Silêncio: indiferença ou sabedoria?

Publicado em 30 de novembro de 2014 por - temas atuais

Cresci ouvindo minha avó dizer que “o silêncio é de ouro”. Lembro-me dela – já falecida – a cada vez que saio de casa. As buzinas, a música, a televisão ligada, o toque dos celulares e sobretudo a voz alta e a incansável fala das pessoas criam uma poluição igual, ou pior, do que a visual. Saudades do silêncio? Sim. Nas grandes cidades brasileiras já não se houve “cantar o sabiá”, como queria o poeta, nem o canto das cigarras ou o coaxar das rãs. No que deveria ser o silêncio da noite, São Paulo se estilhaça ao som de mil vozes no ranger de pneus, na saída das boates, nas sirenes de polícia. Estamos como Nova York: “the city that never sleeps”. Aparentemente, ninguém escuta mais os sons do silêncio. Na era da comunicação, nos tornamos uma verdadeira Babel sem que o excesso de falas, conversas, gritos e ruídos signifiquem que, de fato, conseguimos nos comunicar. Saudades, portanto, daquele momento do Gênesis em que Deus não havia ainda criado o homem e a mulher.

Há, pois, os aficionados como eu deste que é uma metáfora do vazio, presença e ausência, representante dos nossos enigmas mais íntimos e familiares. Na França, não faltam grupos que passam férias em monastérios – o monte Saint-Michel é um deles – , para se ouvir a si e ao silêncio. É gente que entendeu que é preciso escutá-lo para lhe dar um sentido, para que ele se aparente a uma forma de linguagem ou de visão. Muito barulho é sinônimo de “fora”, de rua. Ai jamais encontraremos o silêncio deste espaço infinito do dentro, do eu, espaço onde nos achamos no face a face, doloroso e complexo, no qual nos perguntamos: quem sou? Onde vou? Experiências meditativas ou contemplativas empurram o místico para a terra prometida onde o corpo deve se calar para não conspurcar a alma.

Outrora, nos colégios de freiras, jovens meninas tinham que “fazer silêncio”, produzindo essa coisa opaca ou transparente cheia de sentidos: silêncio triste, calmo, áspero. Mais tarde, aprendiam a ouvir seus bem amados em silêncio, trocando apenas olhares, conversando através de gestos, calando os sentimentos, selando segredos por um pacto. Do fundo dos corpos, o silêncio urrava! Pois para além dos vocábulos, entre a palavra e silêncio, aninhava-se o desejo.

O silêncio como revelam os especialistas, pode não ser a ausência de estimulação sonora. No caso da música, o talento vocal ou instrumental colocados a serviço do som disco, tecno ou rave, longe de preencher seu papel de elo social conduzem à solidão, ao isolamento, à indiferença. Ouve-se música aos berros mas dança-se, sem par. A violência dos baixos rítmicos, o constante tam-tam,  deixa as pessoas solitárias. A mesma regra serve para ambientes onde todos falam ao mesmo tempo sem se entender. A falta de comunicação deixa a sensação amarga de se estar só, na multidão. Idem para programas de televisão nos quais o jorro de vulgaridades e deboche é contínuo. Nesses casos, a censura que é o silêncio artificialmente criado por uma autoridade constituída, devia ser obrigatório.

O silêncio pode ser também doença da alma: grito de medo, desespero ou solidão. Quando não há mais com quem conversar, trocar ou de quem ouvir. Mundo inerte e inanimado do silêncio de morte. Passa-se, então, para a eloqüência muda do analista cuja presença silenciosa encoraja o analisando a dizer o não dito. Ai, diria minha avó repetindo o adagiário popular, “Silêncio também é resposta”. Ela nem conhecia Freud mas sabia que frente ao outro que sofre é preciso não ser surdo e  recusar o silêncio para ver a cura efetuar-se pela palavra. Ou pelo riso.

Nessas lembranças sobre o silêncio é bom não esquecer um outro adágio: “Quem cala, consente”. É a vertente ambígua do silêncio. Momento em que o vazio mostra a sua força. Hoje, mais do que ouvirmos o silêncio nos calamos frente a questões sobre as quais não deveríamos, nem poderíamos consentir. A lista é longa e abrange desde questões de cidadania aquelas nacionais: violência, criminalidade, corrupção de homens públicos, miséria saúde, educação, etc. Esse é o nosso silêncio feito de medo e de palavras mortas. Para fugir dele, falamos em demasia ou nos torna-mos surdos repetindo sem saber a anedota que se conta sobre o encontro de dois grandes músicos, Schumann e Brahms. O primeiro diz ao segundo, ao recebê-lo em Dresden: “Que bom que você chegou, pois agora podemos nos calar juntos”. É isso que desejamos para nós e nossos filhos?

– Mary del Priore.

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