Sexo e magia: a história de um bruxo brasileiro

Publicado em 31 de outubro de 2014 por - História do Brasil

João Sebastião da Rosa, ou Juca Rosa, “senhor de forças sobrenaturais” e uma das maiores lideranças  religiosas na década  de 1870.  Ex-praça  do  Exército, descreviam-no  como  um “crioulo entre 36 e 40 anos”, “de olhos vivos e penetrantes”, alfaiate de profissão,  sempre elegante no trajar,  alfabetizado, cuja mãe africa-na lhe legou “um  arcano  de dar fortuna”. Aborreceu-se  no trabalho e abraçou a “nefanda procissão” de feiticeiro.

Mas foi deflagrado  um processo contra  ele, depois de uma denúncia anônima enviada à Justiça e publicada no jornal Diário de Notícias, que aí viu a possibilidade de monopolizar o tema e multiplicar vendas. Seguiram-se  notícias  sobre  sua prisão,  sempre sob o título  de “Importante  diligência  policial”.  A seguir, em letras  maiúsculas,  vinha  a lista de “crimes” por ele cometidos: “sortilégios, evocações, estelionatos, roubos, defloramentos, remédios para que adúlteras encobrissem suas faltas, mortes, propinações de veneno, abusos de confiança, ataques  à religião, seitas proibidas, reuniões secretas, feitiçaria”. E, durante meses, a venda de jornais incentivou  uma sucessão de artigos escandalizados.

Segundo  o  mesmo  jornal,  quem  o  acusava  era  um  jovem  de 24 anos que conhecera  Juca, líder de uma “irmandade conhecida  até na Europa”, quando buscou  tratamento para  um braço  doente,  mas não  obteve  um bom  resultado. Adiantou-lhe 30 contos  de réis para compra  de remédios  e participou de uma  cerimônia.  Ajudou  Juca a realizar  uma “amarração”: cercado  de “bugigangas”, descalço  e sem paletó. Dando  saltos, mudando de voz e em meio a cantorias, segundo seu acusador, ele convertia  inimizade  em afeição, aconselhando tam- bém “os meios de se vencer quaisquer dificuldades na vida”. Segundo a matéria  do jornal, “era  nesse momento que todos  os assistentes  lhe beijavam a mão direita e batiam  com a cabeça no chão”.

Na rua  da Carioca, 36, novo ritual  de amarração entre uma jovem portuguesa e um opulento negociante que a frequentava. Ali, Juca estendeu  um pedaço  de pano,  e sobre  este, em forma  de cruz, outro encarnado e preto,  pondo-se  sobre tudo  um urubu,  um anu, pimenta de Angola,  farinha, azeite de dendê,  milho  e acaçá.  Feito isso, comparecia  a consultante e Rosa fazia-lhe passar  um galo pelo corpo  em todas as direções, pronunciando algumas palavras  ininteligíveis. Após, cortava-se  o pescoço da ave e a consultante esquartejava-a enchendo-a dos  ingredientes  e mandando-a colocar  à porta  da  Igreja de São Francisco de Paula.A moça não só lhe entregara um anel de brilhantes em pagamento  dos serviços,  como  lhe dera  dinheiro,  vendera  sua  mobília  para arcar com despesas e, diziam, prestara-se a serviços sexuais.

A irmandade tinha  cerca de trinta  pessoas e Juca se autoproclamava “Pai Quibombo”. Segundo o jornal, ele extraía  ferros e agulhas de ferimentos,  preparava medicamentos que levavam à sepultura, casava-se com várias mulheres no “gongá”, batizava  seus filhos segundo rituais  pagãos  diante  de um  ídolo,  o Manipanço, promovia danças eróticas  em frente a imagens santas,  e as “filhas que não cumprissem obrigações” pagavam-lhe multas em dinheiro. Elas trabalhavam e participavam  das cerimônias  descalças e algumas “nuas”, escandalizava-se o jornal!  A maioria  das  mulheres  era  fanaticamente dedicada a Juca. Ele era conhecido  por “inspirar paixões, tirar o vigor dos indivíduos, fazê-los adoecer  e sucumbir  a moléstias”. E tudo  por dinheiro, rugiam os articulistas.

