Sombras de um trono (parte 1)

Publicado em 5 de maio de 2015 por - História

Por Paulo Rezzutti.

É comum encontrarmos em matérias e livros a informação de que a última família imperial russa – o czar Nicolau II, sua esposa, filhos, funcionários e criados -, foram assassinados durante a Revolução de 1917. Porém, uma família é muito mais que pai, mãe e filhos. Aberta a temporada de caça à antiga dinastia Romanov, que governou a Rússia por mais de 300 anos, os parentes do czar tentaram se proteger da melhor maneira possível.

De 1918 até 1921, outros membros da família que não conseguiram fugir, como o grão-duque Miguel, irmão de Nicolau, tios e sobrinhos do imperador, também foram mortos pelos bolchevistas. O recado dos revolucionários era claro: sempre adiante, não permitiriam o retorno ao antigo regime.

Se grande parte dos homens da família acabou perdendo suas vidas durante a revolução, as mulheres tiveram mais sorte e demonstraram possuir uma grande determinação para sobreviver. Exemplos de mulheres fortes não faltavam, pouco importava se eram Romanov de nascimento ou por casamento. Catarina, a Grande, era alemã de nascimento, e, segundo o escritor e jornalista norte-americano, Robert K. Massie, era “uma mulher que, por sua própria iniciativa, coragem e inteligência, assumiu o comando. Levantou-se contra os homens, levantou-se contra situações, o ambiente, o passado” e serviu de exemplo para as sobreviventes Romanov séculos depois dela.

Uma dessas sobreviventes era a mãe do ex-czar, a imperatriz-viúva Maria Feodorovna, que só abandonaria a Rússia em abril de 1919, quando Yalta, na Crimeia, onde se encontrava, foi evacuada diante da investida do Exército Vermelho durante a Guerra Civil Russa.

Maria Feodorovna era uma princesa dinamarquesa que havia chegado à Rússia em 1866 para se casar com o futuro czar Alexandre III. Anteriormente, estivera noiva do irmão dele, que seria o herdeiro do trono, se não houvesse morrido tuberculoso em 1865. Irmã da princesa Alexandra, que acabou por se casar com o filho mais velho da rainha Vitória da Inglaterra, Eduardo VII, era tia do rei inglês Jorge V, que enviou um encouraçado britânico, o M.R.S. Marlborough, para resgatá-la.

Não que a velha tia “Minnie”, de 72 anos, assim realmente desejasse. A imperatriz-viúva, contrariada, só abandonou a Rússia devido aos apelos de sua irmã na Inglaterra e do comandante do encouraçado, que tinha ordens diretas do rei de proteger sua tia. Ao descobrir que só havia lugar para ela e seus parentes próximos, recusou-se a embarcar se todos os demais aristocratas e servidores que queriam deixar a cidade não fossem evacuados. Sua determinação obrigou o almirantado aliado, baseado em Sebastopol, a enviar diversos navios para o resgate. Depois de uma passagem por Londres, voltou à sua Dinamarca natal, onde ocupou uma ala do palácio de seu sobrinho, o rei Cristiano X, que vivia discutindo com ela por causa de dinheiro. A dignidade da velha imperatriz foi salva pelo rei da Inglaterra, que determinou uma pensão de 10 mil libras para a “querida tia Minnie”, que faleceu aos 80 anos, em 1928, sem acreditar nos “boatos” relativos à morte dos filhos, nora e netos.

Assim como a mãe, as irmãs do czar, as grã-duquesas Xênia e Olga, também conseguiram escapar da Rússia. Xênia era casada com o primo, o grão-duque Alessandro, apelidado de Sandro, que esteve no Rio de Janeiro em 1880. Xênia chegou com a mãe à Inglaterra, onde acabou se instalando graças à boa vontade do seu primo, o rei, que lhe cedeu “de graça e favor” um das residências da coroa. Sempre dependente dos Windsor, faleceu na Inglaterra aos 85 anos, em abril de 1960.

