Ser ou não ser Simone de Beauvoir…

Publicado em 31 de outubro de 2015 por - Educação

Simpática? Não. Bonita, tampouco. Muitos dos seus livros se tornaram chatos de ler: A convidada é intragável. E O Segundo Sexo tem passagens nitidamente envelhecidas para não dizer pré-históricas. Já suas Memórias, são excelentes. Alguns autores anglo-saxões a acusam de colaboracionista junto com Sartre e Picasso. Comunista? Na época, era obrigatório. Seu lado feminino só se vê nas cartas de amor que escreveu a seu amante, o jornalista americano Nelson Algreen. Mas a frase universalista e bandeira do feminismo dos anos 60 e 70, ficou: “não se nasce mulher. Torna-se mulher”.

Num país onde a violência contra a mulher é cotidiana e horária, é importante lembrar que a brasileira tem que SE construir. De preferência contra o estereótipo da Mulher-Bunda, da Loura-Burra-da-Cerveja, da submissa, da santa ou da puta. E Simone de Beauvoir foi o ponto de partida dos estudos de gênero, abordagem que des-naturaliza o fato de se ser mulher. Que extrai a mulher do seu papel unicamente biológico. Que demonstra que não nascemos para lavar louça e passar o aspirador. Ela nos convida a pensar a situação da mulher no século XX e a esposar lutas por igualdade num país onde convivem o arcaísmo, o nepotismo, o machismo, e a contemporaneidade: a internet, o consumo, a democracia. Ela nos faz meditar sobre quanto falta conquistar para ter voz, independência, direitos e deveres, dignidade.

Outro aspecto a relevar na obra da escritora feminista é o fato de ela escrever sempre em primeiro pessoa. Esse “eu” é político. Ela se coloca, não se esconde atrás do “nós”. Esse “nós” majestático que a universidade inventou no século XIX! Nesse sentido, ela ousa ir à praça pública, dizer o que pensa. Como cidadã, como intelectual. E afirmar o que chamava de “a aventura de ser si mesma”.

O resultado do efeito Simone nas universidades é que hoje há milhões de estudos sobre condição feminina e gênero. Estudos que se dividem em duas linhagens: os “beauvoiristas” com posição mais universalista e interessados nas estruturas sociais que modelam o “ser mulher”. E os diferencialistas, que apostam nas especificidades e singularidades do gênero.

Pensar a violência contra a mulher, sobretudo entre jovens? Do meu ponto de vista, acertadíssimo. Foi pena o ENEM não ter pensado numa feminista brasileira. Em alguém que desde o início século XIX reivindica melhores condições de vida para suas conterrâneas. A importância de Nísia Floresta nessa constelação é única. Em 1832, aos 22 anos, ela traduziu do francês a obra Direitos das mulheres e injustiça dos homens em que advoga o direito à educação feminina, ao trabalho e às mulheres serem tratadas como seres inteligentes e merecedores de todo o respeito da sociedade. Bastava, – dizia ela – de viver enclausurada em preconceitos e de viver para obedecer e cumprir a vontade masculina! Em 1853, essa mulher fantástica, nascida no Rio Grande do Norte, na cidade de Papari, publicou o Opúsculo Humanitário, uma coleção de artigos sobre emancipação feminina através da educação e da reforma do sistema de ensino. Nada mais atual, quando o ensino está em crise, a sociedade mergulhada em problemas e a mulher em busca de papéis que a realizem e a ajudem a construir um presente melhor.- Texto de Mary del Priore.

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Simone de Beauvoir: uma obra de 1949 ainda choca parte dos brasileiros.

 

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16 Comentários

  1. Iracema Salgado disse:

    ENEM acertou em cheio!Simone é universal!!!

  2. Simone disse:

    Texto excelente!

  3. Marcia Caldas Vellozo Machado disse:

    Excelente artigo!! Parabéns. Tenho que confessar que foi Simone quem me abriu os olhos para minha condição de mulher.

  4. Lucas disse:

    Simone não era feia.

    • André disse:

      E também não é intragável!! E a palavra tragável está ligada a droga. Quer dizer não acho ela tragável nem intragável . Acho da hora!! A maior gênero do mundo…. Um nome,uma memória a se reverência.

  5. Itina disse:

    Texto machista quando busca a beleza! NÍSIA TEM SEU VALOR SABEMOS,MAS Simone de Beauvoir aborda de forma mais ampla e profunda o que é ser mulher. Viva Maria da Penha.

    • marcia disse:

      Machista? A autora simplesmente destacou que precisamos valorizar também as feministas brasileiras, como Nísia Floresta. Se isso for machismo…

      • Cássia Barreto disse:

        Concordo com vc, pois sou brasileira, não tão culta a ponto de conhecer Nísia Floresta. Agradeço a Mary, pela excelente informação, sou menos ignorante agora. É fato ser um dos problemas de grande parte do brasileiro , conhecer muito pouco da história e seus personagens, do seu próprio país, mas, todos já terem falado do sonho de conhecer a Disney, etc…
        Mary, descobrir VC, foi um grande prazer! Parabéns, pela maneira passa os seus conhecimentos, com muita clareza, com linguagem acessível aqueles que desejam aprender …

        • Elane Vasconcellos disse:

          Por muito tempo, vivi compartilhando uma frase que traduz o homem em um ser subdesenvolvido. Dizia: O sexo masculino não é desenvolvido em seus sentimentos e temos que cuidar deles como eternas crianças.
          Já as mulheres colocam suas crias em baixo das asas e lutam por elas como se fossem verdadeiros leões.

