Sexualidade precoce: uniões entre crianças e adultos

Publicado em 15 de julho de 2014 por - História do Brasil

No século XIX, a felicidade conjugal não decorria do relacionamento entre marido e mulher, mas do atendimento de necessidades práticas das quais o casal era um simples instrumento. Se a jovem “é rica -conta-nos Daniel Kidder- está desde logo preparada para a vida e o pai apresenta-lhe alguns de seus amigos, com a consoladora observação; minha filha, este é teu futuro esposo”. O risco de um amor fora do matrimônio levou um viajante a prever: “Se os homens e mulheres casam-se com quem não amam, eles amarão aqueles com quem não se casam”. O matrimônio entre moças e velhos confirma a tese. E não eram poucos a unir mocinhas com homens quase senis. Muitas destas uniões faziam pensar num grupo constituído por avô, filha e netos, quando eram marido, mulher e rebentos.  Indignados, os estrangeiros não se continham. Um deles, alarmado, registrou: “Uma brasileira me foi indicada hoje que tem doze anos de idade e dois filhos que estavam fazendo traquinagens a seus pés. Ela casou-se aos dez anos com um rico negociante de sessenta e cinco, uma violeta primaveril presa numa crespa rajada de neve. Mas as damas aqui se casam extremamente jovens. Elas mal se ocuparam com seus bebês fictícios, quando têm os sorrisos e as lágrimas dos reais”.

Desconcertante é o quadro de um capitão da marinha americana que senta em seu colo, uma menina de treze anos para contar-lhe estórias. Vem, então, a saber que era esposa de um sexagenário e mãe de uma criança pequena. Outra gafe? A do estrangeiro que tinha feito elogios à filha mais jovem de um senhor de certa idade, extraordinariamente bela, uma das mais lindas que havia visto na América. Depois de afirmar ser ela afortunada por ter um pai tão afeiçoado, ouviu num tom nada gentil: “Pai? Eu sou seu marido, ela é minha esposa! Mas eu o perdoo pelo equívoco já que tenho filhas, para dizer a verdade quase para serem a mãe dela”. Pano rápido.

Chocado ficou também o capelão inglês depois de uma conversa com o ouvidor da comarca de São João Del Rey. Depois de reconhecer que não tinha mais muito tempo de vida e queixar-se da áspera vida de solteiro, o senhor anunciou singelamente que pretendia casar-se. “E de fato, registra o britânico, ele se comprometeu com uma moça de exatos doze anos e casaram-se em pouco tempo”. Embora no final do século ainda se observasse a extrema juventude de certas noivas – em média de 12 a 16 anos -, sendo que “uma mulher de 20 anos é quase uma solteirona”, a grande diferença de idade entre cônjuges brancos, não escandalizava os brasileiros. Elizabet Agassiz no meado do século, falando como educadora, lamenta que as meninas fossem retiradas das escolas sem a necessária educação: “na idade em que a inteligência começa a se desenvolver. A maioria das meninas enviadas à escola, aí entram com idade de sete ou oito anos; aos treze ou quatorze são consideradas como tendo terminado seus estudos. O casamento as espreita e não tarda a tomá-las” Horrorizava, sim, os estrangeiros que reagiam criticamente a tais situações, muitas vezes, até exagerando suas narrativas, que se não eram todas reais, eram representativas de uma situação de fato.

O preconceito racial de estrangeiros não raro se misturava com a aversão europeia pela “corte amorosa à brasileira”. O fato de meninas, muito meninas, passarem da reclusão familiar às mãos dos maridos os fazia crer num precoce interesse pelo sexo oposto, interesse, aliás, muito mal visto. Os viajantes criticavam a precocidade com que adquiriam modos e conhecimentos impróprios para a sua idade: “antes de cumprir dez anos, uma menina conhece perfeitamente bem o valor dos homens como marido e o que é o flerte; gracejará com suas irmãs a respeito deste ou daquele rapaz e se dará conta muito bem que o seu próprio objetivo na vida  é assegurar-se um homem. Quando estiver com catorze anos ela saberá tudo a respeito de coisas que se supõe que uma inglesa não saberá até que esteja casada”. A percepção destes estrangeiros é de que havia certa precocidade sexual nas moças do Novo Mundo

