Uma viagem nos tempos coloniais

Publicado em 20 de novembro de 2013 por - História do Brasil

No Dia da Consciência Negra, um trecho do livro de Mary del Priore, “Viagem proibida – Nas trilhas do ouro”, da Editora Planeta,que conta as aventuras de dois meninos pelas estradas, vilarejos e quilombos daqueles tempos.
As montanhas pareciam se fechar sobre o caminho. O sol mal conseguia romper a barreira de nuvens. Árvores baixas, coladas umas às outras se abraçavam para impedir nossa passagem. De vez em quando, um grito de pássaro vinha da mata como um aviso sinistro. Mal tínhamos feito mais uma légua, quando numa curva encontramos um troço de homens. Vinham a mando do temido Cascalho, chefe quilombola. Bem que o pai vira as fogueiras na noite anterior. Era um aviso. O pai explicou: quilombos eram refúgios. Ali se escondiam fugitivos.
Não só negros. Lavradores pobres, descendentes de índios carijós e bandidos, também. Eram socorridos com todo o necessário, pois tais comunidades eram autônomas. Plantavam para comer. Viviam de caça e pesca. Assaltavam fazendas para roubar-lhes a criação de galinha ou porcos. Levavam armas, igualmente. Negociavam para não atacá-las, trocando produtos agrícolas e lenha por fumo, sal e utensílios. Agrediam viajantes e os deixavam mortos no fundo dos boqueirões Eram, então, cerca de 150 quilombos nas Minas.
Cascalho era informado de tudo o que acontecia por uma rede de homens e mulheres, cativos ou não, que lhes traziam notícias. Principalmente, as forras quitandeiras que circulavam com seus tabuleiros a vender seus produtos a escravos, livres, quilombolas e autoridades. Sempre bem informadas, elas avisavam sobre as investidas dos capitães do mato, caçadores de negros fugidos. Além disso, elas forneciam comida aos cativos e os auxiliavam em suas fugas, escondendo-os em suas casas.
Explicação dada, o céu com nuvens avermelhadas anunciou a morte do dia. E talvez a nossa e de nossos homens. Crescia a tensão entre os dois grupos. Os quilombolas ameaçavam e riam, chamando para a briga. O pai gritou e sua voz ecoou pelo mato: o que queriam? Eu só via olhos arregalados e brilhantes, facões e clavinotes. O pai chamou o nome de todos os santos. Tocou o rosário que levava ao pescoço. Aquilo era o fim, sem dúvida. Os ouvidos alerta, o queixo batendo só vi o pai por uma pedra nova debaixo do cão da arma e engatilhar. A coisa ia ferver. Ele saiu da liteira e, de pé, insistiu na pergunta: o que queriam?
A resposta veio num conjunto de guinchos, uivos e risadas. O pai disparou para o alto. Foi o sinal. O grupo de quilombolas se abateu sobre a carroça e os cativos que nos acompanhavam. Sombras se engalfinhavam, facas rasgavam o ar. Gemidos e gritos. Agarrei o mano e fiquei no lugar agachado e suando. Ouvia a voz do pai: eu mato! Eu mato! Até que levei um murro.  Caí firme no chão. Silêncio.
Acordei numa esteira sobre chão de barro batido. Sentia enorme cansaço e não sabia onde estava. Era noite e meu corpo doía. Tudo escuro e não conseguia ver o mano ou o pai. Senti toda a minha solidão, longe de todos e sem estar preparado para isso. Em compensação a mãe voltou a aparecer: um fantasma esbranquiçado, a boca aberta como se estivesse sufocando. Eu só queria sentar, gritar, chorar e gemer até que me acudissem. A angústia que me oprimia chegou até a garganta. Apertou-a. Adormeci ou desmaiei.
Pela manhã, ouvi galos e barulho de gente, indo e vindo além das paredes de pau-a-pique e telhado de sape. Onde estaria? Pouco a pouco, vozes, choro de criança e de repente, uma voz. Ela cantava. Era de menino. “Tá trepado no pau / de cabeça pra baixo / Com as asas caídas / gavião de penacho”. Aproximava-se. A porta abriu e vi recortar-se contra a claridade do dia, um jovem. Bem vestido, com colete, calções, meias e calçado: sinais de distinção. Era negro. Perguntei-lhe:
És escravo? Como te chamas?
E ele: – Chamo-me Tiago e sou recuperado.
Eu: – Recuperado? O que é isso?
Ele: – Fugi com meu pai da casa de minha senhora e o capitão do mato me recuperou. Pelo meu pai recebeu seis oitavas de ouro, pois apresentou sua cabeça.
Eu, assustado: – Cabeça?
