D. Pedro e Leopoldina: a última humilhação

         No início de novembro, morria o pai de Domitila, o coronel reformado João de Castro Canto e Melo, feito visconde de Castro, grande do império e gentil-homem de Sua Majestade. Tinha 86 anos de bons serviços prestados à coroa. Amicíssimo de D. João VI. Seu erro? Ter consentido o adultério da filha. Correu pela cidade que os gastos do funeral foram excessivos. O velho senhor teve as honras de estribeiro-mor, cargo que recebeu sem saber, pois já delirava. No dia 6 de novembro, o jornal O Spectador Brasileiro publicava: “O tesoureiro da Casa Imperial, Plácido Antonio Pereira de Abreu, por ordens de Sua Majestade Imperial, anunciou que tem ordem do mesmo Augusto Senhor para pagar todas as dívidas que se lhe apresentarem do falecido Visconde de Castro.” Até isso.

Ou talvez isso: não se sabe o que foi a gota d’água para Leopoldina. Mas, ela cansou. Ao voltar D. Pedro, recebeu-o com unhas e dentes, numa cena infernal. Trocaram insultos. Ela ameaçou recolher-se ao Convento da Ajuda, à espera de que o pai a mandasse levar de volta para a Áustria. Fez as malas do imperador e disse-lhe que fosse viver para sempre com a favorita. Ele revidou, acusando-a de gastar demais com comida e ameaçando cortar pela metade as despesas da cozinha. Os biógrafos divergem sobre uma agressão na frente do cozinheiro francês. Há, porém, registros de que ele teria se destemperado.

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Compaixão, amizade? Não se sabe o que fez D. Pedro, mais tarde, pedir-lhe perdão. Às vésperas da partida do imperador para o Sul, o conde de Gestas soube e anotou: “A saúde perturbada por um início de gestação foi ainda mais alterada pela partida de seu Augusto Esposo. Garantiram-me que ela recebeu ternas marcas de afeto nos seus últimos dias.” O imperador desculpou-se antes de ir para a guerra, que não ia bem. O esforço para reaver a Banda Oriental e a fronteira no estuário do Prata estava em curso. Na batalha conjugal, porém, ela perdoou tudo: as infâmias e vexames, a amante na porta ao lado, a bastarda a brincar com seus filhos. Voltou a achar que ele era o melhor de todos os esposos.

         Para confirmar as pazes, ele passou três noites com ela. Preocupou-se com sua saúde. Ela deu-lhe um anel romântico, com dois brilhantes, dois corações e o nome de ambos unidos e gravados. E
avisou: “Eu estou morrendo […] quando você voltar do Rio Grande, eu não estarei mais aqui. Os que são separados na vida serão unidos depois da morte.” Despediram-se chorando. Ela arrematou: “Que todos o perdoem e ninguém lhe guarde rancor.” Abatido, D. Pedro deixou a esposa. Mas partiu com antecipadas saudades da amante.

         E não sem antes fazer uma última desfeita a Leopoldina. Na noite anterior ao embarque, ele tentou forçar a imperatriz a entrar no salão, onde se realizava a cerimônia do beija-mão, acompanhada apenas pela dama paulista. Queria deixar Titília amparada pelo teatro que ele mesmo orquestrara para enganar a opinião pública. A esposa não cedeu, pois julgava o ato atentatório a sua dignidade. Vários biógrafos revelam que ele tentou arrastá-la para a sala com imprecações e gestos violentos. Deu-lhe pancadas? Alguns preferem falar em maus-tratos. A verdade é que ela “foi conduzida do lugar da entrevista para um leito de dor”, segundo testemunhas.

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        A visita de D. Pedro ao Sul, porém, foi interrompida abruptamente. As notícias começaram a circular na imprensa, assim que ele deixou a capital. O Spectador Brasileiro começou anunciando que a imperatriz estava, “há alguns dias, acamada com uma erisipela”, mas “ia progressivamente melhor”. Comum nos obesos como Leopoldina, a infecção causava febre, náuseas, vômitos, pele brilhosa, vermelha e quente. Era chamada de mal de Santo Antônio. Rumores, contudo, diziam que o problema era mais grave. Irmandades e confrarias se associavam em procissões e missas. Andores enchiam as ruas. O pedido era um só: “que o Supremo Árbitro da Vida e da Morte prolongasse os preciosíssimos dias de Sua Majestade a Imperatriz”:

“O povo desta capital continua na sua ansiedade a procurar todos os
momentos conhecer seu estado efetivo, já pelos boletins médicos, já
pessoalmente dirigindo-se à Quinta onde se misturam grandes e pequenos
nacionais e estrangeiros, ricos e pobres, com lágrimas nos olhos, o rosto abatido e
o coração repassado de amargura e inquietação, fazem, tremendo, esta pergunta:
Como está a imperatriz?”

  • Mary del Priore. “A Carne e o Sangue”. Editora Rocco, 2012.

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  1. Alexandre de Lira Dantas

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