Lembra ainda a historiadora Tânia Quintaneiro que não era raro, a menina branca das famílias de posses, entrar como objeto de barganha entre seu pai e algum senhor, possivelmente bem estabelecido, idoso ou mesmo seu parente próximo, que desejava casar-se e ter filhos. Não faltaram explicações associadas ao clima quente. Veja o leitor, por exemplo, a explicação de J.K.Tuckey para o que lhe parece ser a necessária poligamia tropical:

“Entre as mulheres do Brasil, bem como as de outros países da zona tórrida não há intervalo entre os períodos de perfeição e decadência; como os delicados frutos do solo, o poderoso calor do sol amadurece-as prematuramente e após um florescimento rápido, deixam-nas apodrecer; aos quatorze anos tornam-se mães, aos dezesseis desabrochou toda a sua beleza, e aos vinte, estão murchas como as rosas desfolhadas no outono. Assim a vida das três destas filhas do sol difere muito da de uma européia; naquela, o período de perfeição precede muito o de perfeição mental, e nesta, uma perfeição acompanha a outra. Se, dúvida, estes princípios influenciam os legisladores do Oriente em sua permissão da poligamia; pois na zona tórrida, se o homem ficar circunscrito a uma mulher, precisará passar quase dois terços de seus dias unido a uma múmia repugnante e inútil para a sociedade, a não ser que a depravação da natureza humana, ligada à irritação das paixões insatisfeitas os conduzisse a livrar-se do empecilho por meios clandestinos. Esta limitação a uma única mulher, nas povoações europeias da Ásia e das Américas, é uma das principais causas de licenciosidade ilimitada dos homens e do espírito intrigante das mulheres.No Brasil, as relações sexuais licenciosas talvez igualem o que sabemos que predominou no período mais degenerado do Império Romano”.

Outra explicação, desta vez dada pelo conde de Suzanet, em 1825, afirmava que as mulheres brasileiras gozavam de menos privilégios do que as do Oriente. Relegadas na maioria das vezes, ao convívio das escravas, elas levariam uma vida inteiramente material. Casavam-se cedo, logo se transformando pelos primeiros partos, perdendo assim os poucos atrativos que podiam ter tido. Os maridos se apressavam em substituí-las por escravas negras ou mulatas. “O casamento – ponderava – é apenas um jogo de interesses. Causa espanto ver-se uma moça ainda jovem rodeada de oito ou dez crianças; uma ou duas, apenas, são dela, outras são do marido; os filhos naturais são em grande número e recebem a mesma educação dos legítimos. A imoralidade dos brasileiros é favorecida pela escravidão e o casamento é repelido pela maioria, como um laço incômodo e um encargo inútil. Disseram-me que há distritos inteiros em que só se encontra dois ou três lares constituídos. O resto dos habitantes vive em concubinato com mulheres brancas ou mulatas”.

Entre os fatores culturais e econômicos responsáveis pela tendência a que as brasileiras se casassem mais cedo estariam: a maior sujeição feminina, a procriação como objetivo primordial do matrimônio, a subordinação de interesses pessoais aos familiares, a pouca educação e instrução, a inexistência de um mercado de trabalho livre e aberto à mão de obra feminina e, resumindo, a desimportância dos critérios afetivos para a escolha do cônjuge. Os viajantes raramente mencionam mulheres que tivessem permanecido solteiras a contragosto ou por opção, como se tal fenômeno não existisse, mas talvez apontem nos matrimônios entre brancas e mulatos a solução tropical quando faltavam noivos suficientes de origem europeia.- Mary del Priore.

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“Rosa e Azul”, de Pierre-Auguste Renoir.

 

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1 Comentário

  1. Débora disse:

    Amei o texto, maravilhoso!!

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