A “sinhá” e as mucamas

 

A comemoração de aniversário de Donata Meirelles, diretora de Estilo da Vogue Brasil, gerou uma grande polêmica. Criticada nas redes sociais, Donata acabou pedindo demissão do cargo que exercia há sete anos. Fotos em que a aniversariante e os convidados aparecem sentados em uma cadeira cercados por baianas vestidas a caráter causaram mal estar. O debate sobre o teor racista da comemoração tornou-se inflamado. Mais do que condenar ou defender qualquer um dos envolvidos, podemos levar a discussão para o nível simbólico. O que toda essa repercussão diz sobre a sociedade brasileira? Em primeiro lugar, acredito que as fotos incomodaram tanta gente por alguma razão. E vale a pena refletir sobre isso.

A veterana Elza Soares se manifestou sobre o assunto e colocou o dedo na ferida:

“Quer ser elegante? Então pense no quanto pode machucar o próximo, sua memória, os flagelos do seu povo e suas origens, ao escolher um tema para celebrar uma festa ou “enfeitar” um momento feliz de sua vida. Felicidade às custas do constrangimento do próximo, seja ele de qual raça for, não é felicidade, é dor. No fundo é fácil perceber esse limite tênue. Elegância é pensar antes de agir, por mais inocente que sua ação pareça ser.  A carne mais barata do mercado FOI a carne negra e agora NÃO é mais. Continuaremos “desenhando” isso pra quem não compreendeu ainda. Escravizar, nem de brincadeira.”

O racismo cultural nos remete à colonização, á escravidão e à desqualificação das chamadas “raças inferiores”. Ao negro, sempre foram reservadas as funções subalternas, braçais – por que o trabalho era considerado degradante. Os viajantes estrangeiros ficavam horrorizados com muitas das nossas sinhás que não se levantavam para pegar um copo de água, mas ordenavam que suas mucamas o fizessem. Independente das intenções da anfitriã (que pediu desculpas pelo ocorrido), as fotos da festa despertaram as lembranças de nosso passado escravista. As imagens têm um forte apelo simbólico e evocaram tristes memórias, nesse caso.

Ser mulher, em uma sociedade patriarcal, era ser inferior. A mulher tinha como função servir o homem: as brancas como parideiras e donas de casa; as negras para trabalhar e para os apetites sexuais. “Branca para casar, negra para trabalhar, mulata para f…”, era o ditado da época. Hoje, passados mais de 120 anos da abolição da escravidão ainda pagamos um preço alto pelo nosso passado. Somos racistas, mas negamos veementemente (conheço poucos brasileiros que admitem abertamente o racismo). Queremos crer que vivemos na tal “democracia racial”. Muitos desqualificam esse desconforto que o racismo causa, negando a nossa História.

Joaquim Nabuco, em “Minha Formação”, no final do século XIX, já alertava acertadamente que “a escravidão permanecerá por muito tempo como característica nacional do Brasil”. Essa frase não poderia ser mais acertada…

  • Texto de Márcia Pinna Raspanti. 
reprodução

Reprodução/Intagram

7 Comentários

  1. Nilson 15 de fevereiro de 2019
  2. Vaneza Narciso 14 de fevereiro de 2019
    • Márcia 14 de fevereiro de 2019
  3. Helena 14 de fevereiro de 2019
    • Márcia 14 de fevereiro de 2019
  4. Ricardo Leoni 14 de fevereiro de 2019
    • Márcia 14 de fevereiro de 2019

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