Virilidade, lágrimas e futebol – uma reflexão sobre “ser homem”

Publicado em 2 de julho de 2014 por - História do Brasil

Em tempos de Copa do Mundo, fala-se muito da competitividade e até da agressividade do futebol. Em pleno século XXI, os jogadores da seleção brasileira foram muito criticados pelas lágrimas e pelo suposto descontrole emocional na partida contra o Chile. Será que para a maioria das pessoas, homem ainda não pode chorar, nem mostrar suas emoções? Vamos voltar um pouco na História para entender melhor as cobranças da nossa sociedade patriarcal em relação aos papéis masculinos.

É interessante notar que a graça masculina, nos tempos do Brasil Império, não se resumia ao vestuário e aos cuidados com a aparência, mas abrangia uma série de outras habilidades sociais. A educação de um jovem da elite deveria ser planejada minuciosamente, era necessário estudar, aprender línguas estrangeiras (o francês era importantíssimo), boas maneiras, conversar com desembaraço, ter boa postura, ser discreto e, ao mesmo tempo, marcante. Fazer um casamento, com uma noiva rica e bem vista pela sociedade, era outra tarefa que os homens daquele tempo deveriam cumprir com eficiência.

O neto preferido de D. Pedro II, príncipe Pedro Augusto de Saxe e Coburgo (1866-1934), filho de D. Leopoldina, é um exemplo da formação que um jovem da elite recebia. Com a esperança de herdar o trono e tornar-se Pedro III, o rapaz forjou-se em meio à sofisticação, erudição e elegância, mas era parecido com o avô na timidez, principalmente com as moças. Característica que lhe rendia muitos comentários maldosos…Uma boa educação, contudo, transformava mesmo os mais inibidos em homens simpáticos e socialmente adequados. Era bonito, alto, tinha porte, olhos azuis, enfim, era imagem dos príncipes de contos de fadas.

As atividades esportivas e viris eram muito importantes: caça, boxe, duelos com facas e espadas. O rapaz da aristocracia deveria provar a todos que não era efeminado e tinha a agressividade necessária a um homem de verdade. Pedro Augusto era obrigado a fazer exercícios, muitos deles considerados violentos. Era preciso combater algumas características do menino que lembravam o avô imperador, como a lentidão dos gestos, o caráter mais reservado e melancólico.

Pedro ficou conhecido por sua distinção, tanto na Europa quanto no Brasil. Circulava pelos melhores salões, teatros, saraus e festas. Vestia-se de maneira discreta, porém, impecável. Foi educado na Europa, mas passava muito tempo no Brasil e estabeleceu-se aqui na juventude. Não se descuidava da aparência e gastava muito dinheiro para manter uma casa luxuosa, onde recebia as pessoas importantes para seus projetos políticos. Frustrados seus planos para se tornar o terceiro imperador do País, Pedro entrou em um processo de depressão profunda e acabou se suicidando em um sanatório na Áustria, após décadas de sofrimento, em 1934.

Com a República, os atributos viris continuaram a ser valorizados. Nas primeiras décadas do século XX, entrou em voga o sportman. Palavra curta que encerrava um grande número de qualificativos: força, robustez, beleza física, no conta Mary del Priore, em “Matar para não morrer”. Esses eram tempos da footballmania, expressão cunhada pelo educador e ensaísta Fernando de Azevedo. A emergência desta “febre” contaminava os torcedores que usavam a língua inglesa para definir jogadas e jogadores.

Intelectuais conhecidos eram entusiastas do jogo. Coelho Neto era um deles. Baixo, franzino e míope, não perdia uma só partida do esporte bretão às quais comparecia elegantemente vestido com terno branco e chapéu palheta. Sócio do Fluminense, onde um dos seus filhos era “player”, tomou-se “de encantos pelo jogo inglês e vivia falando em backs, forwards, goals, teams e scratches” – segundo um dos seus contemporâneos.

Mas não era só paixão. Coelho Neto ia além e via no foot-ball uma missão: ajudar na criação de uma sociedade na qual os homens, seguindo o modelo dos esportistas, fossem adestrados pelo exercício físico, criando um tempo de paz e harmonia e abrindo o peito para os valores cívicos defendidos por uma parte da intelectualidade, então. Não estava só. Afrânio Peixoto e João do Rio eram outros entusiastas do esporte bretão:

“esse jogo de foot-ball, esses desportos que dão saúde e força, ensinam a disciplina e a ordem, fazem a cooperação e a solidariedade, me enternece porque são grandes escolas onde está se refazendo o caráter do Brasil”, dizia Afrânio Peixoto.

Nos últimos anos da primeira década do século XX, os jogos de futebol se constituíam em ocasiões de encontro da juventude elegante, enchendo os estádios de moças e rapazes refinados. Tinham o apoio do high-life do Rio. As arquibancadas, lotadas de cavalheiros distintos e senhoritas em vestidos claros se animavam para mais um “rendez-vous”! Os ingressos, disputadíssimos, eram vendidos nas confeitarias da moda como Pascoal, Colombo e Castelões. Findas as partidas, os antagonistas se reuniam em festas feitas com gala e refinamento, dando mostras do mais extremo cavalheirismo. O campo do Fluminense era o “mais chic” agrupando, entre os “players”, os filhos das famílias importantes da sociedade.

O Botafogo coligava jogadores mais jovens do que os do Fluminense, e considerados mais bonitões. Vestindo uniformes impecáveis, faixas que prendiam as bermudas, penteados cuidadosamente arranjados e bigodes bem aparados, os jogadores difundiam modismos europeus. O sucesso destes rapazes era tão grande que não faltavam notícias dando conta que, na época de “matches”, eles ficavam atrás das palmeiras da rua Paissandu, esperando as “pequenas” que os assediavam, de acordo com a historiadora, na obra já citada.

O futebol não era, entretanto, o único esporte a ser valorizado. O boxe, o tiro, a equitação e a esgrima continuavam em alta. As corridas de carros – novidade entre os filhos das famílias mais abastadas – passaram a ser bem vistas. Enfim, todas  as atividades que destacassem o lado corajoso, agressivo e forte dos homens eram exaltadas. Em outras palavras, era preciso distanciar-se das características consideradas femininas, como delicadeza e fragilidade.

Pode-se concluir que não era tão simples se encaixar dos padrões de masculinidade daqueles tempos. Mais do que tudo, cabia aos homens representar a sua classe social e a sua família perante o restante da sociedade. Era preciso ainda afirmar sua virilidade, sem deixar a vaidade de lado. Os tímidos, os desajeitados, os fracos, os feios e os desleixados não tinham espaço neste jogo complexo, sutil e perigoso. E hoje, será que as cobranças são menores?

– Márcia Pinna Raspanti.

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Na visão da imprensa, os jogadores da seleção “desabaram” no último jogo.

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