Viagra: mudanças ou permanências?

Publicado em 9 de junho de 2014 por - História do Brasil

Segundo pesquisadores franceses, desde a chegada do Viagra no mercado, o discurso público sobre a sexualidade mudou visivelmente de tom. A pílula milagrosa do prazer, segundo eles, tomou o lugar do preservativo que limitaria o prazer, mas que também protegeria da morte. Além da mudança no discurso sobre a sexualidade, como explicar o interesse, as reações e as esperanças suscitadas pelo Viagra? Se essas revelam as grandes mudanças nos comportamentos, traduzem também imobilidades e permanências extremamente duráveis.

Para entender estruturas que foram mais antigas, e são ainda muito profundas, comecemos pelas mais recentes. Nos últimos trinta anos, graças à pílula anticoncepcional, uma transformação sexual ‘silenciosa’ teve lugar, conduzindo as mulheres a ser mais ativas nas relações sexuais, mais exigentes em relação aos seus parceiros, levando-as, além disso, a prolongar sua vida sexual. Mais frequentemente que nossos antepassados, vivemos, hoje, homens e mulheres, uma sexualidade assertiva que desejamos fazer durar para além do limite biológico-social da menopausa ou da andropausa. Esse alongamento da vida sexual inscreve-se na revolução que transformou o sexo em fonte de bem-estar e prazer, diferentemente do que significou para nossos ancestrais: medo, culpa ou problema moral. Mas se tal revolução instaurou práticas mais igualitárias entre os parceiros e os sexos, ela não varreu a assimetria profunda do lugar do desejo de homens e mulheres na atividade sexual. Quando da realização do ato sexual, desejo e excitação física continuam percebidos como domínio e responsabilidade exclusiva dos homens. Ora, essa obrigação de virilidade sempre se revelou, ao longo da história, como portadora de profunda ansiedade. A contrapartida era a obrigação feminina de demonstrar fecundidade através de múltiplas gravidezes, contrapartida, diga-se, igualmente, geradora de ansiedade e temores.

Mudanças? Poucas. Homens e mulheres, por exemplo, reconhecem ainda com grande dificuldade a existência e a autonomia do desejo sexual feminino, como se o jogo erótico destas últimas tivesse que se esconder por trás da afetividade. A descoberta do Viagra e a acolhida que esse recebeu traduzem bem a transformação e as novas expectativas em relação à sexualidade, mas também — e convém frisá-lo — uma persistência do desejo dos homens. Sempre foram eles que determinaram, pelos sinais da ereção, o momento do coito.

Como bem demonstrou Michel Foucault, bem antes de se tornarem discursos públicos ou casos de saúde pública — passando lentamente de “frigidez” a “pane sexual” e desta à disfunção erétil —, os comportamentos quotidianos em relação à impotência medravam na esfera da magia analógica, da teologia e da incipiente medicina. Trezentos anos atrás, os remédios contra a impotência eram de outra natureza. A angústia, contudo, nascida da obrigação de virilidade, já estava profundamente arraigada em nossa cultura.

O historiador francês Pierre Darmon foi o primeiro a sublinhar que a sociedade ocidental não era machista apenas com as mulheres: era-o, também, com os homens. Provas históricas? Um breve papal, datado de 1587, definia a impotência masculina como um “impedimento público” ao sacramento do matrimônio.

Na França, por exemplo, os processos contra os maridos “frígidos” foram legião entre os séculos XVI e XVIII. A chamada “prova do congresso”, com exames de elasticidade e ereção era humilhante. Durante uma semana, o homem acusado de impotência tinha que tentar sua chance com a esposa, diante dos olhos escrutinadores de uma matrona designada por um tribunal. A isso se seguia a “inspectio corporalis”: masturbação na frente de um médico ou padre que analisava a cor do esperma fresco – branca, boa; amarela, ruim. Enfim, tudo colaborava para que “a hora da verdade” fosse um pesadelo.  Não faltava quem considerasse o procedimento indecente, mas todo o esforço, mesmo entre os mais puritanos, era para indicar a “boa via ao marido inexperiente”.

Na Espanha do século XVII, acumularam-se poemas nos quais se descrevia em detalhes o árduo encontro de corpos marcados por dificuldades sexuais. Em Portugal, em novembro de 1668, teve início o processo de anulação do casamento de D. Afonso VI com D. Maria Francisca Isabel, duquesa de Saboia. O golpe de misericórdia vibrado pela rainha contra o rei veio na forma de uma carta em que essa acusava, sem rodeios, o marido: “Rei e Senhor; Deixei minha pátria, vendi minha fazenda por vir buscar a V. Majestade e servi-lo; Não se agradou V. Majestade de mim, não é meu marido como V. Majestade bem sabe”.

Na América portuguesa, as Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia, impressas em 1720, fonte da regulamentação moral no período colonial, não deixavam dúvidas: a impotência era causa de anulação matrimonial: quando algum contraente, já antes de contrair matrimônio, “não era capaz de geração por falta ou desproporção dos instrumentos da cópula ou a falta provenha da natureza, arte ou enfermidade, contanto seja perpétua”. – Mary del Priore.

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Impotência: impedimento para casamentos. 

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