Um retrato do Rio de Janeiro Colonial

Publicado em 1 de março de 2015 por - História do Brasil

Até a descoberta do ouro em Minas Gerais, a cidade do Rio de Janeiro não tinha muitos encantos. Possuía, no século XVII, uma fortaleza bem guarnecida de canhões e um centro comercial muito animado por embarcações vindas do Rio da Prata e de Angola. Da América espanhola, especialmente do Peru, vinham muitas patacas de prata para pagar escravos clandestinos. A importância desse comércio ficou gravada na devoção a Nossa Senhora de Copacabana – de origem boliviana –, mais tarde instalada na pequena capela da praia do mesmo nome. Para a África era enviada a farinha de mandioca, produzida no Recôncavo Fluminense, e lá vendida, segundo o cronista Brandônio, por “alto preço”. Igualmente do Rio saía parte do tabaco baiano destinado a comprar escravos em Angola.

Até meados do século XVII, a cidade possuía quinze igrejas e instituições religiosas: o colégio dos jesuítas, no extinto morro do Castelo, o mosteiro de São Bento, o convento do Carmo, a igreja de Nossa Senhora da Conceição ou da Cruz dos Militares que sinalizavam a prosperidade da cidade. Seu perfil, contudo, era ainda de um Rio de Janeiro rural. A cidade tinha, há pouco tempo, descido dos morros, onde a plantara inicialmente Mem de Sá, para invadir várzeas e vales entre montes. Ao longo da ribeira, plantavam-se trapiches encarregados de armazenar açúcar. Entre o quadrilátero dos morros do Castelo, Santo Antônio, de São Bento e da Conceição delineavam-se as primeiras vias: a rua Direita, da Vala, da Misericórdia.
No atual Catete, instalaram-se olarias que abasteciam a cidade com tijolos e
telhas. Na lagoa de Socopenapã (mais tarde, Rodrigo de Freitas) moía o engenho del Rei restaurado por Martim de Sá. Duas capelas importantes foram, então, construídas: a da Candelária, erguida, em promessa, pelo abastado Antônio Martins da Palma, que pagava um voto que fizera durante terrível travessia do Atlântico, e a da Penha, que desde sua construção, por Baltazar de Abreu Cardoso, ganhou fama de santuário milagroso. Medidas de higiene combatiam com timidez o péssimo estado sanitário: isolaram-se doentes de varíola em lazaretos e obrigou-se o destripamento em alto-mar das baleias caçadas ao largo da costa: “para que o mau cheiro que exalavam não infeccionasse a cidade”. A Cadeia
Pública e a Casa da Câmara desceram do Castelo e se instalaram na
várzea, no antigo terreiro da Polé, depois praça do Carmo e atual XV de
Novembro. Na Ilha Grande, erigiu-se um estaleiro, destinado a fabricar
galeões e fragatas empregados no comércio marítimo e no policiamento
do litoral brasileiro. Os primeiros quilombos, constituídos por negros
fugidos dos engenhos, começavam a concentrar-se nas margens do Paraíba.
No início do século XVIII, intensificaram-se o tráfico negreiro para a
extração do ouro e o aumento da produção do açúcar fluminense. Como
ficou a cidade? Crescida, inchada, ela via aumentar dia a dia os problemas com limpeza. Os viajantes estrangeiros consideravam o Rio de Janeiro, como disse dela um inglês, “a mais imunda associação humana vivendo sob a curva dos céus”. Em contraste com a belíssima baía azul e montanhosa, as casas eram feias. As ruas, sujas, atraíam porcos ou outros animais domésticos que vinham comer os restos de lixo jogados porta afora.

O desasseio das praias, em cujas águas se derramavam os dejetos domésticos, preocupava as autoridades: “despejos cujos eflúvios voltam para a cidade e a fazem pestífera”. Melhorados em 1743, os armazéns do rei se transformaram em
residência dos governadores e, a partir de 1763, em residência dos vice-reis.
Branca, retangular e baixa, a construção era modesta e seus vastos salões abrigavam pouca mobília. À sua direita, na linha do casario voltado para a praia, erguiam-se os telhados íngremes da casa dos Telles. Ao lado, portas abertas indicavam a estalagem do francês Philippe, bodegueiro conhecido dos imigrantes portugueses que buscavam os caminhos para Minas Gerais. Um chafariz na praça reunia escravos que vinham buscar água em sonoro tumulto.
As lojas dos mercadores abrigavam-se do sol forte sob toldos de
pano riscado. Tabuletas indicavam os ofícios: barbearia, chapelaria,
oficina de bate-folhas. Indicavam também “Bom e Barato!”. Na porta,
caixeiros de tamanco aguardavam as ordens dos patrões, na sua maioria
portugueses do Minho ou das Ilhas. Nos cantos de muitas ruas, oratórios
com velas acesas lembravam aos devotos a oração das seis da tarde.
Na esquina do Rosário com a Quitanda havia um em louvor de Nossa
Senhora da Abadia; no canto de Ourives com Assembleia, outro em
honra de Nossa Senhora do Monte Serrate; o da fuga para o Egito, na
rua do Piolho, e assim por diante. As fachadas das residências quase
desapareciam por trás das grades dos muxarabiês, pelas quais as
senhoras e suas escravas observavam, sem ser vistas, o movimento da
rua. As paredes duplas, responsáveis por indescritível calor, raramente
tinham decoração. Quando muito, forravam-nas com chitão ou damasco.
O salão de receber, vazio de mobiliário, somava-se à pequena sala de
jantar. No centro da construção, pátios ajudavam a iluminar e arejar os
fechados ambientes. Sem numeração, as casas eram conhecidas pelos
nomes dos que nelas residiam ou pelo comércio que ali se praticava.
Num porto onde o tráfico de escravos era determinante, onde ficava
tal mercado? O Valongo, nome que o sinistro local recebeu, localizava-se
entre o outeiro da Saúde e o morro do Livramento. Erigido sob as ordens
do marquês de Lavradio, quando se instalou no Rio em 1769, consistia
em armazéns alinhados, beirando a praia, cada um com sua porta aberta
para receber a mercadoria humana vinda da África. Depois da travessia
em condições terríveis, os cativos encaveirados eram engordados com
farinha, banana e água, podendo ganhar “até cinco libras por semana”.
Cartazes do lado de fora anunciavam a chegada de “negros bons, moços
e fortes”, e de preços com “abatimento”.

