Sexo homossexual na novela: escândalo?!

Publicado em 14 de julho de 2016 por - artigos

           A Globo causou polêmica com uma cena que mostra uma relação sexual entre dois homens na novela “Liberdade, Liberdade”. É muito interessante notar que a trama escolhida para mostrar o amor homossexual de forma mais ousada (para o padrão das novelas brasileiras) tenha sido de época: a história se passa em Minas Gerais, no final do século XVIII e início do XIX. Os dois personagens são apaixonados, mas não podem assumir o relacionamento devido às pressões sociais. Tem tudo para ser um amor trágico, daquele tipo que faz tanto sucesso nas novelas.

         A homossexualidade foi duramente reprimida no Brasil Colônia, principalmente a masculina, tanto pela Igreja, que perseguia os “sodomitas”, quanto pelos representantes da Coroa Portuguesa. As práticas “nefandas” dos indígenas foram alvo de escândalo e repressão pelos jesuítas. As Ordenações Filipinas (1603) previam a pena capital aos homossexuais, incluindo as mulheres. As punições incluíam confisco de bens, infâmia dos descendentes e até a tortura. A homossexualidade foi o único crime moral passível de receber a pena da fogueira pela Inquisição portuguesa. As punições aumentavam nos casos de homossexuais considerados devassos e escandalosos, que podiam ser sentenciados a degredo, açoites, confisco de bens e à fogueira.

            Entretanto, isso não impedia os amores homoeróticos. Houve casos, inclusive, de homens que demonstravam suas preferências sexuais em público, em pleno século XVIII. “Rituais de namoro entre homossexuais não se distinguiam dos demais. Luís Delgado, estanqueiro de fumo em Salvador da Bahia, se tornou conhecido por demonstrar publicamente a paixão que nutria por seus sucessivos amantes, beijando-os na frente de outras pessoas, regalando-os com presentes de fino trato, vestindo-os com “galas”, ou seja, roupas e sapatos caros, andando juntos debaixo de um grande guarda-sol, para escândalo e escárnio de seus inimigos. Era comum a troca de ‘memórias de ouro’, ou seja, um anel de compromisso”, conta Mary del Priore, em História do Amor no Brasil.

           No século XIX, a medicina se alia ao Estado e à Igreja para estigmatizar os homossexuais. Nessa perspectiva, o homossexual deixaria de ser um “pecador” para ser visto como um doente. Os tratamentos para essa “doença” eram bastante cruéis e invasivos aos olhos da atualidade, mas tinham como objetivo tratar e curar tais distúrbios. Gilberto Freyre descreve os rapazes afeminados, que mais pareciam sinhazinhas, e destaca que esses eram ridicularizados e perseguidos pela sociedade. Na literatura médica, a aversão moral e religiosa ao homoerotismo suscitava explicações sobre o antinaturalismo e o aspecto doentio desse tipo de relacionamento.

          Na literatura, contudo, percebemos algumas mudanças. Com a chegada da estética “naturalista” a homossexualidade começa a ser abordada de forma um pouco diferente. Adolfo Caminha, em 1895, publica seu segundo romance, O Bom Crioulo, com a história de um fanchono e seu amor por um garoto pubescente. “Amaro, um escravo fugitivo busca refúgio trabalhando num navio da marinha brasileira. Aí encontra Aleixo: jovem e delicado grumete, de pele clara e olhos azuis, por quem se apaixona. Quando em terra, Amaro monta casa – um quarto alugado – com Aleixo, onde vivem um relacionamento livre. Em viagem, Amaro não deixava de levar uma fotografia de Aleixo – o daguerreótipo ficara conhecido no Brasil, desde 1840 – imagem que, ao deitar, enchia de beijos úmidos e voluptuosos. Mas, como já viu o leitor, não há, nesta época, história assim sem final trágico. Pois Aleixo se deixa seduzir pela senhoria – Carolina, uma ex-prostituta e roído de ciúmes, Amaro o mata.  Ambos são vítimas, na tradição da época do amor trágico, amor traído, amor impossível, amor de novela”, resume Mary del Priore.

