Um minuto de silêncio pelos mortos

Publicado em 20 de janeiro de 2015 por - temas atuais

No último dia 8 de janeiro de 2015, um silêncio histórico envolveu a França. Durante um minuto, em qualquer lugar do país, as pessoas se imobilizaram. E com elas, as coisas. Nada se moveu : carros, ônibus, metrôs e trens. Talvez se ouvissem os pássaros. Fez-se «um minuto de silêncio». Milhares de pessoas se recolheram em homenagem aos mortos do Charlie Hebdo, assassinados no dia anterior. O momento de meditação  solitária, tornado pela dor e emoção coletiva ficou congelado  em imagens que percorreram o mundo.

De onde vem essa homenagem aos desaparecidos ?  Oficialmente, o «momento de silêncio» nasceu depois da carnificina da I Guerra Mundial.  Um jornalista australiano, Edward George Honey, sugeriu a ideia de fazer cinco minutos em homenagem aos mortos, quando da assinatura do Armistício na Europa. Muitos longo, diziam uns. Um minuto ? Muito pouco, segundo outros. O rei da Inglaterra, Jorge II, adotou a solução do meio: dois minutos. A partir de 19 de novembro de 1919, dois minutos passaram a ser observados em todo o Reino Unido, a cada décimo primeiro dia de todo o décimo primeiro mês do ano, às 11 horas, pois foi esse o momento da assinatura do Armistício. Pouco a pouco, o culto aos mortos da Grande Guerra se organizou em torno de monumentos. Cerimônias rigidamente codificadas tinham lugar nos cemitérios. Adotaram-se os «minutos de silêncio», seguidos do hino nacional local. A França apropriou tais comemorações a partir de 1922.

O conhecido historiador Antoine Prost explica que os rituais em torno do Armistício foram emprestados da liturgia católica e suas cerimônias fúnebres.  E que o «minuto de silêncio» seria uma transposição laica da oração. Pois cada qual, em sua fé e credo,  teria liberdade de dizer a prece que lhe sugerisse a sua religião, ao pensar nos desaparecidos. O respeito a todas as crenças se conciliaria com a neutralidade.  Olhos baixos, postura imóvel, às vezes, mãos juntas. Até hoje, a referência à oração laica não perdeu sua pertinência. Bastou ver François Hollande ou Angela Merkel seriamente compenetrados no «minuto de silêncio» observado pela morte de 17 pessoas no dia anterior.

Hoje, a violência tem muitos rostos e os minutos de silêncio comemoram outros mortos. Eles honram vítimas de catástrofes – caso do Japão e as vítimas do desastre nuclear de Fukushima e do tsunami, a cada 11 de novembro -, ou de terrorismos, como o 11 de setembro nos EUA. Mas também, o 11 de março em Madrid e 7 de julho em Londres.

À medida que a prática se generaliza, palavras de ordem e reivindicações características de reuniões de protestos se juntam ao ritual fúnebre. O minuto de silêncio pode ser precedido de um texto ou de um gesto – o lápis brandido – ou um slogan, no caso «Eu sou Charlie».

No Brasil, não faltam vítimas, nem catástrofes. Eu mesma fui partícipe daquela que varreu a serra do Rio de Janeiro há quatro anos atrás. Quase mil mortos, mais de 800 sem sepultura. Não houve minutos de silêncio, nem medidas de ajuda aos necessitados. Por mim, faria orações fúnebres diárias em frente ao Congresso brasileiro, que morreu e não sabe. Brandiria um livro em favor das melhorias nunca feitas na Educação e gritaria bem alto: abaixo a corrupção!

– Mary del Priore.

aptopix-france-newspa_fran-

Jornalistas erguem seus cartões de imprensa durante um minuto de silêncio em frente à sede da revista ‘Charlie Hebdo’, em Paris (Foto: François Mori/AP).

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

1 Comentário

  1. Não defendo o uso da violência como resposta a atos de violência. Na verdade, sou contra a todo tipo de vingança.

    Concordo com o Papa Francisco, que disse que a liberdade de expressão não pode ofender religiões. É preciso ter prudência. Na minha opinião, o Charlie Hebdo continua extrapolando.

    Moro em Teresópolis, uma das cidades que sofreram a tragédia de 2011. Aqui, infelizmente, nada mudou, a não ser o desgoverno.

    O “minuto de silêncio” é sim, uma forma bonita de homenagear quem se foi, vítima da violência e da irracionalidade humana.

    Ótimo artigo, Mary. Parabéns!

Deixe o seu comentário!