Seios: nutrição, erotização e hipocrisia

Publicado em 5 de outubro de 2015 por - temas atuais

O prefeito Fernando Haddad sancionou, no mês passado, uma lei para garantir o direito ao aleitamento materno em qualquer estabelecimento de São Paulo. Quem proibir a mãe de amamentar seu filho em público pagará multa de R$ 500. Em caso de reincidência, o valor dobra. A lei detalha que  não precisa haver “área segregada” para amamentação. A questão é: precisamos de legislação para garantir que as mães possam alimentar seus filhos onde lhes for conveniente?

Parece que sim. Há registros de vários episódios em que mães foram convidadas a se retirar de estabelecimentos porque estavam amamentando em público. Aparentemente, isso pode constranger algumas pessoas.  O Brasil é um país realmente desconcertante: somos bombardeados incansavelmente com imagens de mulheres nuas (anúncios de TV, revistas, novelas, shows, internet, outdoors), nas praias andamos todos com pouquíssima roupa, somos o “país do Carnaval”. Ao mesmo tempo, um inocente seio parcialmente de fora, alimentando um bebê, é capaz de fazer corar tanta gente.

Na tradição cristã, nos conta Mary del Priore, o seio reservatório ajudou a combater o seio erótico. “Ele não podia corresponder a nenhuma tentação ou desejo. As Virgens do Leite, representadas com grandes decotes na escultura e na pintura no século XVIII, fecharam-se em golas abotoadas no XIX. De instrumento de sedução por trás de panos transparentes, os seios se tornaram instrumento de nutrição física e moral, de caridade e doação: aos filhos, ao marido, ao amante”.

No século XVIII, médicos e confessores viram no aleitamento um “dever”. A presença das amas de leite e o aleitamento artificial começavam a ser combatidos. O ápice deste debate ocorreu na metade do século XIX. As mães eram estimuladas a amamentar seus filhos, e a medicina as alertava para os perigos de fazer uso de das amas de leite. Além de proteger a saúde dos filhos, tal missão tinha outro papel social: prender a mulher no universo doméstico.

De modo gradativo, ao longo do século XX, a mulher se afastou da função de nutridora, devido à desvalorização da prática de amamentar pelos próprios profissionais de saúde. Na década de 1970, o tempo de aleitamento caiu a proporções menores que as conhecidas anteriormente, embora o aumento da desnutrição e da mortalidade infantil tenha despertado as autoridades sanitárias. A resposta veio na forma de políticas públicas para fortalecer o hábito da amamentação.  Várias campanhas tentavam mostrar às mulheres como o aleitamento materno era importante. Obstetras e pediatras passaram a orientar as mamães a insistir na amamentação de seus bebês.

Mesmo assim, apesar de estarmos conscientes da importância do aleitamento materno, muitos ainda reagem de maneira moralista à visão de uma criança sendo amamentada. É importante notar que há uma super erotização dos seios femininos, que estão “na moda” (!), como podemos comprovar pela grande quantidade de cirurgias plásticas para aumento das mamas, com a colocação de silicone. Nesse contexto, um ato absolutamente natural pode ser visto como ofensivo. Será que não está na hora de começarmos a repensar nossa relação com corpo e a nudez? Ou vamos insistir nessa esquizofrenia hipócrita? – Texto de Márcia Pinna Raspanti.  

Mae-Madonna-Litta (1)

“Madona Litta”, de Leonardo da Vinci.

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