Ser uma mulher “rodada” ou não?

Publicado em 18 de dezembro de 2014 por - temas atuais

Existem assuntos sobre os quais eu não gostaria de escrever. Queria que fossem apenas ideias idiotas que se dissipassem devido à sua insignificância e total falta de sentido. Essa história do rapaz que postou nas redes sociais um cartaz dizendo que tinha direito de não querer uma mulher “rodada” é um desses assuntos. Gostaria que estivéssemos em um estágio de civilização em que isso seria apenas uma frase infeliz, uma bobagem.

O caso, entretanto, virou polêmica: imediatamente muitos homens aderiram ao “movimento” e, pior, houve mulheres que apoiaram a ideia. Do outro lado, as feministas e defensoras dos direitos femininos resolveram adotar a bandeira do “sou rodada, e com orgulho”. Para muitas, essa seria uma forma de reforçar a liberdade sexual das mulheres. O tema rendeu uma série de textos e manifestações bem humoradas, muitas delas ridicularizando a história. Mas existem também as teorias sérias…Tive o desprazer de ler alguns artigos “ensinando” os homens a se proteger das mulheres “rodadas e desesperadas para não ficarem encalhadas” ou bobagens parecidas. Machismo, grosseria e um total desconhecimento das relações humanas, na minha opinião.

Agora, o que chama a atenção são duas coisas. A primeira é que ainda existam tantas pessoas, inclusive do sexo feminino, repetindo esse tipo de discurso que separa as mulheres entre as que são “para casar” e aquelas “para se divertir”. Que preguiça, estamos em pleno século XXI! Outra questão, que talvez seja mais preocupante, é que a vida sexual das mulheres continue a ser o aspecto mais relevante na hora de alguém opinar sobre seu caráter. Afinal, sejamos sinceros, é melhor ou pior ser “rodada”?  A trajetória de cada um depende de tantos fatores, tantas circunstâncias…Ter mais ou menos experiência sexual faz de alguém mais independente ou não, mais feliz ou não, mais respeitada ou não?

Concordo com Mary del Priore, quando ela afirma que o fato de “dar ou não dar” não deve ser a medida das conquistas femininas. Afinal, o importante é ter liberdade de escolha. O fato de fazermos sexo com vários parceiros não significa que somos liberadas, penso eu. O que nos torna realmente independentes é quando podemos decidir o que fazer e com quem fazer, sem pressões. Não é uma questão de quantidade. Podemos ter um parceiro ou milhares deles, o que importa é que nós decidamos assim, sem ter que interpretar um papel que nos é imposto.

Segundo Mary, a brasileira continua a construir sua identidade através do olhar do homem: do macho ou do príncipe. “É ele quem escolhe a liberta ou a libertina. A pergunta que fica é: quando vamos ser nós mesmas, sem pensar em como ou quanto os homens nos desejam? Sem ter que escolher entre ser santa ou p…?”. Ainda temos um longo caminho a percorrer, mas de uma coisa temos certeza, não é a o número de parceiros que nos define. Somos muito mais do que isso.

E para finalizar: dizemos NÃO a homens que classificam as mulheres como “rodadas” ou não. Esses indivíduos deveriam se dedicar a dar dicas para quem quer comprar um carro, porque de nós, eles não entendem nada…

– Márcia Pinna Raspanti.

bailarinasdegas

As bailarinas de Degas: rodopios no palco.

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9 Comentários

  1. JONAS disse:

    O que divide os homens e mulheres são os movimentos machistas e feministas, fato.
    A pessoa ser rodada serve pra ambos os sexos, homem e mulher.
    O que precisa ser respeitado é o direito de escolha de cada pessoa, se um homem, ou uma mulher, tem por valores próprios não priorizar o sexo e sim outras coisas muito mais importantes em um relacionamento, não buscando apenas o prazer a frente de tudo, e opta por não sair com vários parceiros e sendo promíscuo, esta pessoa tem o total direito de querer se relacionar com pessoas com os mesmos valores. Simples assim.
    De resto, ou você é machista ou feminista.

  2. Ivan Zagalo disse:

    Deixem de ser parcias…
    As mulheres são livres.
    Os homens também.
    Uma mulher tem o direito de dar para quem quizer quantas vezes quizer…
    Um homem tem o direito de dizer não a esta mesma mulher, por preferir uma que não tenha dado para o time do bairro inteiro…
    Escolhas são escolhas

    • marcia disse:

      Oi, Ivan. Ninguém falou que as pessoas não têm direito a escolha. Um homem pode não querer uma mulher porque ela “deu para o time do bairro”. E uma mulher tem direito de não querer um homem por ele ser preconceituoso, machista e retrógrado.

      • JONAS disse:

        Deixem de ser feministas e machistas.
        Se a pessoa optar por ter vários parceiros, o problema é desta pessoa, sendo homem ou mulher.
        É inaceitável pensar que quem não concorde ou tenha valores diferentes desta pessoa, seja obrigado a compactuar com ela.
        Colhemos o que plantamos, simples assim.
        Faça o que quiser e não esquece que as consequências são inevitáveis.
        Eu, falando por mim, não sairia como uma mulher que teve muitos parceiros, pelo simples fato de não fazer o mesmo.
        Prezo pela qualidade e não quantidade.
        Cada um na sua onda.

  3. Sandra Sant'Ana disse:

    o texto é muito sensato. Homem que classifica a mulher dessa forma é engraçado e fora da realidade. Sexo é algo muito bom e temos o direito de escolher com quem e quando fazer. Acredito que liberdade é ser feliz com nossas escolhas!

  4. Denise Ehlers disse:

    O que faria este homem, se descobrisse que sua mãe, foi uma mulher “rodada”?
    Concordo muito com o que vc disse sobre, ser nossa a opção de ter um único ou vários parceiros, temos que ter responsabilidade com nossas atitudes e escolhas…
    e ensinar os homens a respeitarem as mulheres tambem deveria ser nossa obrigação, o problema é que nós mesmas discriminamos as outras…

  5. Sílvia Luiza Lakatos Varuzza disse:

    Excelente. Este texto me representa.

  6. Ótima análise.Parabéns pelo texto

  7. mauro disse:

    Excelente texto, parabéns!!!

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