No Rio de Janeiro ou em outras cidades coloniais, a massa de escravos dominava boa parcela dos ofícios urbanos. Atarefados, oferecendo seus serviços ou os produtos feitos na casa do senhor, cumprindo obrigações, levando recados, carregando água, os cativos estavam em toda parte. Sua presença associada ao transporte privado é constante nas gravuras sobre o período. Eram eles que carregavam o banguê, velha liteira, particular ou de aluguel, cujo telhado de couro em forma de baú protegia do sol quem ia dentro. Portavam nos ombros as cadeirinhas, mais refinadas, feitas de couro de vaca e forradas de damasco carmesim, cujas cortinas fechavam-se a cada vez que nelas se transportava uma dama. Levavam, também, a serpentina, espécie de palanquim indiano com cortinas, tendo um leito de rede. O madeiramento em que se pendurava o traste e que era valentemente erguido pelos cativos possuía esculturas: pombas, anjos, flores, frutos, obras de talha, enfim. Fardas de melhor qualidade e perucas francesas vestiam os andas, escravos encarregados de transportar senhores abastados. Mas cruzava-se pelas ruas com outros tipos de carregadores: os de pesados tonéis amarrados em tramas de corda e pau. E os dos tigres: barris carregados de lixo doméstico normalmente enterrados em buracos nas praias das cidades litorâneas. Uma bandeira preta indicava a saturação dos mesmos.
Nas estradas das capelas, nos becos sujos, encontravam-se pelo
chão aqueles que tinham se tornado os dejetos da escravidão. Doentes,
aleijados, moribundos eram deixados a mendigar ou a morrer pelas ruas
da cidade. Misturavam-se a outros pedintes, muitos deles imigrantes sem
sorte e sem trabalho, camponeses pobres, crianças abandonadas,
soldados expulsos das tropas. Todos personagens das nossas cidades.
As camadas mais despossuídas da população encontravam-se, depois
das ave-marias, nas tabernas, nas vendas, nas casas de alcouce ou de
prostituição: eram espaços de sociabilidade onde se bebia cachaça
barata, cantava-se ao som da marimba e jogavam-se dados e cartas.

Durante o dia, as ruas das cidades se animavam com outros sons. O
peditório dos irmãos das confrarias era um deles. Bandeja à mão,
esmolavam de pés descalços para suas festas: a do Divino, a do Rei
Congo, a do Santíssimo. A voz insistente também pedia: “Para a cera de
Nossa Senhora! Para as obras da capela! Para as alminhas de Deus!”.
Campainhas informavam sua presença, que era respondida pela
criançada gritando: “Pai Nosso! Pai Nosso!”. O santo viático, quando
passava, também causava comoção. Irmãos de opa anunciavam pelo
triste badalo da campainha que estavam levando os últimos sacramentos
a um moribundo. Uma multidão consternada seguia atrás em oração. Nas
artérias mais importantes cruzavam-se os funcionários do governo, os
soldados da milícia da terra, frades e padres seguidos de beatas,
mazombos – enriquecidos graças ao açúcar, ao ouro ou ao tráfico de
escravos –, mulatos, mamelucos, cabras, peões, oficiais mecânicos,
ciganos, degredados e milhares de escravos. Mulheres, as
trabalhadoras, cativas, forras ou brancas pobres, vendiam, elas também,
os seus serviços de lavadeiras, doceiras, rendeiras, prostitutas,
parteiras, cozinheiras, etc. Pouco se viam senhoras e sinhás. Reclusas,
não deixavam de realizar tarefas domésticas, expondo-se apenas em
dias de festa religiosa.

– Mary del Priore. (“Uma Breve História do Brasil”).

 

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