            O amor homoerótico começa a inspirar tramas românticas, algo bem diferente do tratamento dado ao tema anteriormente. (Quem não se lembra dos poemas satíricos direcionados aos maricas por Gregório de Matos, na Bahia do século XVIII?) Apesar da perseguição e do preconceito, surgem novas abordagens com a virada do século. Em Frederico Paciência, escrito em 1924 e revisto várias vezes antes de sua publicação póstuma em 1947, Mário de Andrade narra a estória romântica de dois estudantes que se separaram sem consumar seus desejos, exceto por alguns beijos e abraços furtivos. “A distância geográfica porá um fim na relação, permitindo ao autor expressar, num dos personagens, o alívio frente à possibilidade de ter que se assumir como homossexual. Alívio, de muitos que se viam constrangidos por seu meio familiar e social. Alívio, segundo vários autores, autobiográfico”, diz a historiadora.

                E como a homossexualidade tem sido retratada na televisão? Por muito tempo, os homossexuais foram mostrados como tipos cômicos, ridicularizados em trejeitos exageradamente afeminados. Nas novelas, muitos personagens foram bem aceitos pelo público pela via do humor. Não havia casais homoafetivos. Recentemente, os autores começaram a inserir personagens homossexuais mais verossímeis, que trabalham, têm família, relacionamentos. O “beijo gay” protagonizado por duas atrizes veteranas no ano passado causou reações ruidosas e até campanhas de boicote à emissora. Propagandas que mostram simplesmente que os casais homossexuais também compram presentes para o Dia dos Namorados (!) foram denunciadas por telespectadores indignados.

                As críticas à cena de sexo homossexual, como seria esperado, agradou muitos e revoltou outros tantos. Enfim, a mídia se alimenta das polêmicas, mesmo que falsas. Mas, esse tipo de acontecimento tem o mérito de colocar as discussões na ordem do dia e ajudar a quebrar velhos tabus.

  • Texto de Márcia Pinna Raspanti.

 

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Foto: TV Globo (Divulgação).

 

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13 Comentários

  1. Elisandra Silvino Martins disse:

    Lindo de se ver tão agradável debate cortês e singelamente uma fagulha de discussão sobre o ser e não ser nestes últimos comentários… concordo plenamente com o simpático comentário de José Arnaldo e mais adoravelmente concordo com a explanação histórica da situação. Triste mesmo é ver tantos exageros e mesmices… sabendo que na História há muito o que se falar. Sou professora de História em Manaus, e discuto mais ainda sobre o poder da mídia na formação de opinião pública. Porém nem todos com a mesma perspicácia e respeito. ( aplausos)

  2. Neide disse:

    Eu sempre começo minhas mensagens com uma frase de efeito:
    Não sou homofóbica gosto do sexo oposto.
    É nesse contexto que vejo A vida. Toda a pessoa tem o direito de ser o que bem entender, desde que não prejudique ninguém. Assim como tem pessoas que simpatizam com os homossexuais haverá sempre pessoas que irão detestar essas pessoas, não sei porque , somos seres humanos e o respeito a esse gênero e de suprema importância para o sucesso dos homens perante a arrogância e prepotência dos das pessoas.

  3. vanuza sipriano disse:

    Mácia, você acha que esse tema (homosexualismo) não só nos dias atuais, mas fazer um resgate histórico a respeito disso, seria um bom tema de TCC? estou terminando Letras. Achei interessante estou pensando em mudar meu tema…

  4. Roberta Tavares disse:

    Muito bom o texto, so no finalzinho o uso indevido da palavra “homosxualismo” que não soou bem.

