Uma doce madrasta: a carta de despedida de D. Amélia ao enteado e futuro imperador D. Pedro II

Publicado em 4 de setembro de 2015 por - História do Brasil

Mais uma preciosidade do Correios Instituto Moreira Salles (IMS), a carta de despedida de Amélia Leuchtenberg ao seu querido enteado e futuro imperador do Brasil. No final, o link para ouvir um vídeo em que a atriz Julia Lemmertz faz uma leitura da emocionante missiva.

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Uma coroa, um trono e um berço!

De Amélia de Leuchtenberg Para: D. Pedro II

 

Em 1831, em meio a forte crise política, dom Pedro I abdicou em favor de Pedro de Alcântara, então com seis anos de idade, filho de seu primeiro casamento com dona Leopoldina. Foi obrigado a deixar o Brasil com a segunda mulher, dona Amélia de Leuchtenberg, e, na madrugada de 7 de abril daquele ano, noite da partida, ela, que estava com 19 anos e amava os enteados, deixou esta carta ao menino e futuro imperador dom Pedro II.

Rio de Janeiro, [abril de 1831]

Meu filho do coração e meu imperador,

Adeus, menino querido, delícias de minha alma, alegria de meus olhos, filho que meu coração tinha adotado. Adeus para sempre.

Quanto és formoso nesse teu repouso! Meus olhos choro­sos não se puderam furtar de te contemplar! A majestade de uma coroa, a debilidade da infância, a inocência dos anjos cingem tua fronte de um resplendor misterioso que fascina.

És o espetáculo mais tocante que a terra pode oferecer! Quanta grandeza e quanta fraqueza a humanidade encerra, representadas por ti, criança idolatrada: uma coroa, um trono e um berço!

A púrpura ainda não serve senão para estofo, e tu, que comandas exércitos e reges um Império, ainda careces de todos os desvelos e carinhos de mãe.

Ah! querido menino, se eu fosse tua verdadeira mãe, se meu ventre te tivesse concebido, nenhuma força te arran­caria dos meus braços!

Mas tu, anjo de inocência e de formosura, não me perten­ces senão pelo amor que dediquei a teu augusto pai. Ape­nas sou tua madrasta, embora te queira como se fosses o sangue do meu sangue. Um dever sagrado me obriga a acompanhar o ex-imperador no seu exílio, através os mares, em terras estranhas… Adeus, pois, para sempre! Mães brasileiras, vós que sois meigas e carinhosas para com vossos filhinhos, supri minhas vezes: adotai o órfão coroado, dai-lhe, todas vós, um lugar na vossa família e no vosso coração.

Mães brasileiras, eu vos confio este preciosíssimo penhor da felicidade de vosso país e de vosso povo: ei-lo tão belo e puro como o primogênito de Eva no Paraíso. Eu vo-lo entrego: agora sinto minhas lágrimas correrem com menor amargura.

Dorme criança querida, enquanto nós, teu pai e tua mãe de adoção, partimos para o exílio, sem esperança de nunca mais te vermos… senão em sonhos.

Brasileiros! Eu vos conjuro que o não acordeis antes que me retire.

Adeus, órfão-imperador, vítima de tua grandeza antes que a saibas conhecer. Adeus…

Carlos Sarthou. Relíquias da cidade do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Gráfica Olímpica Editora, 1961, pp. 111-112.

Você pode ouvir a leitura da carta feita por Julia Lemmertz no vídeo abaixo:

https://youtu.be/KuML-SosK3M

D.Amélia001 (3)

 D. Amélia Leuchtenberg.

 

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7 Comentários

  1. Maria Assunção de O. M. Grinet disse:

    Comovente a carta da Imperatriz destronada ao enteado – imperador! Sente-se nela a amargura do abandono iminente, não a um enteado, mas ao filho muito amado! Desde então ele já era uma pessoa especial!

  2. Roberto Gurgel disse:

    …pesquisas interessantes!!!

  3. Mariane Khayat disse:

    Uma preciosidade! Também agradeço por ter compartilhado. Um abraço, obrigada, Mariane Khayat

  4. Hulda Morais disse:

    Lindo! Obrigada por ter compartilhado.

  5. Sugiro a organização de um encontro virtual, para posterior encontro pessoal/ao vivo, para conversar sobre as possibilidades de criação de um roteiro à ser encenada numa sessão aberta do Psicodrama público no Centro Cultural de São Paulo aos sábados, das 10.30 as 13 hrs.

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