Vive la France!

Publicado em 10 de dezembro de 2013 por - História do Brasil

Nunca é demais lembrar que os franceses estão presentes em nossa história, desde seu início. Contrabandistas de madeiras nobres e tintoriais, vindos da Normandia, logo estabeleceram contatos com nossos índios em áreas menos guarnecidas: entre o cabo de São Roque e a Paraíba do Norte; ao longo da costa de Alagoas e de Sergipe; por certos recantos do Rio de Janeiro e da Bahia. Rapidamente, eles se fizeram conhecedores da “costa do pau Brasil”,  tornando-se, segundo Gilberto Freyre, “don juans de índias”. O resultado? As primeiras cabeleiras cor de milho, entre nós. Por meio do contrabando de madeira os europeus descobriram, além das madeiras, as aves, os animais, as plantas brasileiras e certos usos e costumes de nossos índios.

            Em 1550, na cidade de Rouen, numa festa oferecida a Henrique I e Catarina de Médicis, toda uma aldeia de índios brasileiros foi reconstituída para entreter os monarcas franceses, com a presença de alguns “sauvages” autênticos, mas muitos franceses fantasiados. A influência se desdobrou na filosofia política, por meio de Montaigne e nas artes. O Renascimento francês, em frisos e pinturas, utilizou imagens de nossos indígenas, de suas coifas de plumas e de frutas tropicais que podem ser vistos, por exemplo, no altar que Jean Ango, flibusteiro a serviço do rei francês, faz construir em sua cidade natal, Dieppe.

Em 1555, Villegagnon se estabelece no Rio de Janeiro e seu entusiasmo pela vida livre dos selvagens americanos e pelos seus métodos de governo acabou por influenciar a teoria e a mística da Revolução Francesa. A ele se seguiu no Norte, a presença do Senhor de la Ravardiére, que fundou, na então chamada França Equinoxial, a cidade que guarda o nome de um rei de França: São Luís. Também no folclore do Norte, várias brincadeiras infantis e os cantos que as acompanham, guardam reminiscências francesas:

“Nous allons dancer

matatira; tira,tira

avec qui dancerez

matatira, tira,tira”

            Ainda, no período colonial, tivemos a visita de cronistas que deixaram suas impressões e observações etnográficas sobre a primeira centúria de colonização: o franciscano Thevet e o protestante Lery. Já o missionário Claude d´Abbeville foi agente de cristianização no Brasil. Na última fase colonial, os trabalhos de naturalistas culminaram no do viajante Saint-Hilaire, nos desenhos de Debret, na expedição científica de Castelnau, nos estudos de doenças de Rendu e Sigaud. Outros muitos autores deixaram observações interessantes sobre nosso país: Froger, Frézier, le Gentil, De Freycinet, Tollenare, Ribeirolles, Expilly, Dabadie.

No cotidiano de nossos antepassados, grande foi a influência da França, no período de D. João VI. Hábitos franceses de consumo invadiram o cotidiano. Produtos importados ganharam as prateleiras. Em 1817, o negociante francês Carlos Durand, por exemplo, anunciava novidades: cheiros, água de Cologne, diversas essências e vinagres para toucador e para mesa, luvas, suspensórios, sabão, leques de toda a sorte, escovas e pentes de todas as qualidades, sapatos e chinelas para homens e senhoras, de seda e marroquim, botas de Paris, caixas de tabaco, caixas de costura para senhoras, velas e azeite clarificado para lustres, chapéus de palha e castor para homens e meninos, chapéus de palha para senhoras, chapéus de seda, penachos, fitas, filós, flores artificiais, mesas e espelhos de toucador, espelhos de todos os tipos com e sem moldura, bijuteria falsa e verdadeira, pêndulos, relógios de repetição, assortimento de livros franceses.