O “nigromante” recebia numa  vila situada  à rua do Núncio,  depois de um “banho de ervas cheirosas”, diante  de um altar  com imagens, castiçais e salva de prata  para  receber dinheiro.  Nesse ambiente de luz mortiça  e sepulcral, tocavam-se  as “macumbas”. Distribuíam-se bentinhos para  usar junto  ao pescoço, cantava-se  em língua africana e, com “o espírito na cabeça”, Juca caía como morto.  Era aí que dava consultas  como “Pai Quibombo”. A região era infestada  de cortiços, casas de fortuna (onde  atendiam cartomantes e videntes) e prostíbulos. Mas em seu candomblé eram recebidas muitas senhoras  elegantes com quem  Juca teve ligações mais do  que espirituais. Sedutor  e carismático,  acabava  por  enfeitiçar  as clientes, a quem  fazia, segundo algumas,  “propostas indecorosas”. Era adorado pelas belas e jovens que lhe prestavam serviços sexuais.

As notícias  sobre seu julgamento fizeram vender muitos  jornais; afinal, consideravam-no “capaz  de enganar  o próprio Deus” e “salteador  da honra, do pudor  e da fortuna”! As diversas  testemunhas que se apresentaram ao júri relataram uma “coleção  de cenas dignas  de pena  do mais extravagante romancista”. O que impressionava era o número  de amantes  e de acólitas adúlteras capazes de tudo pelo Juca, inclusive dar-lhe dinheiro.  E muito.

A curiosidade pública  transformou Juca num “herói  de horrores”, segundo uma dessas folhas. Não faltava quem acusasse: curan- deiros como  ele infestavam  a cidade,  e “tudo isso vive à sombra  de inqualificável  proteção” e nas  barbas  das  autoridades. Era  fanatis- mo. Pois nenhuma queixa  para  “pôr cobro nos atos  de selvageria” jamais chegara  aos ouvidos  da polícia. Juca era protegido por “políticos e capitalistas”.

Nas fórmulas  mágicas que vendia, não faltava  a presença  do catolicismo. Sincretismo, aculturação, mestiçagem? Pouco importava. O  julgamento de Juca  Rosa  teve início  no  dia  5 de janeiro  de 1871. A sala, lotada  de autoridades, gente elegante, “madamas” e seguidores, mais parecia uma festa.

Seis meses depois, ao final do julgamento, 45 edições de 50 mil exemplares  de uma  brochura sobre  o processo  do “famigerado Juca Rosa”  eram  vendidas  nas boas  casas do ramo,  informam os jornais da época. O feiticeiro foi, então,  condenado. Não  por bruxaria, pois o Código  Criminal  do  Império  não  considerava tal  crime,  mas  sim por estelionato. Embora  fosse mais um personagem no mundo  do sobrenatural e das mandingas, Rosa  chocou  por  avançar  num  território proibido na sociedade  escravista:  o do sexo. Ele era o negro  que possuía  sexualmente  brancas,  mulatas  e negras. Despertava paixões e alisava  canelas,  pernas  e braços  femininos,  ambicionados lugares  de desejo masculino, para “curá-los”.

Em plena  campanha abolicionista, Juca  Rosa  era  o ex-escravo que enfeitiçava iaiás com carícias. Sua magia, mas sobretudo seu poder sexual,  não  podia  ficar sem castigo  exemplar.  Foi libertado após seis anos de prisão, a 26 de julho de 1877. – Mary del Priore. (“Do Outro Lado – A História do Sobrenatural e do Espiritismo”, Editora Planeta).

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“Bruxa e Mandrágora”, de Henry Fuseli. Tradições europeias, rituais africanos e indígenas, e catolicismo: a feitiçaria nas terras brasileiras.

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