Vida de professor: um sonho que se desfaz…

Publicado em 15 de maio de 2015 por - Educação

O relato de hoje vem de Minas Gerais, de uma jovem que sempre quis seguir o magistério, mas que se decepcionou com as precárias condições a que são submetidos os educadores brasileiros. É uma narrativa triste, principalmente porque percebemos que a falta de apoio e de incentivos dos poderes públicos e da sociedade podem destruir as mais sinceras vocações.

           Meu sonho desde criança  foi ser professora: meu passatempo preferido na infância era brincar de “escolinha”. Ganhei de presente um quadro infantil de escrever igual àqueles que havia na escola, só que era menor. No final da aula, pedia para as professoras os gizes  que havia sobrado e ficava toda feliz quando ganhava um inteiro.

            A profissão de professor é a mais linda e importante que existe. Com o passar dos anos, esse amor que sentia desde pequena foi ganhando espaço. Nas 6ª série gostava muito da maneira como uma professora de História lecionava e logo fiquei apaixonada completamente pela disciplina. Desde essa época, comecei a falar que iria ser professora de História. Era até engraçado: nas aulas, entre nós, alunos, havia uma certa concorrência, já que quem desse a resposta mais coerente das atividades, escreveria no quadro. Como eu tinha muita facilidade acabava sempre escrevendo. Certo dia, a turma reclamou para a professora que não era justo, elas também queriam escrever!. Minha professora de Língua Portuguesa sempre incentivou a cursar uma faculdade e na época, não era fácil pagar um curso superior. Quando falava para minha mãe sobre o meu sonho de ser professora, ela sempre me dizia que estudar era coisa pra rico. Mas eu sempre  a retrucava, dizendo: “você vai ver, um dia eu irei fazer!”

O tempo foi passando e as oportunidades de estudar foram aumentando. Terminei o ensino médio e fiquei alguns anos paradas para ajudar em casa.  Quando conheci o curso de História tive a certeza que era realmente a minha profissão.  Meu primeiro passo, depois da matrícula, foi conseguir uma bolsa, com desconto de 30% na mensalidade – o que foi de grande ajuda.  Fui criticada por algumas pessoas, que diziam “professor não tem futuro, o salario é uma miséria…”. Mesmo assim, prossegui, afinal foi o que sonhei minha vida toda.

Iniciei meu curso em 2011, até então, tinha uma visão romântica da História, e a realidadese mostrou completamente diferente, mesmo assim, continuei entusiasmada. Realizei meus dois estágios na escola onde estudei. As aulas ministradas foram maravilhosas e os alunos também. Depois do estágio, tive a certeza que realmente havia feito a escolha certa. Dediquei-me 100% ao TCC, mas também foi um momento que as  dúvidas começaram a assombrar. Gostei muito de trabalhar com a pesquisa, tive um envolvimento intenso.

Formada mal sabia eu que agora é que a luta começava. Primeiramente, o professor passa uma humilhação para conseguir as aulas. Na Gered, são super  grosseiros com os educadores, além da falta de organização e do tempo que você perde indo lá toda semana.  O que traz desconforto e indignação é que para algumas vagas, o professor precisa que pegar, por exemplo, seis aulas de história e quatro de matemática. Como assim? Não sou habilitada para matemática? Que educação é essa? Qual a qualidade? Quem é o maior prejudicado com isso?  Senti-me muita humilhada: é como se o professor mendigasse um prato de comida na porta deles. Entre inda e vindas consegui pegar uma vaga de trinta dias, mas não peguei a matéria em que sou graduada, e sim Ensino Religioso. Consegui a vaga na quarta, e na quinta já tinha que está na escola, tudo muito rápido. Professor precisa se virar e aproveitei a noite para pensar em algum conteúdo e tentar planejar o mínimo possível.  A minha animação aos poucos foi minguando, ao entrar em sala de aula, fiquei assustada com algumas turmas, tinha salas com quase quarentas alunos era praticamente um aluno em cima do outro, sem falar no barulho infernal. Minha vontade foi de sair correndo. Como mal consegui falar naquela turma o jeito que encontrei foi passar o conteúdo no quadro. Esse ano ocorreu enturmação no estado, o que já era ruim ficou pior.