          As duas afirmações são verdadeiras, e as mulheres, que antes tinha outra forma de matar apenas um leao, agora mata vários.
          Um deles é a dupla jornada.
          antes ela educava suas crianças. Hoje eles não tem educação e não falo so dos filhos das mulheres palpérrimas, mas tb os meninos de classe média. Raras são as meninas que ainda brincam com bonecas aos dez anos. O celular e televisão com todo tipo de conteúdo está bem mais atrativo.
          Alem de tantos outros problemas somos obrigadas a ser masculinizadas, homossexualizadas, multiculturadas, e na briga profissional, ombro a ombro com o sexo que tem a psique forte!

          Hoje, os homens estão sendo inúteis donas de casa qdo as mulheres que se submetem a qualquer tipo de trabalho se endurece na rua, e eles se desdobram para ser mulheres em seus sentimentos para cuidar de crianças como a natureza feminina.

          As pessoas que não são LGBt poderiam só se dar o direito de pensar, … não de viver, mas de passear nessa realidade de que suas vidas poderiam ser da forma que a natureza construiu? Pq nem todas precisam escolher viver da forma que estão ditando, mas da forma que elas poderiam estar mais confortáveis, se violentando menos, trabalhando igualmente aos seus maridos, só que em casa ou parte do dia em casa, dando suporte aos seus filhos, que é o que quem tem suporte ($$$) já o faz!

          Posso não estar traduzindo de uma forma intelectual mas estou colocando a ideia a favor da mulher, de forma prática, porque inventar uma forma nova que é a favor do sistem produtivo, e um complô contra o ser humano!
          Pense bem nisso tudo!
          Eu também achava que feminismo era bacana, mas cheguei a conclusão de que que é um bacanal !

          Grata com carinho e respeito!

          • marcia disse:

            Olá, Elane. Infelizmente, percebemos que, em pleno século XXI, o feminismo ainda é visto como uma “ideologia” perigosa. Nessa visão distorcida, as feministas estariam lutando contra os homens, o que é completamente equivocado. O feminismo quer desconstruir a cultura machista para que homens e mulheres, lado a lado, possam fazer as suas escolhas. Atualmente, a maioria das mulheres precisa reforçar o orçamento doméstico, trabalhando fora. Portanto, é preciso dividir, de forma igualitária, as tarefas domésticas, para não sobrecarregar ninguém. Você está sendo preconceituosa quando diz que os homens são “inúteis” em casa ou que são “eternas crianças”. As famílias passam por uma reestruturação, surgem novas formas de se criar os filhos o que não é necessariamente bom ou ruim. Temos a tendência a “romantizar” o passado, idealizando a família de “antigamente” como perfeita. Mas sabemos que não era bem assim. Hoje, conheço mulheres que trabalham fora e dividem a administração da casa com os companheiros, conheço outras que optaram por parar de trabalhar para cuidar dos filhos (por razões econômicas ou pessoais), e também alguns casais que decidiram que o homem ficaria em casa e mulher sairia para trabalhar. Por que não? O importante é poder analisar e tomar a decisão que seja melhor para a família.
            Quanto às pessoas “não LGBT”, como você denominou, tenha em mente que elas representam a maioria, que seu modo de vida é o predominante na sociedade. Agora, por que aqueles que vivem de forma diferente não podem fazê-lo? Dizer que as minorias estão “ditando” as normas de comportamento é uma fantasia. Recomendo que você deixe as ideias pré-concebidas de lado e comece a acompanhar melhor as propostas feministas, acredito quer você vai se surpreender.
            Aqui no nosso blog temos muitos textos e artigos sobre o assunto. Ficam algumas sugestões:

            http://historiahoje.com/?p=6807
            http://historiahoje.com/?p=3740
            http://historiahoje.com/?p=6984
            http://historiahoje.com/?p=6853

            Obrigada!

    • Samantha disse:

      Cita a beleza? A Simone de Beauvoir é a voz do gênero.Sim foi excelente escolha pra colocar 7 milhões pra pensar sobre a violência contra a mulher. A Nísia Floresta deixa pra próxima… Geledés. Digite Geledés no Google. Mary discordo de sua opinião sobre a francesa.

      • marcia disse:

        Oi, Samantha. Sim, Simone de Beauvoir foi uma excelente escolha, sem dúvida. Mas vamos esperar (e exigir) que isso ocorra mais vezes, que outras feministas sejam citadas em muitas outras provas e também nas salas de aula. A autora sugeriu um bom nome, Nísia Floresta. As feministas brasileiras ainda são pouco conhecidas. Por que falar (ainda que muito rapidamente) da beleza de Beauvoir? Não sei se você tem acompanhado as críticas ao fato da francesa ter sido incluída no Enem, mas a maioria dos comentários raivosos ataca a sua vida pessoal, falam de sua aparência, sua relação com os homens, sua personalidade controversa. Mary começou o texto de forma inteligente, a meu ver, mostrando que isso tudo não tem relevância alguma, que sua presença no Enem se justifica pela importância de sua obra e por sua atuação. “Ela nos convida a pensar a situação da mulher no século XX e a esposar lutas por igualdade”. “O resultado do efeito Simone nas universidades é que hoje há milhões de estudos sobre condição feminina e gênero”.
        Já falamos muito aqui no blog sobre a tática de tentar desqualificar o feminismo, ridicularizando as feministas. Segue a referência de um texto que aborda o assunto:
        http://historiahoje.com/wp-admin/post.php?post=4801&action=edit
        Obrigada pelos seus comentários.

  6. Texto excelente realmente quem elaborar as provas do ENEM, deveria pensar mais um pouco nas personalidades brasileiras, principalmente as femininas.

  7. Mariane Khayat disse:

    Professora Mary seu texto é ótimo!!! Excelente lembrança de Nísia Floresta. Parabéns!

  8. Francisco disse:

    Falar é fácil!!!!Difícil é ser Simone de Beauvoir!

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