Testemunhas da História

Publicado em 18 de março de 2016 por - História do Brasil

            “Meninos, eu vi”: de Gonçalves Dias a Chico Buarque a expressão define que, antes da ciência, é o poder do olhar que se impõe. Ver, – já disse alguém – é compreender, julgar, transformar, esquecer ou se esquecer, ser ou desaparecer.  Há décadas, o grande historiador francês, Lucien Fébvre convidou os pesquisadores a multiplicar estudos sobre o que chamou de “suportes do sensível em diversas épocas”. Um deles era a visão. Jorge Caldeira acolheu ao chamado da mais clássica historiografia, atendendo, igualmente, ao leitor interessado no passado do seu país. E como tudo que faz, seu novo livro não decepciona. É impecável sob o ponto de vista da pesquisa e da fluidez do texto.

Brasil – a História contada por quem a viu une duas tendências. A do jornalista que sabe que a riqueza infinita da experiência visual está na raiz da modernidade, desde a difusão dos impressos às descobertas óticas, e mais tarde, da fotografia ao atual voyeurismo do Big Brother. E a percepção do historiador que compreende que entre o olho e o mundo, todo um sistema de mediação é histórica e culturalmente determinado. Ou seja, a percepção de algo visto e acontecido, no século XVI, é diferente daquela que temos hoje. Ontem, a subjetividade, modelada pelos constrangimentos impostos nas mais diferentes épocas. Hoje, a busca da objetividade. E o autor demonstra isso claramente numa bela obra que convida a visitar eventos importantes na vida brasileira, eventos testemunhados – daí o título – de modo a que as experiências diretas, inscritas numa determinada ocasião,  se transformem em substância histórica.

             “Substância histórica”: a palavra designa documentos e testemunhos na forma de escritos, manuscritos ou impressos e registros áudios-visuais. Todos correspondem a vozes vivas e mortas  cuja escritura é destinada a comprovar um fato. Ou a descrevê-lo, depois de acontecido. Mas, não só. Eles podem esconder ou dissimular, também. E essa característica revela que a história é sempre parcial. Ela nunca desvenda a verdade absoluta, e sim, um ponto de vista. Aquele que é narrado ou contado pela testemunha.

              Com a acuidade de um ourives, Caldeira escolheu as histórias mais relevantes e as maneiras de contar mais significativas. Visitando todo o país – pois há documentos sobre o Pará, Maranhão, Guairá, Amazonas, Mato Grosso e Goiás – ele  garimpou até documentação inédita, como é o caso da narrativa sobre a Guerra dos Emboabas. Arrumadas em ordem cronológica, cada parte do livro se abre sobre uma interpretação das condições econômicas, políticas e sociais do período e pequenas ementas introduzem o leitor ao texto, localizando o autor e as circunstâncias em que o material foi produzido. Para facilitar a leitura, palavras de época ou em desuso são cuidadosamente explicadas nas notas de rodapé.

          No século XVI, destacam-se os clássicos de Caminha, de Vespúcio, do governador Mem de Sá  e o depoimento de Miguel Fernandes, denunciado ao Tribunal do Santo Ofício, entre muitos viajantes estrangeiros. No século XVII, sobressaem narrativas do padre jesuíta Jerônimo Rodrigues, dos holandeses que ocuparam a Bahia e o Recife e os cronistas clássicos: Viera, Antonil  e Frei Vicente do Salvador. Já no século XVIII, a documentação é marcada pela preocupação com o ouro e os impostos:  depoimentos de bandeirantes ombreiam com os de autoridades portuguesas e há versões variadas sobre os conflitos e revoltas, dos Mascates à Inconfidência Mineira. Com o aparecimento da impressa, no século XIX, multiplicam-se as experiências pessoais por meio de textos. Da chegada da Família Real portuguesa ao Fico, do 7 de Setembro à Coroação de D. Pedro II os documentos contemplam os grandes momentos da história, mas também, aqueles mais discretos que a historiografia contemporânea elege como fundamentais: o cotidiano  nas cidades e sertões descrito por viajantes estrangeiros, a vida dos escravos, as práticas de religiosidade ou as relações afetivas. Entre outros espectadores de tantos fatos: Luis Gama, Joaquim Nabuco, Alfredo Taunay. Moldado pela indústria cultural e a expansão da leitura, o texto no século XX se enxuga. Torna-se breve, vai direto ao ponto. O leitor irá se deliciar com as lembranças de infância do ator Mário Lago, a chegada dos imigrantes japoneses, o velório de Machado de Assis ou as primeiras crônicas jornalísticas sobre o futebol. De Vargas ao golpe de 1964, documentos apontam a complexidade do dia a dia: da inauguração da Transamazônica às greves do ABC, da doença de Tancredo à denúncia que levou ao fim da era Collor.

             Pedagógico e erudito ao mesmo tempo, Caldeira nos convida a uma viagem no tempo através de várias visões. Visões que nos ajudam a conhecer a história, mas também a compreender os sistemas de valores nas quais foram produzidas. Visões que nos incentivam a nos enxergar nós mesmos, não como simples espectadores, mas como atores desta mesma história que, herdeiros das dinâmicas do passado,  temos que continuar a  construir.

 

  • Mary Del Priore.

caldeira

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