Universitários, estupros e um professor de “pegação”…

Publicado em 14 de novembro de 2014 por - temas atuais

Nesta semana, alguns fatos me fizeram refletir sobre a condição da mulher no Brasil e no mundo. O 8º Anuário de Segurança Pública, divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, revela que há 50 mil casos de estupros anualmente no País – números assustadores principalmente se lembrarmos que boa parte das ocorrências não é registrada. Outra notícia que choca é a revelação de que trotes e festas realizados por estudantes de Medicina da USP envolvem abuso sexual, intimidação, racismo e até estupro. E por fim, foi anunciada a vinda de um americano, Julien Blanc, que ministra palestras aos homens interessados em “pegar mulher”, por meio de técnicas abusivas, desrespeitosas e mesmo violentas.

Confesso que me sinto um tanto desanimada em pensar o quanto as relações entre homens e mulheres ainda são permeadas pelo conceito de dominação. A mulher, apesar de suas conquistas, continua a ser vista como objeto sexual por grande parte dos homens. As mulheres independentes, liberadas e decididas incomodam os machões de plantão, que não perdem uma oportunidade de colocá-las “em seu lugar”. Usar roupa sensual, sair sozinha, beber, ter vida sexual livre – tudo isso, pode se tornar uma justificativa para agressões e abusos. Ora, por que ainda somos julgadas e condenadas por nossa aparência ou por nossas atitudes na intimidade? Não podemos fazer nossas escolhas?

A mulher, sob esta óptica machista, perde sua humanidade, torna-se apenas um objeto descartável para ser usado e jogado fora (ou até eliminado). Afinal, o que é o estupro se não a total submissão e anulação do outro? Desqualificar a mulher como ser humano é o primeiro passo para a violência, não só sexual. Vejamos o caso dos universitários: meninos e meninas estudaram muito para serem aprovados em um vestibular super concorrido. As alunas estão na universidade em igualdade de condições, têm os mesmos méritos e a mesma capacidade que os rapazes. Por que, então, precisam ser degradadas e intimidadas? Sua presença ainda incomoda, em pleno século XXI? Parece que elas precisam ser lembradas que são “inferiores”, quando na verdade todos sabem que não o são. Admiro a coragem das garotas que decidiram denunciar para tentar por um fim nesta triste “tradição”.

Quanto ao professor de “pegação” – que felizmente deve ter seu visto negado por aqui, graças à mobilização da sociedade -, o que assusta é saber que o “cara” ganha fortunas com esses seminários. Ou seja, há milhares de homens que estão de acordo com suas táticas agressivas e, me desculpem, nojentas. Assisti a um vídeo dele e realmente as suas ideias são estúpidas e revoltantes. Para conquistar uma mulher é preciso degradá-la, humilhá-la e forçá-la a fazer o que você quer – a mensagem é esta. E a questão mais incômoda é: este tipo de abordagem dá certo? Considerando o sucesso do palestrante, podemos concluir que sim, pelo menos em determinados casos.

Para mim, o ponto mais importante é este: o que nos faz aceitar determinadas práticas machistas e abusivas? Por que universitárias inteligentes e bem informadas ainda se calam perante tais comportamentos inaceitáveis?  Por que mulheres de todas as idades e classes sociais aceitam ser tratadas como simples objetos sexuais por idiotas como o Sr. Julien Blanc? Inegavelmente, o discurso machista, que tenta nos impor a ideia de que somos inferiores, tem  um efeito devastador sobre a autoestima feminina. Até quando vamos ser obcecadas por obter a aprovação masculina?

Não somos as culpadas, precisamos sempre nos lembrar disso!

– Márcia Pinna Raspanti.

mulher_chorandopicasso

“Mulher Chorando”, Pablo Picasso.

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1 Comentário

  1. Rafael Lanes disse:

    Otimo, esse texto! Temos que mudar esse conceito de que mulher é um objeto sexual e descartavel!

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