Um amor impossível

Publicado em 6 de novembro de 2013 por - História do Brasil

Brasil, Século XIX: Um político de sucesso e uma herdeira voluntariosa, ambos solteiros e da elite, se apaixonam loucamente, mas nunca conseguem ficar juntos. Qual o grande obstáculo? Talvez, a própria época, cheia de regras, tabus e preconceitos…

 

Joaquim Nabuco fazia todas as mulheres de seu tempo suspirarem: era bonito, alto, elegante, culto, político de sucesso, de boa família – apesar de falido. Mesmo assim, apaixonou-se por uma mulher que lhe era inatingível, Eufrásia Teixeira Leite. Bela e dona de uma personalidade forte, ficou órfã ainda jovem e recebeu uma herança considerável. Diziam que ela foi a inspiração de José de Alencar para escrever “Senhora”. Ela era uma mulher liberal para os padrões da época, mas teve uma vida cheia de mistérios. Sabemos que viveu com Nabuco uma história de amor que durou 14 anos.

Eufrásia nasceu em Vassouras, em 1850, no Vale do Paraíba fluminense, uma região que se desenvolvia rapidamente em virtude da produção de café. Ela era a filha mais nova do comissário de café Joaquim José Teixeira Leite (1812-1872),  que não era fazendeiro, mas lucrava com os juros de seus empréstimos para as fazendas, o transporte e a exportação dos grãos. A família tinha uma empresa de exportação cafeeira na cidade do Rio de Janeiro, a “Teixeira Leite e sobrinhos”. Em Vassouras, Joaquim possuía uma espécie de banco, a “Casa de Descontos”. Era um capitalista do mundo agrário oitocentista. Ele não investiu muitos recursos em fazendas e escravos, como outros da sua família. Casou-se com a filha de um grande fazendeiro, Ana Esméria (1827-1871), cujo pai era um dos maiores cafeicultores da região: Laureano Corrêa e Castro, o Barão de Campo Belo (1790-1861), dono de uma das propriedades mais bonitas de Vassouras, a Fazenda do Secretário.

Eufrásia pertencia a uma família de barões e de membros do Partido Conservador.Na infância, recebeu uma educação tradicional, para se tornar uma futura senhora típica da elite. Tinha uma única irmã, Francisca Bernardina, cinco anos mais velha. A grande chave para a independência de Eufrásia  lhe foi dada pelo pai, que contrariando o hábito da época, teria ensinado matemática financeira às filhas, como se fossem homens. Assim, lhe daria condições para administrar seus próprios bens no futuro.

A mãe de Eufrásia faleceu em 1871. No ano seguinte, o pai também morreria. Francisca e Eufrásia ficaram sozinhas, ricas e solteiras. Provavelmente, os homens da família quisessem administrar a herança das sobrinhas, na ausência do pai. Sob pressão, as duas resolveram morar fora do país, para desfrutar de maior liberdade. Partiram para Paris no navio Chimborazo em agosto de 1873, sendo duramente repreendidas pelos parentes, preocupados com a honra das donzelas que se afastavam da vigilância da família.

O afastamento das irmãs da cidade de Vassouras foi facilitado pelo fato de a herança ser majoritariamente formada por títulos, ações e créditos a cobrar. A fortuna deixada pelo pai equivalia a 5% do valor arrecadado pelo governo brasileiro com o imposto de exportação no ano de 1872, ou à dotação anual do Imperador D. Pedro II. E nela havia apenas 12 escravos. A título de comparação, o Barão de Vassouras (tio de Eufrásia) chegou a possuir cerca de 150 escravos em sua fazenda Cachoeira Grande. A guinada para o mundo financeiro, iniciada por Joaquim e continuada por Eufrásia, revela a permanência de sua riqueza, enquanto os barões empobreciam com a degradação do solo fluminense.

Quem também embarcou no Chimborazo foi Joaquim Nabuco. Na travessia do Atlântico, a paixão parece ter sido instantânea: desembarcaram noivos. Emancipada, Eufrásia deu a própria mão em casamento. Seu tio manifestou repúdio ao noivo. Razões não faltavam: o pai do rapaz era do Partido Liberal, enquanto a família Teixeira Leite era do Partido Conservador; o rapaz ousava ser um abolicionista, enquanto a família da noiva era dona de escravos; o desnível econômico era notável, a ponto da irmã Francisca também suspeitar que ele pudesse estar à procura de um bom dote. Nabuco tinha tradição, educação, mas faltava-lhe fortuna. O noivado foi desfeito e refeito algumas vezes ao longo de 14 anos de muitas correspondências.

