitor de Adam Smith, jurista e político amicíssimo de D. João VI de quem foi assessor para assuntos econômicos e de D. Pedro. Aliás, Bonifácio malevolamente o chamava “Sílvio, o corcunda, fração de gente, charlatão idoso”. Raramente, qualquer dos Andrada recebia elogios. Porém, Frei Francisco Sampaio, importante figura da maçonaria, fundou O Regulador Brasileiro onde brotariam – et pour cause – os maiores elogios à Bonifácio. Foi, portanto no Regulador que teve início o engenhoso trabalho de criação da imagem que o fixaria na História. Trabalho intensificado quando os irmãos passaram a editar O Tamoio.

O Tamoio estava repleto de textos em que os irmãos pareciam como cidadãos especiais, donos de inteligência privilegiada, de coragem denodada. Ficava evidente o alto conceito que os Andrada tinham deles mesmos e a distância que estabeleciam entre eles e os seus concidadãos. Numa entrevista  intitulada o “Velho do Rossio”, por sua residência no Largo do mesmo nome, Bonifácio era pintado com as mais belas cores. (…) Segundo O Tamoio, os Andrada eram os responsáveis pela Independência. Muitos discordavam. E os demais jornais, Sylpho, Malagueta, Correio e outros tinham seus candidatos. Até desmascaravam a supervalorização promovida pelo Tamoio.

Foi graças às páginas do jornal que eles entrariam para o panteão dos heróis nacionais. Mas, em 1823, Bonifácio era apenas mais um político, apoiado por alguns, criticado por muitos, agora afastado do governo. Um entre muitos deputados na Constituinte – bem resumiu uma biógrafa.

  • Texto extraído de “As vidas de José Bonifácio”, de Mary del Priore (Estação Brasil, 2019).
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