Será que queremos demais?

Publicado em 4 de agosto de 2014 por - Feminismo

A sexualidade e o amor têm cronologias próprias, cronologias que escapam, aparentemente, aos fatos políticos e econômicos. Impossível contar a sua história à luz dos temas que habitualmente enchem os livros sobre história do Brasil. Dentro, contudo, das transformações pelas quais passou a sociedade brasileira poderíamos avançar o seguinte: o que se assistiu ao longo dos tempos, foi uma longa evolução que levou da proibição do prazer ao direito ao prazer. Fomos dos manuais de confessor, que tudo interditavam aos casamentos arranjados, policiados, acompanhados, passo a passo por familiares zelosos. E destes, ao impacto das revoluções que ao final dos anos 60 exportaram mundo afora lemas do tipo “Ereção, insurreição” ou “amai-vos uns sobre os outros”, sem contar o movimento hippie com o lema de “Paz e Amor”. Desde então, o amor e o prazer se tornaram obrigatórios. O interdito se inverteu. Impôs-se a ditadura do orgasmo forçado. O erotismo entrou no território da proeza e o prazer tão longamente reprimido tornou-se prioridade absoluta, quase que esmagando o casamento e o sentimento. Passou-se do afrodisíaco à base de plantas para o sexo com receita médica, graças ao Viagra. Passou-se da dominação patriarcal à liberação da mulher.

Entre nós, durante mais de quinhentos anos, os casamentos não se faziam de acordo com a atração sexual recíproca. Eles mais se realizavam por interesses econômicos ou familiares. Entre os mais pobres, o matrimônio ou a ligação consensual era uma forma de organizar o trabalho agrário. Não há dúvidas, de que o labor incessante e árduo não deixasse muito espaço para a paixão sexual. Sabe-se que entre casais, as formas de afeição física tradicional – beijos e carícias – eram raridade. Para os homens, contudo, as chances de manter ligações extra-conjugais eram muitas

Há séculos atrás, o chamado amor romântico, nascido com os trovadores medievais fundou a concepção de uma união mística entre os amantes. A idealização temporária, típica do amor-paixão, se juntou ao apego mais duradouro do objeto de amor. O amor romântico que começa a exercer sua influência a partir de meados do século XIX, se inspirou de ideais deste tipo e incorporou elementos do amor-paixão. Não foi à toa, lembram especialistas, que o nascimento do amor romântico coincide com a aparição do romance: ambos tem em comum uma nova forma de narrativa. Aquela em que duas pessoas são a alma da história, sem referência a processos sociais que existam em torno delas.

Na base do amor romântico, associava-se pela primeira vez amor e liberdade, como coisas desejáveis. O leitor há de lembrar que os trovadores cantavam também as possibilidades de libertação do amor-paixão, do amor louco; mas só  no sentido de que ele quebrava as rotinas, invertia os deveres. Já as ideias contidas no amor romântico, ao contrário, apontam os laços entre a liberdade e a realização pessoal. Esta mudança se instala, junto com outras: a modernização e a urbanização do país. A reorganização das atividades cotidianas, ocasionou uma reorganização profunda da vida emocional que ainda está por ser estudada. Ambas, contudo, ajudaram a sepultar, devagarzinho, antigas tradições referentes à escolha dos pares e às formas de dizer o amor.

Mas por trás da noção libertadora, os sociólogos revelam que hoje, se acumulam as vítimas, os perdedores. A liberdade amorosa tem contrapartidas: a responsabilidade e a solidão. E exatamente porque se colhem os frutos desta última, compreende-se, hoje, melhor que o passado não foi só feito de trevas. A tradição não é apenas, como querem seus críticos, opressiva, sufocante e despótica. Ela funciona como uma barreira útil para a comunidade; através dela se entende que a família, a criança e a procriação funcionem e se perpetuem como fonte de profunda emoção.

O resultado desta longa caminhada? Especialistas afirmam que hoje queremos tudo ao mesmo tempo: o amor, a segurança, a fidelidade absoluta, a monogamia e as vertigens da liberdade. Fundado exclusivamente no sentimento que sobrou do amor romântico, o sentimento mais frágil que existe, o casal está condenado à brevidade  à crise. Mais. A liberdade sexual é um fardo, para os mais jovens. Muitos deles, têm nostalgia da velha linguagem do amor, feita de prudência, sabedoria e melancolia, tal como viveram seus avós. Hoje, a loucura é desejar um amor permanente, com toda a intensidade, sem nuvens ou tempestades. Numa sociedade de consumo, o amor está supervalorizado. O sexo tornou-se uma nova teologia. Só se fala nisso e se fala mal, com vulgaridade. Sabemos, depois de tudo, que o amor não é ideal, que ele traz consigo a dependência, a rejeição, a servidão, o sacrifício e a transfiguração.  Resumindo: existe um grande contraste entre o discurso sobre o amor e a realidade de vida dos amantes. O resultado? Escreve-se cada vez mais sobre a banalização da sexualidade e o desencantamento dos corações enquanto o amor segue uma coisa sutil e importante que continua a fazer sonhar, e muito, muitos homens e mulheres.- Mary del Priore.

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Mulheres dos anos 50: uma longa caminhada até a revolução sexual. 

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