Ser professor no Brasil: as mulheres e o magistério

Publicado em 15 de outubro de 2016 por - artigos

           Por Márcia Pinna Raspanti.

        A educação sempre foi negligenciada no Brasil. Somente em 1808, com a vinda da família real, é que foram estabelecidas as primeiras instituições de ensino superior, as escolas médicas na Bahia e no Rio de Janeiro. Em 1912, surgiria a primeira universidade brasileira, no Estado do Paraná, que durou somente três anos. Apenas em 1920, foi criada a Universidade do Rio de Janeiro, hoje Universidade Federal do Rio de Janeiro. Quanto ao ensino básico, o cenário não era muito diferente: em 1827, foi lançada a lei que determinava o estabelecimento das “escolas de primeiras letras”nas cidades, vilas e povoados de todo o Império. Mas a legislação ficou bem distante da realidade, sendo fundadas algumas poucas instituições. Se a educação era precária para os meninos, em relação às meninas, então, o descaso era maior. Elas aprendiam as primeiras letras (as que conseguiam frequentar a escola), noções de matemática e “prendas domésticas.”

         As primeiras escolas normais para formação de docentes foram criadas, em meados do século XIX, para tentar minimizar os problemas relativos à educação no Brasil. Melhorar a formação dos futuros mestres era uma necessidade. Ambos os sexos podiam frequentar estas instituições, mas moças e rapazes deveriam estudar em classes ou mesmo escolas separadas. A atividade docente havia sido iniciada por homens, ainda nos tempos coloniais, principalmente pelos jesuítas. “Agora, no entanto, as mulheres eram também necessárias e as classes de meninas deveriam ser regidas por ‘senhoras honestas’. Ao serem criadas as escolas normais, a pretensão era formar professores e professoras que pudessem atender a um esperado aumento na demanda escolar. Mas tal objetivo não foi alcançado exatamente como se imaginava: pouco a pouco, os relatórios iam indicando que, curiosamente, as escolas normais estavam recebendo e formando mais mulheres que homens”, conta Guacira Lopes Louro, em “Mulheres na sala de aula” (História das Mulheres no Brasil, Ed. Contexto/Unesp).

          Segundo a autora, houve uma “feminização do magistério”, fenômeno também observado em outros países – fato provavelmente vinculado ao processo de urbanização e industrialização que ampliava as oportunidades de trabalho para os homens. É importante ressaltar que se tornar professora era uma das poucas opções “decentes” para as mulheres que queriam ou precisavam trabalhar fora, no início do século XX. Entretanto, acreditava-se que a função da mulher era ser mãe e esposa. “A professora solteirona era de poucos sorrisos. Sua afetividade ficava escondida. Severidade e secura, óculos, coque, roupas escuras, pelos no rosto: as caricaturas dos jornais as representavam assim”, destaca Mary del Priore, em “Matar para não morrer”.

         Percebemos que, apesar de serem respeitadas pela sociedade, as educadoras eram vistas com preconceito. Afinal, lugar de mulher era em casa, cuidando dos filhos e do marido. Se ela não estava fazendo isso, era porque havia falhado, de alguma forma, na missão de ser mulher. O magistério era visto como uma atividade em que as mulheres poderiam exercer suas qualidades “naturais”, cuidando, educando, sendo amorosas ou severas, quando assim fosse necessário. Não tinham sua família, porém, poderiam ser úteis, tomando conta dos filhos de outras.

          Guacira Lopes Louro destaca que, a identificação da mulher com a atividade docente, que hoje parece a muitos tão natural, era alvo de discussões, disputas e polêmicas. Para alguns parecia uma completa insensatez entregar às mulheres usualmente despreparadas, portadoras de cérebros “pouco desenvolvidos” pelo seu “desuso” a educação das crianças. “Outras vozes surgiam para argumentar na direção oposta. Afirmavam que as mulheres tinham, ‘por natureza’, uma inclinação para o trato com as crianças, que elas eram as primeiras e ‘naturais educadoras’, portanto nada mais adequado do que lhes confiar a educação escolar dos pequenos. Se o destino primordial da mulher era a maternidade, bastaria pensar que o magistério representava, de certa forma, ‘a extensão da maternidade’, cada aluno ou aluna vistos como um filho ou uma filha ’espiritual’. O argumento parecia perfeito: a docência não subverteria a função feminina fundamental, ao contrário, poderia ampliá-la ou sublimá-la”.

          Mesmo enfrentando resistência e sendo alvo de preconceitos, as mulheres acabaram por dominar o magistério, tornando-se maioria nas escolas normais e ocupando cargos de diretoria. As educadoras que se destacavam representavam um perigo à sociedade tradicional, pois, poderiam ser vistas como modelos pelas alunas, subvertendo assim, a imagem ideal da mulher casada e mãe de família. “Regulamentos escolares mais antigos buscavam, de forma talvez mais evidente, controlar as relações entre estudantes e professoras / professores e dirigentes”, lembra Guacira.

          Como exemplo, a autora cita o regulamento do Instituto de Educação de Porto Alegre, de 1929, que proibia que professores ou professoras “tratassem em aula de assunto alheio ao trabalho da disciplina”, bem como que “conversassem com alunos nos intervalos das aulas”. Penas disciplinares eram aplicadas a quem demonstrasse “falta de decoro devido entre os sexos”. As penalidades – que podiam chegar até a expulsão do aluno ou aluna — também eram previstas para os professores e professoras, quando esses infringissem o regulamento ou se tornassem “prejudiciais ao ensino”.

          Havia um controle muito grande em relação às estudantes e às professoras. “A normatização de estudantes e mestres e mestras fazia-se ainda por uma série de outros dispositivos, como os exames públicos, as premiações e as notas de aplicação. Fazia-se nas solenidades e rituais, na obediência a superiores, na observância da pontualidade, da assiduidade, da regularidade e da ordem. Construía-se uma estética e uma ética. Uniformes sóbrios, avessos à moda, escondiam os corpos das jovens, tornando-os praticamente assexuados, e combinavam-se com a exigência de uma postura discreta e digna. O mesmo valia para as professoras: como modelos das estudantes, as mestras deveriam também se trajar de modo discreto e severo, manter maneiras recatadas e silenciar sobre sua vida pessoal. Ensinava-se um modo adequado de se portar e comportar, de falar, de escrever, de argumentar”, diz a autora.

          Não é surpreendente que houvesse tantos mecanismos para vigiar o comportamento feminino nas escolas, afinal, sendo responsáveis pela educação das crianças, a professoras tinham um grande poder de influência em suas mãos. Portanto, era de vital importância que se monitorasse cuidadosamente sua formação e, depois, sua atuação na vida profissional.  “Além de regras e práticas que buscaram produzir condutas morais que se consideravam apropriadas, também se lançou mão de estratégias repressivas, como a censura das leituras ou dos temas tratados em aula”, informa Guacira. Isso me faz lembrar a proposta “Escola sem partido”, que busca resgatar esse controle sobre os educadores.

           Não era fácil ser professora naqueles tempos. Hoje, apesar de o sexo feminino ter sido aceito no mundo da educação, as dificuldades são muitas e atingem ambos os gêneros: baixos salários, desvalorização da profissão, violência, falta de apoio do poder público. Enfim, fica a nossa homenagem aos professores tão maltratados em nossa sociedade. E em especial, àquelas mulheres que, mesmo sendo vistas com desconfiança e preconceito, não se intimidaram e persistiram na profissão.

  • Texto de Márcia Pinna Raspanti.

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Normalistas no final do século XIX (Arquivo: Colégio Caetano de Campos).

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