Sexo frágil: a “inferioridade” das mulheres

Publicado em 7 de maio de 2014 por - História do Brasil

Mesmo com as mudanças que ocorreram na sociedade entre o final do século XIX e o início do século XX, a visão que se tinha das mulheres continuava a mesma. A fraqueza inata dos órgãos femininos fazia a mulher inferior ao homem, continuavam a ecoar os médicos. Doenças nervosas, como anorexia, neurastenia ou histeria, resultariam de seus desmedidos desejos. Suas virtudes, ou seja, doçura, passividade e submissão, obrigavam-na a se colocar sob proteção de um homem forte e viril, e a ele ligar-se como “a trepadeira à árvore”. Criaturas opostas, homens e mulheres deveriam se unir por uma razão: constituir família. Ela focada no papel de mãe e esposa. Ele, exercendo poder sobre a mulher e fiscalizando os filhos.

Nos setores populares, em que a mulher tinha maior autonomia e menos controle familiar, a sexualidade era menos reprimida. O tabu da virgindade, violado. O contato físico não era ocultado. Casais se abraçavam e se beijavam pelas ruas. Na casa das famílias tradicionais, contudo, a intimidade física era proibida. Nas cartas, noivos se despediam com um “beijo-te, com muito respeito, as mãos”. Tais comportamentos aumentavam a distância entre umas e outras.

A intervenção do Estado na regulamentação do casamento pode ser observada na legislação civil e penal introduzida pelo regime republicano. A lei do casamento civil de 1890 exigia autorização do responsável pelo cidadão que desejasse se casar, mas não obrigava mais o pai a averiguar o caráter dos pretendentes estrangeiros. Bastava um atestado de que o candidato não possuía doenças infectocontagiosas. O Código Civil de 1916 aboliu essa prerrogativa; manteve-se apenas a necessidade de consentimento para menores de 21 anos.

Segundo o Código, a mulher casada era considerada incapaz, devendo sua representação legal ser assessorada pelo marido. Ou seja, ela não poderia, sem autorização prévia do esposo, litigar em juízo civil ou comercial, exercer profissão, aceitar mandato, aceitar herança ou contrair obrigações. Além de permitir e/ou não as atitudes de sua mulher, cabia ao homem, ainda, tomar decisões sobre a administração dos bens comuns – e dos bens particulares da mulher – e a fixação do domicílio familiar.

A preocupação do Estado e da medicina com a constituição de famílias levou-os a se preocupar também com a presença da mãe em casa. Trabalho? Não! Quem cuidaria dos filhos, esses futuros cidadãos que dependiam dela? Estudos como o de João Passos, em 1913, Da escravidão da mulher pelo industrialismo e do consequente malefício para a espécie, provavam que só havia malefícios em afastar a mulher da família. As razões: o período menstrual, a gestação e a lactação exigiam “máxima atividade fisiológica”, e sobrecarregar o físico com esforços obrigatórios era “positivamente um crime”, cravava o doutor. Afinal, elas eram tão fracas… E para concluir: “não precisamos sair do simples domínio biológico para verificarmos o quanto é monstruosa a moderna organização social, em que a Mulher vai sendo cada vez mais sacrificada à criminosa cobiça do regime industrialista”.

Ao sair de casa para trabalhar ou assumir negócios que lhe coubessem por dote ou herança, a mulher assumiria um comportamento visto como masculino. Inaceitável! Por quê? É José de Alencar quem explica, por meio da personagem Aurélia, no romance Senhora: “o princípio vital da mulher abandonava seu foco natural, o coração, para concentrar-se no cérebro onde residem as faculdades especulativas do homem” – ou seja: lucidez, conhecimento, facilidade nas operações aritméticas, frieza.

Para muitos, a mulher não passava de um grande e compassivo coração. Cérebro? Nem pensar…- Mary del Priore.

ofeliamillais

“Ofélia”, de Millais: desejos e paixões levavam as mulheres à ruína.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

0 Comentários

Deixe o seu comentário!