Senhoras, roceiras e escravas

Publicado em 7 de março de 2014 por - História do Brasil

Sob o comando de senhoras de engenho, ou lavradoras de cana e roceiras, estavam as escravas. Elas também interagiam no funcionamento do engenho.O cronista Antonil (em “Cultura e Opulência no Brasil”, de 1711) foi pioneiro em observar a participação feminina em meio às perigosas engrenagens que moíam as canas. A calcanha, segundo ele, era a escrava que tinha várias funções. Vigiava o recipiente em que se coava o “mel”; varria a casa das caldeiras ou dos cobres, areava-os com limão e cinzas; acendia as famintas candeias.

A um chamado do feitor, diz o cronista, as escravas, recebiam a cana para “vir a meter entre os eixos e tirar o bagaço”. O cuidado era para que as cativas não dormissem, “pelo perigo que há de ficarem presas e moídas”. Cabia-lhes moer as canas, metendo-as, “limpas da palha e da lama […] e depois delas passadas, torna-se de outra parte a passar o bagaço para que se esprema mais e, de todo o sumo, ou licor que conserva. E este caldo cai da moenda em uma cocha de pau que está deitada debaixo dos aguilhões, e daí corre para uma bica” e desta, de um recipiente a outro, até a “guinda, aonde se há de alimpar”.

E especifica: “As escravas de que necessita a moenda, ao menos são sete ou oito, a saber: três para trazer cana, uma para a meter, outra para passar o bagaço, outra para consertar e acender as candeias, que na moenda são cinco, e para alimpar o cocho do caldo, a quem chamam cocheira ou calumbá, e os aguilhões da moenda e refresca-los com água para que não ardam […] como também para lavar a cana enlodada, para botar fora o bagaço ou no rio ou na bagaceira, para se queimar a seu tempo”.

Segundo Antonil, as mulheres usavam de foice e enxada, como os homens, na roça. De junho a setembro labutavam dia e noite, revezando-se de quatro em quatro horas para fabricação do açúcar. Anos mais tarde, Maria Graham viu voltar tais escravas de seus terrenos de cultivo, localizadas na fazenda, “com sua cestinha carregada de alguma coisa própria em que o senhor via que não tinha parte”. Grávidas não faziam serviço no eito e não se aplicavam, segundo Charles Ribeirolles, jornalista francês, a outro mister que o das atividades da casa. Enquanto amamentassem, eram dispensadas do serviço pesado e seus filhos confiados, logo que aprendessem a andar, a velhas negras. Escravas lavavam, passavam, cozinhavam, arrumavam, mas, documentos as revelam, igualmente, como exímias parteiras, tintureiras, hortelãs, aprendizes de “cozer”, e até como carrapateiras, entre proprietários de cavalos e mulas ou “amas de cegos e crianças”, cuidando de velhos e miúdos. Não faltavam as oleiras, conhecedoras de velhas tradições africanas, bem desenvolvidas aqui, graças ao barro que a mesma Maria Graham observara como matriz de tanta cerâmica de louça vermelha.

Já as roceiras plantavam cana com a ajuda ou não dos escravos do senhor ou da senhora de engenho. Tinham que zelar pelo canavial, limpando-o de duas a quatro vezes por ano, evitando que fosse abafado por ervas daninhas. Na época da colheita, mandavam cortar a cana por sua gente e conduziam-na, em carros de boi para a moenda. Algumas moradoras destas engenhocas cobertas de palha tinham suas próprias moendas que botavam para funcionar com bom tempo. Usavam filhos e parentes no trabalho de plantio não só da cana, mas do feijão e milho que cresciam entremeados ao canedo.

Longe de uma vida em cor de rosa, problemas não faltavam. Senhoras de engenho tiveram que enfrentar tensões entre escravos e seus desafetos ou entre escravos e elas próprias. Às elas cabia proteger agricultores, agregados e feitores que trabalhassem em suas terras ou com suas canas, como se viu fazer a viúva de Manoel Ferreira dos Santos que teve o seu feitor morto com facadas pelo peito e pescoço. Elas tinham que acalmar alaridos e bebedeiras de escravos e manobrar, habilmente, contra a sua recusa de aceitá-las quando se tratava de escravo novo. Tinham também que contornar inaptidões que só eram descobertas depois da compra. Maria Teresa da Rocha, por exemplo, ao mandar certo José, de nação Angola ou Benguela, rachar lenha, este “se desculpou, dizendo não poder”. Confessou-lhe sofrer de “moléstia no peito, falta de força e Gota Coral”. Outras senhoras anunciavam nos jornais seus escravos fugidos: “Fugiu da fazenda de D. Anna Moreira da Costa Belas, há dois meses, o seu escravo Manoel, crioulo”.

Não faltaram as que soubessem usar a violência de seus escravos em benefício de seus assuntos internos ou negócios. A esposa de Manuel Leite, por exemplo, soube armar, com seus cativos, uma emboscada para um escravo de Custódio José Nunes, um certo Manoel, a fim de evitar que este viesse ver sua escrava Maria. Outras perderam ações movidas por ex-escravos, como foi o caso de certa Maria Teresa, processada por não pagar rendimento de um canavial que mandara moer, bem como o valor dos feijões e de sua soca. O desfecho da estória é que a senhora se viu obrigada a pagar com açúcar, a quantia referente à moagem do canavial. Outras mais tiveram que defender seus escravos envolvidos em assassinatos. Um dos homens de certa Custódia, por exemplo, matara um feitor por este ter comido um porco de sua propriedade.

Se não faltavam tensões e conflitos que as mulheres, de engenhos ou plantações tiveram que administrar, suas escravas, por sua vez, podiam ser pivôs e testemunhas de crimes e violências. Processos as mostram assassinadas, como certa Angélica que apareceu morta, com a orelha amputada e “ferimentos pelo rosto e os braços amarrados com cepos”. A razão, não se sabe. Como ela, muitas outras sofreram maus tratos ou foram estupradas e seviciadas. Outras cativas, por alguma razão deram o troco: a fazendeira Ana Joaquina Carneiro Pimenta foi sufocada por suas escravas Letícia, Querubina, Cecília e Virgínia, e outras tantas cativas participaram ativamente de levantes, como o que ocorreu em Vassouras em 1838. Mas, a zanga e braveza de muita Nhanã ou Nhãngana sobre os escravos, no mais das vezes não fazia medo aos moleques e nem temor aos trabalhadores. Segundo registros literários, eram “mulheres respeitadas e mesmo amadas pela sua gente”. Por isso não faltam exemplos de senhoras que recomendavam, em testamento, a liberdade de suas mucamas queridas.

Como se não bastassem tantos problemas, as lutas por terras opunham mulheres agricultoras a seus vizinhos e elas não mediam esforços em juntar a parentela para defender seus interesses. – Mary del Priore

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Plantação de cana-de açúcar.

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Moagem da cana, de Benedito Calixto.

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1 Comentário

  1. Celina disse:

    A vida era muito dura para todas.

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