Uma história da feiura

Publicado em 6 de dezembro de 2014 por - temas atuais

A feiura é universal, onipresente. Ninguém ousou escrever sua história, nem aquela da solidão e da dor que são suas consequências mais imediatas. Há séculos, os feios servem de bode expiatório à sociedades muito seguras de suas verdades ou do discurso de suas elites, sempre dispostas a determinar o modelo ideal de “patricinhas & mauricinhos”, “peruas & marombeiros”. Com a supremacia da imagem na vida do homem moderno, os anos 90 continuam a instaurar a tirania da perfeição física. Hoje, todos querem ser sadios, magros, jovens. Grassa uma verdadeira lipofobia. Todos parecem querer participar da sinfonia do corpo magnífico quase que atualizando as intolerantes teses estéticas dos nazistas.

Na outra ponta, criaturas como madre Teresa de Calcutá conheciam de perto os horrores do sofrimento físico. Numa entrevista, ela dizia que o trágico da “feiura” de um leproso, era a sua solidão, o fato de ser indesejável, não amado, rejeitado. Que se podia fazer tudo por um corpo em sofrimento, mas nada por esse “outro” sofrimento feito de negação. Anônimos, os que não são belos, simplesmente recusam seus corpos. Tanto mais quanto vivemos hoje a supremacia da aparência. A fotografia, o filme, a televisão e o espelho das academias dão ao homem moderno o conhecimento objetivo de sua própria imagem. Mas, também, a forma subjetiva que ele deve ter aos olhos de seus semelhantes. Numa sociedade de consumo, a estética aparece como motor do bom desenvolvimento da existência. O hábito não faz o monge, mas quase…A feiura é vivida como um drama. Daí a multiplicação de fábricas de “beleza” cujo pior  fruto é  a clínica de cirurgia plástica milagrosa. Os pagamentos a perder de vista, com “pequenos juros de mercado”, parecem garantir, graças à próteses, a constituição de um novo corpo: formal, mecânico, teatral. Corpo que é a efígie do desejo moderno, desejo derrisório de uma perpétua troca das peças que envelhecem: de nádegas à coxas e panturrilhas.

Essa relação com o corpo implica em opiniões contraditórias. Os adversários da cirurgia estética recusam-se em acordar ao corpo uma importância que valha a pena modificar. O que conta é a alma ou o espírito. O desejo de modificação torna-se para alguns até mesmo suspeito. Os partidários, por sua vez, acreditam que a forma corporal é uma realidade cujo papel na vida cotidiana está longe de ser pequeno. A cirurgia, aqui, é um elemento importante para o equilíbrio psicológico e seus desdobramentos: o casamento feliz, o sucesso profissional! As pessoas pouco percebem que a chave de um bom relacionamento com a vida, passa por certa dose de inteligência, carinho e alegria. Pelo menos é o que afirmam os especialistas!

O tal equilíbrio passa, também, por uma constatação à qual é dada pouco atenção: o culto a beleza, e exclusivamente à ela, é perigoso. Estando intimamente ligado aquele da juventude e do efêmero, torna-se um desafio ao tempo, e mais dramático, ao homem ele mesmo. Pior é quando um modelo de beleza nosso, mestiço, passa a ser ameaçado pelo que vem de fora. Entre nós, aumenta assustadoramente o número de mulheres que opta pela imagem da “Barbie” americana, dona de volumosos seios de plástico, cabeleiras louras falsas e lábios de Pato-Donald. No outro extremo encontramos a androginia mais absoluta, onde cada um quer ter as formas do outro, com todas as suas conseqüências. Inclusive aquela terrível, de que quando nossas preocupações físicas tomam a frente, elas significam o medo e a recusa dos que não são como nós. Mal se percebe que nossa sociedade valoriza não a identidade, mas a identificação. Os pequenos defeitos, que outrora davam charme a uma mulher, estão em baixa.

Ora o Brasil é um país mestiço. Nossos corpos são o resultado de uma longa história biológica onde se misturam índios, negros, brancos de vária procedência e amarelos. O resultado foram ancas, cabelos crespos, a maneira ondulante de andar e o que Gilberto Freyre chamava de “morenidade”. É preciso proteger e libertar nossa sociedade do que ela pode fazer com ela mesma. É preciso proteger nela a sua integridade, a sua identidade subjetiva e genealógica, a dignidade de suas formas e das suas cores originais contra o materialismo e o desmantelamento do corpo. Xô Barbies, próteses, anabolisantes, anoréxicas e oxigenadas! Abaixo a insistência em fabricar mulheres sem marcas, nem diferenças capazes de individualizá-las.

– Mary del Priore.

caravaggio-medusa

 

“Medusa”, de Caravaggio.

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