Ser imperatriz e mãe

Publicado em 10 de abril de 2014 por - História do Brasil

A primeira imperatriz do Brasil, Leopoldina da Áustria, primeira mulher de dom Pedro I, deixou comovente relato do que significava ser mãe nas primeiras décadas do século XIX. Casada durante nove anos com o jovem imperador, teve nove gestações, e deixou em cartas impressões sobre os partos e a relação com os filhos.

Seis sobreviveram à mãe. Um último aborto natural de um feto masculino de três meses agravou seu estado de saúde, levando-a à morte aos 29 anos de idade. O marido se gabava: “nove anos estive casado, nove filhos tive”. A fecundidade de uma cabeça coroada assegurava a continuidade do trono.Ao escrever ao pai, em agosto de 1818, Leopoldina anunciava a primeira gravidez, revelando sua expectativa de que a criança preenchesse o vazio de sua vida no Brasil: seria “o consolo, o apoio, a alegria e a mais valiosa ocupação”, dizia.

Na época, a gravidez era considerada uma enfermidade, e a grávida, uma paciente. Era cercada de pessoas, saturada de conselhos e tratada como doente. A futura mãe tentava compreender seu estado, assim como a forma do ventre, as náuseas, os movimentos da criança, por meio de certas tradições. A espera era dividida entre a preocupação e a ansiedade, consolidando-se no mal-estar da expectativa e no medo do sofrimento. Tabus apartavam as mulheres de todo modo de atividade sexual e assimilavam o intercurso durante a gravidez a um sacrilégio. Leopoldina preparava uma vida; sua pessoa tinha algo de sagrado: “realmente é uma sensação singular e divina, a de ser mãe”, ela escrevia. Queria-o ser “muitas vezes”, anotava.

Como qualquer gestante, tomou cuidados. Durante a gravidez, não montou a cavalo e limitou-se a passear a pé ou “de carro aberto às primeiras horas da manhã”. No Palácio de São Cristóvão, no Rio de Janeiro, edificou-se um quarto para o futuro infante, decorado com móveis europeus. A sogra, rainha Carlota Joaquina, enviou-lhe um enxoval novo.

Na cidade, no início de fevereiro, tiveram início as preces para o “feliz sucesso” da princesa. A população participava da gravidez real. À medida que a “prenhez” avançava, multiplicavam-se orações e missas, que se arrastavam por um dia inteiro. O parto foi longo; demorou seis horas. A filha “tinha a cabeça grande e estava sobre a perna”. A velha cadeira onde dera à luz era desconfortável – na Europa, já se paria sobre a cama. Um cirurgião inábil a dilacerou horrivelmente. O leite logo secou.

Forte e grande como uma criança de três meses, a princesa Maria da Glória de Bragança nasceu no dia 4 de abril de 1819, loura e de olhos azuis, como a mãe. Nas cortes europeias, costumava-se cobrir o sexo do nascituro e mostrá-lo ao pai em uma bandeja de prata, antes de entregá-lo à parturiente. Numerosos assistentes acompanhavam o desenrolar dos fatos nos quartos contíguos. Depois da apresentação da criança, festejava-se ruidosamente o final da rude prova, que deixava mãe e médico exaustos. Para Leopoldina, ela seria a “minha Maria”.

Em fevereiro de 1821, dias depois do juramento de dom João VI à Constituição, nascia o príncipe herdeiro João Carlos, “grande e gordo”, segundo a mãe. Em carta, Leopoldina afirmava: “Garanto-lhe que só um milagre pode explicar a força e perfeita saúde de meu filho, que acaba de nascer em um momento em que estive preocupada não só com os intensos desgostos provocados pelos acontecimentos políticos, mas também com o desespero no qual estive mergulhada por ter sido quase forçada a separar-me de um esposo que adoro.

Mais uma vez, sofreu um parto difícil. O menino só saiu até a metade do corpo sem ajuda, pois o braço direito estava à frente da cabeça. Três dias depois, Leopoldina teve uma violenta infecção, seguida de convulsões. Era jovem e se curou. Debruçada sobre o menino, cobria-o de cuidados. Mas a linda criança não durou muito. Ela já estava grávida de novo quando perdeu o filho. Vivia-se, então, a tensão que antecedeu e preparou o movimento de independência do Brasil.

Dizendo-se melancólica e consternada, escreveu à tia para dar maiores detalhes: “Tive a infelicidade de perder meu filho muito amado no momento em que ele começava por suas graças infantis a fazer minha alegria. Sendo forçada, cercada pela guerra civil e sentimentos de revolução e insubordinação, a fugir com meus dois filhos para doze léguas daqui, em um dia dos mais quentes e abrasados, e o pobre pequeno, que tinha uma constituição de sistema nervoso frágil, apanhou uma espécie de inflamação no fígado, que foi mal curada, ou antes, desconhecida, e morreu em quinze dias de sofrimentos contínuos em ataques epiléticos de 28 horas. Eu lhe asseguro, querida tia, que não tive em minha vida uma dor mais profunda e que somente a religião e o tempo poderão consolar”.

Em março de 1822, nasceu a princesa Januária, que receberia nome escolhido pelo pai em homenagem à cidade em que moravam, o Rio de Janeiro. “Deus tirou-me João e deu-me outra filha”, abriu-se com José Bonifácio. Leopoldina deu à luz de pé, agarrada ao pescoço do marido. E, se o médico não estivesse presente, “o assoalho teria sido o berço”, registrou. Havia se livrado de sua “carga à maneira dos animais selvagens do mato”, confessou.

No final da década de 1824, a imperatriz chegou a consultar uma parteira francesa antes de engravidar. Sabia que precisava dar um herdeiro ao trono. A mulher lhe teria ensinado um “segredo” para conceber machos. Ela esperava, assim, atenuar a atenção que o marido dava à amante, Domitila, a Marquesa de Santos. A 2 de dezembro de 1825, às duas e meia da manhã, nasceu o futuro Pedro II: “Um filho que correspondeu a todos os meus anseios”.

O parto demorou cinco horas, e o sétimo filho da imperatriz nasceu com aparência vigorosa, medindo 47 centímetros. Houve muita celebração na capital. As casas iluminaram-se durante quatro dias. No batizado, em 9 de dezembro, foi executado um te-déum de autoria de Pedro I. Em 2 de janeiro de 1826, pediu-se para o menino a proteção de Nossa Senhora da Glória, na Igreja do Outeiro.

Cinco dias depois do nascimento do filho legítimo, via a luz, em Mata-Porcos, Pedro de Alcântara Brasileiro. Dom Pedro revezou-se entre as duas mães, conforme as conveniências. Estava na casa de Domitila (a Marquesa de Santos) quando esta sentiu as primeiras dores. O imperador recebeu um aviso da Quinta e rumou para lá, onde assistiu ao parto de Leopoldina. Fez a apresentação do filho à corte. E em menos de uma semana, voltou para a amante, onde encontrou o outro filho já nascido.

-Mary del Priore.

 

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2 Comentários

  1. Rychard Rodrigues de Oliveira disse:

    Como estudante de história para mim é um relato muito interessante sobre a família real. De como foi o nascimento do sucessor de Dom Pedro 1.

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