Palavras francesas ganhavam espaço no diálogo do dia-a-dia: “No salão do maître-coiffeur se quiser cortar o cabelo, será conduzido a um gabinete de espelhos onde poderá fazer o corte à française ou à anglaise.(…) César, o maître-tailleur, acaba de instalar seu atelier duplo”. Os jornais da primeira metade do século XIX também trazem anúncios em que os franceses oferecem seus serviços: “mancebo francês” para dar à “famílias lições de francês com perfeição gramatical” ou “Auguste, cozinheiro francês. Também “Doutor em Medicina pela Universidade de Paris” ou parteiras, como a célebre Madame Durocher, anunciavam sua ocupação. Com a Abertura dos Portos chegaram emigrados ilustres, o que aumentou a influência francesa e a língua diplomática e literária colaborou ainda mais para irradiar sua presença entre nós. Engenheiros  formados pela École Polytechnique foram responsáveis pelos primeiros trabalhos de saneamento urbano, no Brasil. Foi na década de 1840, o caso do pioneiro Louis Vauthier, em Recife.

Um preconceito, contudo, subsistia: contra o livro francês, portador de idéias “ímpias, libertinas e ateias”, sobretudo durante a Revolução Francesa. Só depois da chegada dos monarcas portugueses seria estabelecida a aula regular de língua francesa ao lado da língua latina. Em poucas décadas, o padre Lopes Gama, inimigo das inovações, escreveria, indignado, em seu jornal panfletário, O carapuceiro: “O Francês já toma hoje o lugar do latim”!

Na renovação urbana a presença francesa se fez sentir igualmente. O jovem Pereira Passos estava em Paris, em 1857 completando seu aperfeiçoamento como engenheiro na famosa École des Ponts et Chaussées quando o barão Haussmann interveio na capital. Na década de 1870, ele participou da Comissão de Melhoramentos da cidade do Rio de Janeiro, para a organização de um plano de reforma. O Plano fracassou mas o paisagista Glaziou conseguiu transformar o campo de Santana num arremedo do Bois de Boulogne. Anos mais tarde, entre 1902 e 1904, o prefeito Pereira Passos resolveu criar uma “Paris-su-mer”, respondendo às aspirações de uma elite que desejava dar nova feição ao país. Abriram-se novas avenidas – a imponente Av. Central e o início da Av. Atlântica – e rasgaram-se túneis – o do Leme. Arrasaram-se cortiços na Cidade Velha e edificaram-se prédios monumentais, no apreciado estilo eclético tão em voga nas capitais europeias. A ideia era tornar o Rio uma metrópole glamurizada pela decoração; daí a Paris à beira-mar.

Na vida literária a influência também foi grande: em livrarias como a Garnier, a Laemmertz ou a Briguiet, os intelectuais da época compravam traduções de Balzac, Maupassant, Rimbaud, Verlaine, Baudelaire, Hugo, Jean Lorain e Huysmans. Na Biblioteca Nacional, os volumes mais consultados eram Alexandre Dumas, Verlaine e Victor Hugo.  Mesmo no jornalismo, o cronista João do Rio vai emprestar a Emile Zola a idéia de reportagens sobre o “bas-fond” e a vida dos trabalhadores pobres. Na moda, a influência de Paul Poiret vai desfolhar os grandes vestidos rodados, elegendo a imagem da mulher-sílfide, longilínea e magra, em oposição às curvilíneas do final do Império.

Outros muitos exemplos de influência francesa se multiplicaram até a Segunda Guerra Mundial, quando a influência francesa cedeu lugar à americana. Tal saudável influência só podemos saudar com um sonoro: “Vive la France”! – Mary del Priore

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2 Comentários

  1. Excelente artigo. Lembro-me que, na década de 1970, os cartões de AR (aviso de recebimento dos Correios) vinham escritos em português e em francês.
    O Brasil sempre foi um país imitador de idiomas e de costumes de outros países. Uma pena que o brasileiro tenha vergonha de ser brasileiro, a não ser na copa do mundo.

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