Uma feminista antifeminista?

Publicado em 25 de abril de 2015 por - Feminismo

“Sou contrária à ideologia feminista do presente, que é doente, indiscriminada e neurótica. E, mais do que tudo, não permite à mulher ser feliz. As mulheres precisam se responsabilizar por suas vidas e parar de culpar os homens por seus problemas, que têm mais a ver com questões e estruturas sociais, e não são fruto de uma conspiração masculina”, Camille Paglia.

Uma entrevista dada pela ensaísta e escritora Camille Paglia à Folha de S. Paulo (ver link abaixo), nesta semana, causou polêmica. Para ela, a mulher deve assumir seu lado maternal e parar de se fazer de vítima, culpando o homem por tudo de ruim que lhe acontece. O que mais me incomodou na sua fala foi a passagem em que ela ataca o movimento feminista atual, considerado “neurótico”. Por que reforçar os velhos estereótipos a respeito das feministas? Por que engrossar o discurso machista de que toda feminista é histérica, frustrada e que odeia os homens?

Nada contra discutir e criticar aspectos do feminismo, mas o que a autora fez foi desqualificar lutas importantes para as mulheres de hoje. Mesmo porque é muito complicado falar em um único movimento, já que o feminismo atual é muito fragmentado. As demandas das mulheres variam de acordo com sua nacionalidade, etnia, classe social, idade, etc. No Brasil, temos inúmeros grupos com pautas diferentes entre si.

O feminismo não permite à mulher ser feliz? Que grande bobagem.  Mais uma vez, a autora generaliza e mostra que está presa ao passado. Não podemos dizer que haja um feminismo, um bloco homogêneo de ideias e dogmas que restrinjam a ação feminina. Temos necessidades diferentes das mulheres dos anos 60 ou dos anos 30, 20, etc.

A mulher enfrenta questões bastante concretas, como a desigualdade salarial (no Brasil, por exemplo, ganhamos, em média, 30% menos que os homens), a violência sexual e não sexual (mais de 50 mil estupros registrados todos os anos). Paglia tem razão quando diz que a estrutura social é responsável pela maioria de nossos problemas, porém, isso não significa que devemos ficar caladas e aceitar as “coisas como são”. Não acredito que nenhuma feminista minimamente consciente acredite que há “uma conspiração masculina” contra as mulheres. Esse tipo de afirmação serve apenas para ridicularizar o movimento.

Outro ponto que me incomodou:

“Se você é uma mulher livre, você tem que aceitar que, toda vez que se vestir de modo convidativo, está enviando uma mensagem e tem de se defender se for necessário. E é claro que ninguém tem o direito de fazer nada com você, mas só uma idiota acha que vai para as ruas de vestimentas provocativas sem correr o risco de ser atacada, culpando o Estado por isso”.

O que é se vestir de maneira “convidativa”? Quem define isso? O que é provocante para uns, não o é para outros. Ela diz que precisamos estar conscientes de que mensagem estamos passando para os homens e que não podemos culpá-los por entenderem errado quando nos comunicamos de maneira confusa.

O que devemos fazer? Pautar nossas vestimentas e atitudes com base no medo que sejamos mal interpretadas? Ou tentar mostrar aos homens que eles podem estar equivocados em seus julgamentos? Fico com a segunda opção. Quanto aos “psicóticos e criminosos” realmente a sociedade não pode nos proteger deles o tempo todo, mas já está mais que provado que as roupas das vítimas têm pouquíssima influência nesses comportamentos.

Paglia fala ainda sobre a maternidade, criticando as mulheres que não querem ter filhos ou que o fazem mais tarde, por causa da sua carreira. Segundo ela, a maior culpada por esse “equívoco” é Gloria Steinem e “seus problemas psicológicos”. Discordo. Acho que simplesmente o mundo mudou. As mulheres, em geral, desejam e precisam ter uma carreira no mundo de hoje, inclusive e, talvez principalmente, por razões econômicas. Poucas têm condições de deixar tudo de lado para se dedicar exclusivamente aos filhos. E as que podem e querem devem fazê-lo.