Entretanto, a família não foi o fator decisivo para que o romance não se concretizasse. O charme irresistível de Nabuco atrapalhou. O primeiro rompimento ocorreu por um galanteio de Nabuco a outra mulher. Eufrásia não estava disposta a fechar os olhos às infidelidades, como era comum às mulheres da época. Voltaram a reatar o noivado quando se reencontraram em Veneza, mas não durou muitos meses. O problema eram os diferentes planos para o futuro: ele queria voltar para o Brasil, e Eufrásia estava decidida a morar na Europa. Mais uma vez, ela manteve sua vontade e não seguiu o noivo.

Quando o Partido Liberal voltou a tomar a dianteira do governo Imperial, após dez anos de hegemonia Conservadora, Nabuco foi eleito deputado e mergulhou definitivamente na causa abolicionista. Anos depois, entre 1885 e 1886, Nabuco voltou a tentar eleger-se deputado. Eufrásia retornou ao Brasil para acompanhar sua campanha, que atacava o “escravismo fluminense”. Indignada, a família Teixeira Leite acreditava que o casamento seria um disparate: o dote de Eufrásia, dinheiro conseguido em muitas décadas de uso e de defesa da escravidão, seria usado para financiar a campanha abolicionista de Nabuco.

O romance acabou de vez quando Eufrásia tomou uma decisão inaceitável para a sociedade de então: ofereceu dinheiro a Nabuco, que estava bastante endividado. Uma mulher que se recusava a casar e ainda oferecia dinheiro ao amante representava muita humilhação para o orgulho masculino. Ele escreveu a carta de rompimento, pedindo de volta todas as demais que lhe havia escrito. Ela disse que não devolveria, eram parte de sua história. O paradeiro das cartas é um dos mistérios da vida de Eufrásia: alguns acreditam que ela teria sido enterrada com elas, outros afirmam que as cartas teriam sido queimadas por seu testamenteiro, a seu pedido.

Nabuco tornou-se embaixador, casou-se com outra mulher e teve muitos filhos. Muitos anos depois, ao encontrar-se com ela na Europa, escreveu a um amigo de forma saudosa, elogiando a beleza madura de seu antigo amor. Será que ele nunca a esqueceu? Eufrásia não se casou, entrando para o mundo financeiro com muito sucesso. Seu último endereço em Paris dava uma dimensão de sua riqueza: o palacete de cinco andares na Rua Bassano, local nobre até hoje, bem próximo ao Arco do Triunfo, onde realizava grandes festas. Ficou conhecida como a “dama dos diamantes negros”.

Eufrásia soube investir muito bem o seu dinheiro, escolhendo os setores com maior potencial de desenvolvimento da época, como estradas de ferro; exploração de jazidas de ouro, diamantes, carvão, ferro e petróleo; manufaturas agroindustriais; portos, energia elétrica, transportes urbanos; além de ações de bancos e títulos da dívida pública de estados e cidades. Ao final da vida, ainda investiu no setor imobiliário. Em 1929, comprou um grande terreno em Copacabana, dividiu-o em 49 lotes e lhe deu o nome de Travessa Santa Leocádia. Ao falecer, em 1930, um dos lotes já havia sido vendido. Deixou a maior parte de sua herança para a caridade, sendo que muitos hospitais e escolas foram construídos em Vassouras com ela. – Márcia Pinna Raspanti

SAIBA MAIS:

– “Joaquim Nabuco: os salões e as ruas”, de Ângela Alonso. São Paulo, Companhia das Letras, 2007.

– “Eufrásia e Nabuco”, de Neusa Fernandes. Rio de Janeiro, Editora Mauad, 2012.

– “Eufrásia e Nabuco: uma história de desencontros amorosos”In: Revista do IHGB. Rio de Janeiro, n. 423, 2004.

Mundos de Eufrásia”, de Cláudia Lage. Rio de Janeiro, Record, 2010.

Naboucovelho jnabuco

Nabuco: um amor frustrado pela emancipada Eufrásia.

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3 Comentários

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  2. Albanise Souza disse:

    Outra face da nossa história.

  3. Alexandre Mira disse:

    Muito bom!!! Nada contra o positivismo ou aos que se ligam… Mais do que datas e nomes percebemos que a História do Brasil que conhecemos na escola também é feita de pessoas e romances…

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