  5. José Arnaldo de Castro disse:

    À
    MÁRCIA PINNA RASPANTI
    Muito interessante seu comentário a respeito da homossexualidade de ambos os sexos. É um ato amoroso antigo. Até onde sei, Alexandre Magno tinha um amante e diversas personalidades da História antiga também os tinham. Acredito que ela seja tão antiga quanto a humanidade. No entanto, em cada época, ela é tratada de formas diferentes. Também, até onde sei, os estudiosos sobre o assunto não sabem definir bem quais são suas origens e suas causas. Não sou desse ramo, por isso não quero entrar em detalhes. Quanto a esse ato em novelas recentes e, em particular da Rede Globo que detêm a maior quantidades de novelas, inclusive para exportação, ao meu ver, está um tanto quanto perdida. Seus atuais autores, inclusive, alguns mais veteranos, não tendo mais o que pensar em tramas de um sentido mais profundo, estão forçando demais no assunto. Não tenho nada contra os homossexuais, pois, sei que isso faz parte de um desvio que considero, comportamental, sem uma causa ainda bem definida. Acredito que uma autora como Janete Clair ou mesmo seu marido, Dias Gomes, devido aos seus dons de escritores, não colocariam situações como o que vem ocorrendo nas atuais novelas globais. Acho que falta criatividade. Reparem como as tramas dessas novelas, independentes do homossexualismo, são sempre parecidos. Faltam criadores, pensadores. Penso muito nas crianças que vêm tais cenas e podem achar, e com razão, que tudo é normal. Precisa-se que se deem uma “chacoalhada” naquelas pessoas que têm o dom de escrever, para fazê-las ver que existem outras formas de criatividade literária , de enredos, de tramas que nos faça sentir vontade de ver uma novela gabaritada como nos padrões antigos e como fazíamos. Hoje, isso não existe mais. Já li na mídia que os índices de audiência das novelas da Globo têm caído bem. Em suma, a programação das TV’s abertas está um “lixo”. Para uma TV aberta de melhor qualidade de um modo geral, é que escrevo essas linhas.

    • Márcia disse:

      Oi, José Arnaldo. O artigo não tem a intenção de exaltar as novelas globais, nem mesmo entrei nesse tema, sobre o qual não sou especializada. As tramas históricas em particular possuem, na maioria dos casos, muitos erros e anacronismos. Como eu disse no texto, a mídia se alimenta dessas polêmicas, muitas vezes falsas ou artificiais. Agora, na minha opinião, esse tipo de cena – já tão comum em seriados e filmes americanos e ingleses, que consumimos nas TVs a cabo – tem o mérito de trazer algumas discussões importantes à tona, pois as novelas ainda são muito populares entre os brasileiros. Obrigada!

      • José Arnaldo de Castro disse:

        Márcia
        Entendi perfeitamente o seu posicionamento e o respeito. No entanto o que quero dizer é que os temas das novelas atuais (sobretudo as globais), é um conjunto de mesmices. O homossexualismo a que me refiro é um desses temas. Sou do tempo de novelas na rádio nacional. Ouvia 3 novelas de aventuras nas décadas de 50 e parte do início da de 60. No início da década de 50 “assistia” com minha mãe e um casal de tios a novela que mais fez sucesso quer seja no rádio quer seja na TV. Chama-se “O direito de nascer”. Claro que falo em assistia é uma força de expressão, pois, na realidade, eu estava junto a eles mas dormindo. Na TV eu tinha prazer de ver algumas novelas que tinham como finalidade realmente de divertir. Assisti novela na extinta TV Tupi e posteriormente, na Globo. Meu ponto central é que não tem aparecido mais autores como Janete Clair, Dias Gomes e outros. Realmente Márcia, entendo que a mídia se alimenta dessas polêmicas. Sou Engenheiro Civil. Sigo muito o que sai na mídia sobre Engenharia Civil. Por exemplo, o caso da passarela que caiu na orla marítima do Rio de Janeiro em abril. Já saiu o laudo final sobre os motivos que a fizeram cair. Mas a notícia foi sem destaque como foi quando caiu. Por outro lado, onde está a crise hídrica que se abateu sobre a Região Sudeste entre 2014 e 2015. Não se fala nada mais. Portanto, ela está aí e não demora dar mais problemas pois, nada tem sido planejado para miniminizá-la. O que reclamo também é um respeito na mídia sobre alguns assuntos, inclusive dentro de um determinado horário. Nada de censura.
        Márcia, estou na treplica sobre seu assunto. Nada de contestação ao seu artigo, já que, reafirmo, entendi bem o que você quis dizer. Se você quiser, estarei sempre ao seu dispor. Abraços

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