Ele: – Sim, os fugitivos são normalmente degolados e suas orelhas enfiadas num colar que o capitão do mato leva ao pescoço.
Eu: – Chamo-me Afonso, venho do Rio de Janeiro e antes, do Reino. Não sei onde estou.
Ele: – No quilombo do Cascalho… É pequeno, não é grande como o do Ambrósio.
Eu: – O que faz aqui? Vim trazer recado da cidade, tipo mensageiro.
Eu: – Você canta?
Ele: – Sim, também sou lobinho: cantor nas festas de Nossa Senhora da Conceição, de Santa Ifigênia, de São Bento. Estou ligado à Irmandade de Nossa Senhora dos Homens Pardos.
Eu: – Mas, és livre?
Ele: – Sou alforriado. Minha mãe comprou minha liberdade.
Eu: – O que faço, onde está meu pai e meu mano?
Ele: – Por enquanto vais ficar por aqui. Seu pai conseguiu chegar à Vila Rica de Ouro Preto. Está machucado, mas nada grave. Seu irmão? Não vi. Os quilombolas queriam apenas um saco que vocês traziam. Os cativos que transportaram seu pai acharam que você estava morto e deixaram-no para trás. Cascalho mandou trazê-lo para cá.
Insisti com Tiago: e agora, o que faço?
Ele: – Venha comigo. É hora de tomar um cuité de congonha.
Quilombo: refúgio, disse o pai. A mim pareceu um vilarejo pobre como outro qualquer. A bandeira de São Benedito tremulava num alto bambu. Cachorros tomavam sol e defendiam as galinhas dos bichos do mato. Foice na mão, homens se dirigiam para a roça de milho e feijão ao fundo do círculo de palhoças. Mulheres com crianças às costas lavavam roupa. Debaixo de um telheiro, algumas descascavam milho. Num olho d´água, outras, lavavam a mandioca. Eram poucas.
De cócoras, um grupo de homens conversava. Eram muitos. Tinha negros, cabras, cafuzos e brancos. Alguns eram escravos de outros. Uns preparavam as armas para caçar pacas, tatus, perdizes e codornas. Outros amassavam barro com o qual fariam utensílios. Outros ainda, com o canivete, esculpiam pequenas imagens em madeira. Todos, porém, sabiam onde estava o ouro de aluvião. Faziam a lavagem com batéias e vendiam longe o minério apurado. Sabiam, também, que o minério estava se acabando.
Quilombo não era só refúgio. Era reação aos horrores da escravidão. Onde houvesse cativos, haveria fugas. Ali, vi adultos com marcas de maus tratos: o tendão cortado para que não fugissem. A marca F, de fujão, feita com ferro em brasa no ombro. Vi cicatrizes que fechavam como raízes sobre a pele: tinham sido tratadas com sal e limão para a ferida doer mais. E cortes na pele pelo peso da gargalheira ou das correntes.
Tiago contou histórias: o tronco por muitos dias, o chicote de quatro pernas, de couro cru, de rabo de tatu, o vira-mundo, a palmatória, a tortura da fome. E ainda havia os cães de fila de fino faro, treinados para morder as carnes dos fugitivos. Todos podiam caçar negros fujões: do capitão-do-mato, ex-escravo ele mesmo e conhecedor dos caminhos na serra, a quem quiser que denunciasse ou levasse o negro preso. Sim, as cidades e vilarejos temiam os quilombolas. Consideravam-nos insolentes. O que dizer se pegassem em armas? Matariam os brancos…
Autoridades escreviam à Corte pedindo reforço para combatê-los. O medo estava no ar. E por isso mesmo, os senhores se organizavam. Proibiam a venda de pólvora e chumbo a negros, mulatos e mestiços. Confiscavam armas de ponta. Organizavam tropas pagas, nas quais colocavam seus próprios escravos para lutar com os quilombolas. Na verdade, temiam-nos. Mas temiam também ficar sem sua preciosa mão de obra, pois não tinham como repô-la. Perdia, também, a Coroa portuguesa que deixava de receber os impostos sobre o trabalho escravo.
Autoridades só não conseguiam controlar a cumplicidade entre homens livres e quilombolas. Os estalajeiros negociavam com eles objetos roubados. Vendeiros ofereciam-lhes fumo, sal, fumo e instrumentos de trabalho. O milho ou a mandioca produzida nos quilombos era vendida nas pequenas fazendas. Mulheres e jovens como Tiago eram mensageiros de tudo o que ocorria na cidade.  Esses colaboradores escondiam-nos noite adentro ou quando eram caçados. Tudo isso era proibido por lei. Mas a lei caia no vazio. O número de quilombos só comprovava que a ela era ineficiente.  – Mary del Priore

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