A falta de respeito dos governantes é tão grande com a educação, que chega a ser apavorante. Garanto que se os filhos deles estudassem numa escola pública não seria assim. Claro que também tive turmas maravilhosas. Outros problemas encontrados na escola foram: as drogas e a violência. Como é o meu primeiro ano lecionando em uma sala de aula sofri preconceitos por parte da direção e alguns professores mais velhos, eles se “acham” os bons, superiores. De repente, meu sonho foi se tornando pesadelo, chorei muito, o que doeu mais foi à falta de apoio dos “colegas”. Acabei desistindo da vaga por todas as dificuldades encontradas. Vocês podem imaginam o quanto foi difícil tomar essa decisão. No início, chorei muitas noites, e quando estava sozinha, fiquei um pouco depressiva. Nessa hora vêm milhares de perguntas em sua cabeça; “Meu Deus o que fui fazer da minha vida? Esses quatros anos de dedicação, noites mal dormidas, finais de semana que não tive pra quê? Esse dinheiro todo que gastei poderia ter feito outro curso?” Sofri calada. Tive vergonha de falar abertamente sobre tudo que um professor passa, pois, a profissão de professor está em um pedestal para mim. Hoje, estou melhor. Realmente, não sei o que irei fazer, às vezes penso que devo de tentar mais uma vez, afinal há escolas e alunos ótimos ainda. Confesso que sinto medo, outro dia bateu uma vontade louca de dar aula sobre o tema da ditadura militar. Tenho algumas ideias maravilhosas para usar em sala de aula.

Pior de tudo que sempre sonhei em ser professora não consigo me ver em outra profissão. Minha esperança é conseguir trabalhar com pesquisa sou amante da História……

Participe também da nossa seção “Professor: conte sua história”, enviando seu relato para o email historia.hoje@bol.com.br . 

Formatura-Notre-Dame-1962-009

Normalistas da década de 60: tempos melhores?

 

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

3 Comentários

  1. Robson disse:

    Gosto do impossível. Lá a competição é menor

  2. Querida professora:

    Você não está sozinha. Quando vejo todos os relatos, o valor do piso salarial nacional, a proposta maravilhosa que temos para a educação brasileira não se concretizando por falta de valorização docente e formação inicial e continuada de qualidade, enfim, quando vejo todos os problemas que enfrentamos, também me pergunto: o que fui fazer com a minha vida? Afinal de contas, a profissão é uma vida, né?

    Hoje prestei concurso para a PBH e muitas professoras estão até lotadas em outras cidades mas enfrentam problemas diversos: falta de concurso público, falta de plano de carreira, redes que não pagam o piso salarial nacional (fazem regra de três), falta de trabalho em equipe (imprescindível para que a proposta dos PCN se torne realidade), etc., etc., etc.

    Isso tem tido um impacto muito negativo na educação porque muita gente busca a formação em Pedagogia ou faz Licenciatura apenas para ingresso no mercado de trabalho, uma vez que o ingresso na Educação não é um atrativo. Vale mais fazer outros cursos para ter um retorno melhor. Tem muita gente bacana na Educação também, mas o trabalho delas não rende se não for em equipe, se não dialogar com o projeto político pedagógico, se não for planejado e avaliado constantemente, se não dialogar com a comunidade escolar… O que se tem de proposta aí demanda professoras e professores intelectuais e não mão-de-obra barata e, muitas vezes, reduzida ao trabalho repetitivo, cansativo, quase que um trabalho braçal, sem nenhuma possibilidade de reflexão e transformação da realidade. O piso salarial nacional é uma vergonha! É bem abaixo do valor do salário mínimo necessário divulgado pelo DIEESE…

Deixe o seu comentário!