Violência contra as mulheres

Publicado em 26 de fevereiro de 2014 por - História do Brasil

Violência, brutalidade e barbárie: as notícias sobre as novas modalidades de ataques a mulheres reviram o estômago de qualquer cidadão. A orientação da polícia de manter o carro trancado, o vidro fechado, o olhar vigilante pelo retrovisor não vale mais nada. Por não poder agredi-las direta e fisicamente, os assaltantes agridem agora sua única “couraça” e proteção urbana: o carro. Ninguém mais está a salvo. As ruas e avenidas de viraram uma “terra de ninguém”, onde a mulher é a presa mais vulnerável. Ela é vítima de seu corpo e de seu sexo. Sua fragilidade física a condena. Com o carro batido, ela apanha do mesmo jeito. Roubada no caixa automático, ela se vê roubada também, e sobretudo, em sua dignidade, sua honra, sua confiança na vida.

As mulheres dos bairros nobres nos fazem pensar em outras, moradoras da periferia, despossuídas de automóveis, mas também humilhadas quase diariamente por ladrões e estupradores que as esperam nos cantos escuros de ruas e vielas que as conduzem de volta para casa depois de um dia de trabalho exaustivo. Umas e outras são mães, esposas e irmãs. São mulheres que trabalham para ajudar ou garantir o sustento de filhos, pais e companheiros. Não estamos diante de personagens erotizados, como tantas heroínas de filmes americanos que, uma vez seviciadas, têm de provar, diante do juiz, que os ataques masculinos não são resultado de sua beleza ou de suas formas exuberantes. Não. Estamos diante de mulheres cujo único crime é o de circular à noite, desacompanhadas, por motivo profissional ou familiar.

Sabemos que a violência contra as mulheres é histórica. Nos bairros ricos ou pobres, elas sempre foram o alvo de maridos alcoólatras, drogados ou ciumentos, de vinganças e suspeitas regadas à insegurança e à força bruta. Mas se a covardia explícita do homem voltava-se, há algum tempo, contra alguém de seu círculo mais íntimo, hoje essa covardia atinge qualquer uma. A mais desprotegida, talvez… A lógica é a de escolher a presa mais fácil. A covardia de homens que agridem mulheres sozinhas é uma barbárie inegável. O triste, no entanto, é que o escândalo que, em um primeiro momento suscita a brutalidade cometida contra mulheres sós e indefesas, é comumente seguido, em toda a imprensa e na sociedade, por uma enorme onda de inércia.

Espera-se um próximo espetáculo público no qual outra mulher se dobrará aos golpes de um assaltante. Sejam esses golpes físicos ou morais. Como um boxeador, ele não cessará de bater enquanto ela não “for à lona”. A peculiaridade de nossa época é que tais assaltos se estendem ao território da intimidade feminina. Ao corpo da mulher. As assaltadas servem de “diversão” aos seus predadores: devem beijá-los, deixar-se alisar, deixar-se surrar sem reclamar. O revólver frio e engatilhado encostado à barriga, à têmpora ou ao peito garante o silêncio.

O tipo de assalto que atinge mais diretamente às mulheres situa a violência dos bandidos que os cometem nos confins da sociedade, lá onde se localizam as fronteiras da civilização, lá onde estão as linhas de demarcação entre o homem e o animal. Entre o homem e a besta. Nessa fronteira, os bandidos são i-mundos, ou seja, estão fora desse mundo. A violência que perpetram contra mulheres desprotegidas é, contudo, bastante concreta: ela se associa ao desejo e à sua materialização. Desejo de possuir dinheiro, de dominar o sexo oposto, mas também a possibilidade de realizar rapidamente esse desejo. Daí a utilização do carro, símbolo mesmo da rapidez e da velocidade.

A violência cometida por tais facínoras não é apenas sinônimo de destruição, de perda emocional e de mutilação moral para a mulher, ela é um mecanismo de gratificação e narcisismo para o marginal. Daí esse marginal significar, tão claramente, a reunião da brutalidade e da monstruosidade. E se, no passado, o monstro trazia as suas marcas de infâmia no corpo, hoje ele as traz na alma. Não existem palavras de consolo para tranquilizar mulheres batidas, seviciadas, maltratadas, roubadas. Não há gesto de solidariedade que baste em relação aos seus familiares. O único consolo tem sido esperar que as autoridades tomem as devidas providências no sentido de priorizar a captura dos bandidos.

Pessoalmente não creio que carros blindados, artes marciais ou estratagemas de esperteza feminina sejam suficientes para combater a violência da qual a mulher é vítima em permanência, em nossa cidade. Penso que é preciso uma enorme mobilização de mulheres. Mobilização que agrupe grupos de mães, feministas, profissionais organizadas em sindicatos, vereadoras e deputadas, professoras e estudantes, religiosas, enfim, de mulheres de todos os segmentos para dizer, diariamente, não à violência; e para pressionar, sem tréguas e por todos os meios, as autoridades. Mulheres dispostas a lembrar-lhes, incansavelmente, que qualquer forma de constrangimento físico viola um valor sagrado de nossa sociedade: a integridade do indivíduo. – Mary del Priore (“Histórias do Cotidiano”)

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