Inegavelmente, a mulher tem mais opções do que no passado. Ainda temos que lidar com o machismo cotidiano, com as práticas discriminatórias e o ranço cultural da sociedade patriarcal. Cada uma de nós, escolhe seu caminho e a melhor forma de lidar com tudo isso. Acho que a Paglia trouxe alguns temas muito importantes à tona, mas empobreceu a discussão ao generalizar o comportamento das feministas e ao tenta dar receitas de comportamento.

Enfim, essas são apenas algumas reflexões despretensiosas sobre a entrevista de Camille Paglia, nada além disso. Há muito mais a ser debatido, como a questão dos gêneros. Estes seriam construções culturais ou resultado de diferenças biológicas? As duas coisas, na minha opinião.

E você? O que acha?

– Márcia Pinna Raspanti

Abaixo o link com a entrevista completa da escritora e ensaísta americana. Confira:

https://www.google.com.br/url?sa=t&rct=j&q=&esrc=s&source=web&cd=10&cad=rja&uact=8&ved=0CEkQqQIwCQ&url=http%3A%2F%2Fwww1.folha.uol.com.br%2Filustrada%2F2015%2F04%2F1619320-nao-publicar-entrevista-camille-paglia-fronteiras-do-pensamento.shtml&ei=xJk7Vdf1McOwggSApYGgAw&usg=AFQjCNERhrlK9lJp7IUiMHJq2isErsxszw&sig2=n3ae50vbIBQUoFnm7ao9bg&bvm=bv.91665533,d.eXY

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Série de ilustrações inglesas, de 1909, que registram o movimento de greve de fome das mulheres pelo direito de voto, o que as levava à prisão, onde eram forçadas a ingerir alimentos, muitas vezes, amarradas.

 

 

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14 Comentários

  1. Maria Cristina Lages disse:

    Não concordo que ela trabalhe contra o feminismo, mas a um tipo de feminismo que eu também discordo.

    • Márcia disse:

      Nenhum movimento é perfeito: há correntes do feminismo com as quais eu não me identifico. O que acho complicado é generalizar e focar nos aspectos negativos.

  2. roberto disse:

    leio o texto completo da camile ou assistam a entrevista no roda viva
    eu nunca ouvi uma mulher tao sensata na minha vida .

  3. Fernanda disse:

    Eu confesso que sempre me sinto muito divida com a Camille Paglia. Por um lado acho sensata a posição de que a vida é sim feita de escolhas, e a maternidade é uma delas, que embora não anule a opção por uma carreira traz consigo benefícios e dificuldades que não temos como negar.

    Gosto também do ponto sobre o poder feminino. Acho incrível como as mulheres mandam nas famílias, esse poder inerente. Gosto de ser mulher, feminina sim, sem negar qualquer traço que seja, e não acho que por isso valha menos que um homem.

    Por outro lado, gente, moro no Brasil. É outro mundo, que a Camille não conhece. Toda generalização empobrece o debate, é um fato. Por exemplo, trabalho com roupas formais, e sem qualquer decote ou fenda “convidativa” vivo ouvindo bobagem na rua – como todas as brasileiras. Justificar esse comportamento imbecil é uma tolice. O machismo aqui é gritante sim, e precisa ser combatido porque prejudica a sociedade como um todo, homens e mulheres.

    Agora, a vitimização existe, infelizmente, porque tira poder das mãos das que querem mudanças igualitárias por uma sociedade mais justa.

  4. Aproveito para compartilhar um texto que problematiza sem desvalorizar. Concordo com vocês, é possível ter uma visão crítica mas considerando os avanços do feminismo também. Não dá para ter uma visão maniqueísta: o feminismo, assim como outros movimentos que debatem a igualdade de direitos, são processos, construções, com diversidade de opiniões, posicionamentos políticos, mudanças, avanços e retrocessos…

    Texto: “Dá para endurecer sem perder a ternura?”, por Alciana Paulino, publicado na seção “Esculacho”, na página do Coletivo Geni: dá pra qualquer um/uma.

