Vergonha: qualidade feminina?

Publicado em 30 de junho de 2014 por - História

A Igreja era incentivava o pudor feminino como forma de racionalizar e combater a
luxúria, exaltando a mulher pudibunda e a casta, em detrimento da depravada.Ao final do século XVIII, tanto Rousseau quanto Restif de la Bretonne divulgavam que a ‘vergonha’ era uma qualidade inerente à mulher, desnudando a misoginia moderna que pretendia encerrar as mulheres numa armadura de pudor.

Acreditava-se, então, que as mulheres que se afogavam boiavam sempre com a face voltada para a água, para ‘naturalmente’ ocultarem seu sexo de olhares indiscretos. Bem longe se estava dos estatutos eclesiais de Belluno, redigidos no século XV, que denunciavam serem as mulheres sexualmente mais vorazes do que os homens e desejosas de intercursos sexuais mais ardentes, dos quais,aliás, segundo o documento, extraíam mais prazer do que os parceiros.A Igreja obrigava-se portanto a empreender uma estrita supervisão dos comportamentos sexuais femininos, inaugurando um fechamento normativo sobre as mulheres, que na Europa do Antigo Regime culminou no paternalismo misógino de Rousseau e Pierre Roussel, entre outros.

No mesmo período, a medicina propagava que o homem não tinha necessidade
do coito para conservação da saúde, mas que a mulher privada de companhia
expunha-se a graves problemas. Viúvas, freiras e solteiras seriam as vítimas dos “furores
da madre”, espécie de vingança do organismo feminino contra seu abandono.
Tanto na Metrópole portuguesa quando no Brasil, as mentalidades institucionais
acompanharam o enclausuramento da mulher, e, como resultado da dicotomia que
se estabelecia entre luxuriosas e pudicas, havia quem sugerisse o exemplo daquelas
que haviam sido “insignes em todo o gênero de virtude”. A saber: “santa Eufêmia,
santa Marula, santa Olaia, santa Engrácia, santa Eiria, santa Comba”, num gênero de pietismo doméstico que servia para inspirar comportamentos
num mundo regido por analogias e contrastes. “As mulheres”, ameaçava frei Luís
dos Anjos, “são muito aptas com a graça de Deus para a ‘virtude, se não rompem as
leis do Bom que Deus lhes deu, […] se não põem freios aos seus apetites são mais
desenfreadas que os piores do mundo”.

Os ‘médicos da alma’, cumprindo os desígnios da teologia, moral, trabalharam
ao longo de Idade Moderna para a compreensão da luxúria como um mal feminino
e para a exclusão da luxuriosa como uma portadora de enfermidade letal e
contagiosa; no avesso desse projeto, alimentavam a valorização do casamento e
do pudor, e recortavam com esmero os papéis femininos. O apetite das paixões,
invocado pelos teólogos nessa trajetória, preparava, por sua vez, a leitura que fazia
a medicina sobre a mulher desregrada, descasada e só. Entre devassa e santa, ela
não teria grande escolha.- Mary del Priore (baseado em “Ao Sul do Corpo”).

nudez

Rafael Danzio, “Retrato de uma jovem mulher” (1540-1545).

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