Um imperador romântico e amargurado

Publicado em 6 de agosto de 2015 por - História do Brasil

Acredito que D. Pedro II seja uma das figuras mais enigmáticas da nossa História. Calado, avesso à pompa, simples até, e ao mesmo tempo, centralizador e intolerante. Dono de uma memória prodigiosa e leitor compulsivo, o imperador gostava de mostrar seus poemas – nada memoráveis – para pequenos grupos que frequentavam o palácio. Respondia aos elogios com “falsa modéstia”, como nos conta José Murilo de Carvalho, em sua excelente biografia. Incentivador das artes, da cultura, da educação; honesto, exigente, mas um tanto hesitante nas decisões, D. Pedro II desconcerta aqueles que tentam entendê-lo em sua totalidade. Até hoje, muitos criticam a forma como o velho monarca reagiu ao golpe republicano, comandado pelo seu amigo Deodoro da Fonseca. Ele poderia ter evitado a República, se tivesse agido de outra forma? Que rumos tomaria o Brasil? Nunca saberemos, infelizmente só podemos fazer especulações. – Márcia Pinna Raspanti.

A seguir, um trecho do livro de Mary del Priore, “O Príncipe Maldito”, relatando a reação do imperador à chegada da República e ao exílio, e que nos mostra um pouco da personalidade desse personagem tão fascinante:

 

O Imperador ia se mostrando mais do que nunca, ensimesmado, secreto e inabordável. Era um homem de seu tempo, um romântico. Ser romântico era algo mais do que ter uma estética e uma filosofia. Era um modo de pensar, sentir, enamorar-se, combater, viajar. Era, também, um modo de morrer, assim como de extinguir-se politicamente. Nesta manhã, o mundo lhe parecia envolto num sudário. Seus conhecimentos científicos que o faziam crer que a realidade não era mais que o resultado de leis físicas, de reações químicas, tudo encadeado num determinismo perfeito, o interpelavam. Triste? “Mas quem sabe se a verdade não é triste”, dizia Renan, um dos seus autores favoritos. Por quê, agora? E as ciências não eram suficientes para acalmar as decepções. As más notícias doíam. Amigos próximos davam conta do descontentamento das Forças Armadas. Quanta decepção em saber que Deodoro era o centro dos acontecimentos. Abatido, o monarca se deixou levar por um fatalismo pessimista. Achava-se desgostoso diante da ingratidão do velho marechal, antes um interlocutor. Condecorara-o, meses antes com uma das mais altas comendas do Império, a Ordem da Rosa.

Cansado, o soberano se fechava em sofrimento e perguntas.  Mas seria tal atitude um suicídio político? Não. Talvez uma repetição; repetição infeliz, do que acontecera a seu pai quando da renúncia ao trono brasileiro. Como o pai, ele também se sentia desertado e atraiçoado. Logo depois do ato de abdicação, redigido e firmado, o que fez sozinho no escritório, D. Pedro I quis partir, embarcar na nau inglesa, surdo a todos os rogos de retardar o momento definitivo do rompimento. “O que desejo é cobrir o rosto com um véu para não mais ver o Rio de Janeiro”, registrou. Pois o filho estava prestes a fazer o mesmo. Como um rio, o passado parecia fluir desembocando no presente. Triste presente, presente feito de medo, de insegurança, de solidão.

Imersos em dor, os membros da família se puseram em lento movimento. As mulheres, em lágrimas, abraçavam e se despediam de suas amigas. O mordomo do imperador, o velho Bernardo, beijava-lhe as mãos em pranto. Às 2 horas e 46 minutos de domingo, dia 17 de novembro, se desenrolou a etapa mais melancólica do drama. A família imperial deixava o Paço. Tal como seu pai, que quando partiu para o cais de embarque foi acompanhado pelos gritos de desespero de suas negras de serviço, também o imperador viu chorar seus criados. A diferença: seu pai embarcara magoado. Pedro II trazia os olhos fixos, frios e irônicos.

Uma lancha pequena comandada por escolta da Escola Militar aguardava os outros deportados para levá-los a canhoneira Parnaíba. Ao entrar na lancha, D. Pedro cuspiu uma única frase: “Os senhores são uns doidos!”. Foi um embarque noturno, incerto e furtivo: para os que o assistiram, era escandaloso ver um homem que governara por meio século banido como um degredado. Nada levava consigo, além da família. Uma família em pedaços.

Texto baseado em “O Príncipe Maldito”, de Mary del Priore; Introdução de Márcia Pinna Raspanti.

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D. Pedro II: personalidade intrigante.

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2 Comentários

  1. Luiz Gonzaga Rocha disse:

    Infelizmente o texto tem uma visão unilateral e omite muitas informações, por exemplo: ao embarcar para o exílio D Pedro II não levou nada porque RECUSOU A OFERTA QUE LHE FIZERAM e não quis aceitar dinheiro do tesouro nacional oferecido pelos golpistas (sim golpistas), entre outras coisas.

    • marcia disse:

      Olá, Luiz. O texto, como foi explicado na introdução, procura abordar a personalidade de D. Pedro II e seu estado de espírito no momento do embarque. Já divulgamos muitos outros artigos sobre o imperador focados em outros aspectos de sua vida – não há como, em um post para publicação em blog, esgotar toda o rico material que existe a respeito desse fascinante personagem. O texto em questão é extraído do livro “O Príncipe Maldito”, de Mary del Priore, que traça um retrato mais amplo do imperador e da família imperial. Obrigada.

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