    http://revistageni.org/04/esculacho/

    • marcia disse:

      Obrigada, Alessandra. Acho que o maior problema de Paglia é exatamente desqualificar o feminismo. Podemos e devemos discutir e apontar falhas, mas não acredito que “demonizar” as feministas possa trazer algo de positivo. Há séculos se faz isso…

      • Agora, um ponto muito positivo do texto é que faz a gente pensar mesmo, refletir, argumentar contra ou a favor. Ela faz diversas afirmações polêmicas, críticas, vale ler para debater mesmo. Ler o texto dela também pode levar a uma interpretação entre a “opinião certa ou boa” e a “opinião errada ou ruim”. Mas acho que ela provoca mais do que isso, ela provoca olhares de vários ângulos, remete a várias opiniões e fontes para suas colocações. Dá para uns 10 dias de boteco. rs.

  5. As considerações são todas muito pertinentes. A propósito estou concluindo a leitura de Histórias e concede de mulher, de Mary del Priore, com reflexões muito lúcidas sobre maternidade, trabalho e outros aspectos importantes nessa dura caminhada feminina. Abraço, Therezinha Mello

  6. celina disse:

    Camila foi muito certeira em sua análise. O verdadeiro feminismo aconteceu nos anos 20 e 30, as mulheres que lutaram nessa época foram heroínas e conseguiram abrir os caminhos para inserir a mulher na sociedade moderna. Hoje se a mulher está em patamar de igualdade em direitos foi graças a elas. A questão de diferença salarial que tanto dizem, nunca senti, nem quando trabalhava na iniciativa privada, tampouco agora como servidora pública. Mas se realmente existe deve ser equalizada.
    Acho o feminismo de hoje totalmente fake. As mulheres não sabem o querem. Desprezam sua verdadeira força – o feminino, que ao longo da História lhe proporcionou verdadeiras conquistas, por uma pretensa igualdade. Já os homens nunca estiveram tão perdidos (sou mãe de dois). Não sabem mais seu lugar. Tudo isso está acabando com o amor, o romantismo e colocando no lugar agressividade e falso poder. Resumindo, já não me identifico com os dias atuais. Vivo no passado onde me sinto mais compreendida.

    • marcia disse:

      Oi, Celina. Acho complicado falarmos em “verdadeiro feminismo”. As mulheres dos anos 20 e 30 viviam realidades muito diferentes das nossas, portanto, acho a comparação sem sentido. Discordo da postura da autora quando ela vitimiza os homens, afinal, se eles estão perdidos (se é que estão, pois, se trata de outra generalização), a culpa é das mulheres? O mundo mudou, assim como os papéis sociais e as relações humanas. Estamos todos tentando nos adaptar.

      • celina disse:

        Entre as conquistas das feministas dos anos 20 e 30, além do voto, que é as legitimas como cidadãs, estão o direito ao trabalho, a frequentar uma universidade, sair sozinha à rua, escolher parceiro e limitar o número de filhos. Se tais conquistas não são verdadeiras, o que seriam então? A nova geração de feministas é muito agressiva e não deixa muito claro exatamente para que estão lutando, uma vez que o trabalho ficou lá atrás a cargo das pioneiras. Enfim, achei o texto de Camille Paglia bem oportuno e certeiro.

        • marcia disse:

          Ok, Celina. Você tem todo direito de concordar com a autora, longe de mim criticá-la por isso. Mas, em momento algum disse que as conquistas das feministas dos anos 20 e 30 não são verdadeiras!É claro que tudo que você citou é fundamental para todas nós. Sim, hoje há feministas agressivas – como havia naquela época -, mas não acredito que devemos desqualificar os movimentos atuais, mesmo porque há uma diversidade muito grande deles. Acho mais do que justo lutar por salários iguais ou contra a violência. Isso não é histeria, nem vitimização.

          • celina disse:

            Lutar contra a violência em qualquer situação, sem apegos aos gêneros. O feminismo de hoje mais se assemelha a uma manifesto de garotas mimadas que não sabem se relacionar com o outro. Enfim, como disse em outro post, sou antiga.

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