Vale tudo pela beleza? Feminismo, Miss Bumbum e liberdade

Publicado em 4 de dezembro de 2014 por - Feminismo

Tenho lido muito sobre o caso da modelo Andressa Urach, 27 anos, na mídia. Confesso que nunca tinha ouvido falar nela, antes desse terrível acontecimento que a deixou em estado crítico. A moça utilizou uma substância injetável para “turbinar” algumas partes do corpo. Como o material era inadequado para esta finalidade, acabou causando infecção grave. Conheço outras pessoas que fizeram o mesmo tipo de procedimento e todas tiveram problemas sérios. Uma delas ficou meses na UTI e ainda convive com as terríveis cicatrizes. Outra não teve infecção, mas o material se deformou e ela tem passado por várias cirurgias para a retirada total.

Ao invés da perfeição tão sonhada: dor, cicatrizes e deformação. Este tipo de coisa nos faz pensar o que leva tanta gente a prejudicar sua saúde em nome de um padrão de beleza inatingível. A falta de informação é uma das causas, com certeza. A obsessão por um corpo “perfeito”, contudo, impede as pessoas de avaliarem corretamente os riscos de uma intervenção estética cirúrgica. Tudo que importa é o “milagre” de ficar “turbinada” sem esforço.  E para quê? Para ser atraente? Para ter espaço na mídia? Para ser amada?

Há séculos, as mulheres recorrem a artifícios para destacar os aspectos femininos de seus corpos: seios grandes, quadris largos, cintura fina, lábios carnudos, pele acetinada. Tudo isso, sempre foi associado à fertilidade e à sexualidade. Mulheres com esses atributos sempre foram mais disputadas pelos homens. E ainda hoje, mesmo com todas as conquistas femininas, parece que continuamos a buscar incessantemente a aprovação do macho.  Não se trata aqui de condenar a vaidade, que existe em ambos os sexos e faz parte da nossa cultura. Estamos falando de algo mais profundo, mais enraizado. Vejamos o que diz a historiadora Mary del Priore:

As mulheres continuam submissas! De nada adiantou a propalada revolução sexual, a queima de soutiens em praça pública, a difusão da pílula. É como se quiséssemos continuar como as eternas representantes do ‘sexo frágil’, a quem tudo se impõe. Mudamos muito, mas mudamos para continuarmos as mesmas. O que há de ruim nisso? Há um fato novo e quase imperceptível para a maioria de nós. Trocamos a dominação de pais, maridos e patrões por outra, invisível e, por isso mesmo, mais perigosa. A dominação da mídia e da publicidade. É ruim, e até pior, pois diariamente enfrentamos a tarefa de ter que ser eternamente jovens, belas e sadias. Não há prisão mais violenta do que aquela que não nos permite mudar. Que nos bombardeia com imagens de eterna juventude, nos doutrinando a negar as mudanças”.

(“Corpo a Corpo com as Mulheres”).

Já escrevi aqui neste blog sobre a exploração da “velha” mulher-objeto nos dias de hoje. A mídia explora a sexualidade e o corpo femininos para vender todo o tipo de produtos: CDs, bebidas, alimentos, roupas, cosméticos…Ninguém está dizendo que a exibição do corpo é ruim ou negativa, nem que a sensualidade o seja (obviamente não é), estamos falando da transformação da mulher em mercadoria. Coisa antiga, é bem verdade, mas que persiste e parece se fortalecer.  Quais os efeitos disso no nosso dia a dia? Isso reforça o machismo de nossa sociedade?

Afinal, o que é o feminismo? Por que lutamos? Acredito que o fazemos para construir uma sociedade mais justa e igual, onde as mulheres tenham direito de escolha. Onde sejamos vistas como indivíduos e não como produtos eróticos. Não aceitamos mais ser moldadas pelo desejo masculino. Queremos ter autonomia em relação aos nossos corpos e à nossa sexualidade. Será que temos? Ou estamos aprisionadas como sempre em um padrão de beleza que nos é imposto?  Queremos ser aquelas “a que tudo se impõe”, como diz a historiadora? E o mais importante: o que devemos fazer para nos libertar?

– Márcia Pinna Raspanti.

urach2RokebyVenus velazquez

Andressa Urach, a “Miss Bumbum”; “Vênus no espelho”, de Diego Velásquez (1599-1660).

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

1 Comentário

  1. Iolanda Figueiredo disse:

    E interssante como todos os problemas que afligem a humanidade podem ser definidos pelos Sete Pecados Capitais. Este caso e Vaidade. Mas todos estao ligados ao pior de todos eles: GREED= AVAREZA, no qual a pessoa quer TUDO. E perde TUDO. Ms. Del Priore expliciou muito bem. Nao houve progresso.

Deixe o seu comentário!