A outra irmã de Nicolau II, Olga, casou-se em 1901 com o duque Pedro de Oldemburgo que era sobrinho-neto da imperatriz d. Amélia de Leuchtenberg, segunda esposa do imperador d. Pedro I. Petya, como Pedro era tratado na família, pertencia a uma das famílias mais ricas da Rússia. Notório viciado em jogos de azar, gastava o dinheiro da esposa. Era homossexual e nunca consumou o casamento. Em 1903, Olga conheceu o coronel Kulikovsky e resolveu se separar do marido. Entretanto, seu irmão, o czar Nicolau II, era quem administrava as questões familiares, e somente com a sua autorização oficial algum membro da família imperial poderia se casar ou se separar. Como ele afirmasse que só daria a separação em sete anos, Pedro de Oldemburgo, longe de querer prejudicar a felicidade de Olga, nomeou Kulikovsky como seu ajudante de ordens, e este passou a morar na casa deles. Somente em 1916 o primeiro casamento foi anulado, e ela pôde casar novamente.

Ao contrário de sua mãe, Maria, e de sua irmã Xênia, Olga permaneceu na Rússia com seu marido e seus dois filhos, Tikhon, nascido em agosto de 1917, e Gury, em abril de 1919. Como era a última Romanov, neta, filha e irmã de imperadores, ainda em solo russo, oficiais do Exército Branco – russos que lutavam contra os comunistas – tentaram proclamá-la imperatriz, o que ela, elegantemente, recusou. Em novembro de 1919, iniciou seu exílio, indo primeiro para a Bulgária, até que sua mãe pediu para que se juntasse a ela na Dinamarca.  Segundo o escritor e historiador russo Constantine Pleshakov, Olga e sua família compraram uma fazenda nos arredores de Copenhague, onde viveram até 1948, quando foram obrigados pelo governo dinamarquês a sair do país.

A Dinamarca havia sido ocupada pela Alemanha nazista durante a Segunda Guerra. Olga, durante a ocupação, chegou a receber em sua propriedade diversos oficiais nazistas, sobretudo antigos militares do exército imperial russo, que viam na disputa da Alemanha com a Rússia a chance do retorno ao seu país natal. Com o final da guerra, segundo Pleshakov, a grã-duquesa acabou auxiliando alguns a seguirem para fora da Europa, para o Chile e a Argentina.

Com a invasão da Alemanha pelos soviéticos, os dinamarqueses passaram a ter o exército russo em sua fronteira. Olga, pouco se importando com esse fato, ainda tentou intervir na ordem de Stálin de repatriação dos militares russos que haviam lutado ao lado dos alemães. Em Lienz, na Áustria, segundo Pleshakov, os britânicos mantinham um campo de prisioneiros com 50 a 60 mil russos, dos quais 1.430 eram ex-oficiais e soldados do extinto exército imperial exilados, que não eram soviéticos. Mesmo apelando para o seu primo, o príncipe Axel da Dinamarca, todos foram enviados para a Rússia, onde seriam mortos.

Com a campanha que armou, Olga só conseguiu de concreto chamar a atenção de Stálin e dos soviéticos sobre si.  Em 1948, um alegado desertor soviético foi procurar trabalho e abrigo na fazenda de Olga, que o acolheu. Algum tempo depois, ele se dirigiu à embaixada soviética em Copenhague e denunciou a grã-duquesa por mantê-lo à força na Dinamarca. O governo soviético protestou ao governo do país. Era o início da Guerra Fria e, temerosos, os dinamarqueses solicitaram que Olga se retirasse de seu território. Após vender sua propriedade, ela se dirigiu com a família para a Inglaterra, onde, devido ao seu rumoroso envolvimento defendendo um corpo do exército nazista, mesmo que formado por russos exilados, não era bem-vinda. A Scotland Yard contatou um agente britânico em Ontário para sondar a respeito do envio de sua alteza imperial para o Canadá, que acabou sendo o seu último local de exílio. Olga faleceu em novembro de 1960, aos 78 anos.

 

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Família Imperial Russa (1913); a imperatriz-viúva Maria Feodorovna.

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2 Comentários

  1. Rodrigo disse:

    Muito interessante o artigo.

  2. José Arnaldo Castro disse:

    Excelente o resumo da história dos últimos Romanov.

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