“Um horizonte de chifres”, por Nélson Rodrigues

Publicado em 5 de julho de 2014 por - História do Brasil

A notícia de que Neymar Jr. está fora da Copa devido a uma séria contusão comoveu o Brasil – ou, pelo menos, aqueles que torcem pela nossa seleção. O fato me fez lembrar de uma crônica escrita por Nélson Rodrigues sobre a distensão que tirou Pelé da Copa de 62 – que, por sinal, foi vencida pelo “escrete” brasileiro.

“Amigos, fui ontem à redação de um velho jornal. Entro lá e vejo, por toda parte, caras a meio pau. Deduzi imediatamente: ‘Pelé’. Era, sim, o luto, era a dor, era o velório da distensão. Desde sábado que todo o Brasil chora e todo o Brasil vela a contusão de Pelé. Como diria Brás Cubas, até a natureza se associa à melancolia nacional. Os ventos são mais tristes, os ventos são mais inconsoláveis.

E, súbito, na redação do jornal amigo, eu vejo o Cláudio Mello e Sousa, o poeta, o crítico, o ex-admirador do Paulo Francis. Com o seu perfil de lord Byron aos dezessete anos, ele meditava horrores sobre a distensão. Eu ia dizer, fazer a saudação brutal: ‘Olá, Cláudio!’. Mas já o colega se punha de pé. Com o olhar dos profetas – olhar varado de luz –, com a fronte alta e fatal, ele anunciava: ‘O Brasil vencerá a Espanha!’. Pausa.  Novo arranco de vidente para completar: “A vitória do Brasil será um quadro de Goya!”. Foi só, ou por outra: não foi só. Em seguida, ele pôs-se a andar na redação, tumultuosamente, como um centauro truculento.

Vibrei ao ver o colega e amigo enchendo uma redação com suas rútilas patadas. Mas eu compreendi a sua ira e justifiquei a sua profecia. Hoje o brasileiro autêntico há de ter duas reações obrigatórias: luto porque Pelé saiu, euforia porque Amarildo vai entrar. A mesma fatalidade que roubou Pelé salvou Amarildo. E, aqui, abro um parêntese para uma breve meditação sobre a Fatalidade, com F maiúsculo.

Outrora, tudo que acontecia era destino, era sina, era o diabo. Pérez Escrich reabilitava e promovia suas adúlteras invocando a Fatalidade. Hoje já sabemos que há Sexo, há Economia por trás das atitudes sórdidas ou sublimes do ser humano. A Fatalidade já não explica mais, nem inocenta certas patifarias que os folhetinistas antigos idealizavam.

Todavia eu lhes digo: no presente Mundial, eis que a Fatalidade passa a funcionar novamente como nos tempos de Edmundo Dantès. Aí está Amarildo, o ‘Possesso’. Ele não ia entrar em hipótese nenhuma. Com suicida teimosia, Aymoré Moreira, Nascimento e Paulo Machado de Carvalho estavam dispostos a deixar Amarildo eternamente na cerca. Não percebiam que o craque alvinegro é possesso e que o ataque precisava de possessos. E, súbito, a Fatalidade põe o dedo no escrete do Brasil. Pelé, o divino, sofre a distensão mágica. Não recebeu nem um leve, imponderável toque. E caiu. Caiu como e por quê? Ninguém sabe, mas eu sei: a Fatalidade de Pérez Escrich.

O desespero está ventando por todo o país. Mas há uma possibilidade insuspeitada e genial: a de que Amarildo desponte como um novo Pelé, e repito: um Pelé branco, mas Pelé. Por outro lado, cada brasileiro deve ser como o confrade Cláudio Mello e Sousa, um profeta, um vidente do triunfo. E, de resto, cada um de nós precisa acreditar no Brasil com pesado e obtuso fanatismo. Graças a Deus, a Fatalidade interferiu anteontem no jogo México x Espanha. Faltavam trinta segundos para acabar o match. Era o empate e a classificação do Brasil.

Pois bem. A mesma Fatalidade que derrubou Pelé, que escalou Amarildo, a mesma Fatalidade, dizia eu, salvou a Espanha. Seu gol nasceu na última gota da partida e, ao contrário do que se pensa, foi bom. Um bicampeão não pode depender de nenhum México. Insisto: um bicampeão terá que levantar a Jules Rimet a mãos ambas, com o próprio amor e com a própria paixão. De mais a mais, o perigo viriliza, enternece e ilumina o Brasil. Sim, o perigo desperta e açula no Brasil sombrias potencialidades. Vamos enfrentar a Espanha. Diante de nós abre-se todo um horizonte de chifres, ensanguentado de chifres.

Vejam vocês o que é a chance histórica. A distensão de Pelé foi para Amarildo como a Revolução Francesa para Napoleão. E eu imagino como andará o craque alvinegro no Chile. Antes da distensão de Pelé, que fazia ele? Como o pescador de O velho e o mar, sonhava com leões. Mas o adversário é a Espanha. E, então, Amarildo sonha com chifres e sangue. Ele próprio, como no soneto célebre, é um negro touro ‘saudoso de feridas’”.

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Pelé cumprimenta Amarildo pela atuação; e a foto de Amarildo, o “possesso”.

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