Sedução e falsas promessas

Publicado em 8 de outubro de 2014 por - História do Brasil

Nos tempos coloniais, as reclamações das mulheres que tinham sido seduzidas e abandonadas revelam de que forma a exploração sexual se fazia, aparentemente, sem maiores consequências para os homens. Cientes, contudo, por meio dos sermões de domingo e do confessionário, do rigor com que o moralismo eclesiástico perseguia as infrações, as mulheres se vingavam, extraindo da mesma pregação moralista elementos para condenar seus companheiros de “brincos e tratos ilícitos” – nome que se dava às preliminares e às relações amorosas. Uma vez dados tais passos, as mulheres engravidadas invocavam, na medida de suas conveniências, valores como “virgindade roubada” ou “quebra de promessa de esponsais” para passar de um degrau ao outro: da sedução ao casamento. A Igreja então recompensava as “arrependidas” com processos eficientes e rápidos que garantiam seus objetivos institucionais: difundir o casamento.

Paraty, início do século XIX,“a ofendida Felicidade Maria” dá queixa na Justiça contra Joaquim Pacheco Malvão:

“Respondeu que o motivo da queixa foi em razão de ter o dito Joaquim Pacheco Malvão emprenhado a ela interrogada. Perguntado se era verdade, que o dito Joaquim Pacheco Malvão fora quem lhe fizera esse mal? Respondeu ser verdade que Joaquim Pacheco fora a única pessoa que isso lhe fizera. Perguntado se para isso fora forçada. Respondeu que não, apenas lhe prometera brincos, e cortes de vestidos. Perguntado mais se tem mais alguma queixa contra o dito Joaquim Pacheco. Respondeu que só tem queixa de ter o dito Joaquim Pacheco deflorado e emprenhado a ela interrogada, sendo ele único homem que a conheceu …”.

E conta uma testemunha: “que tem plena convicção ser o Réu quem ofendera a Autora, sendo certo que nunca presenciou a Autora conversar  com outro homem que não fosse o Réu (…) que na tarde em que encontrou a Autora e o Réu juntos ao pé do rio, ele testemunha vira em ocasião que a Autora estava tirando laranjas quando passara o Réu, e fazendo um aceno para a Autora esta o acompanhou para o rio onde fora buscar água (…) em uma ocasião haverá dois meses mais ou menos, indo ele testemunha na sua roça em a praia da Jabaquara cortando um pau vira passar a ofendida e logo o Réu, e dirigirem se para o mato e que ele testemunha presenciara e vira a ofendida e o Réu estarem no mato juntos e unidos um por cima do outro a fazerem movimento com o corpo, e que ele testemunha vendo este ato, voltou sem dar a perceber a ninguém. Disse mais que julga ter o Réu ofendido, e emprenhado a Autora (…) e que nunca viu a ofendida brincar ou conversar com outro homem que não fosse o Réu (…) que sendo a ofendida pessoa pobre, vai ao rio buscar água (…) Disse que em razão  de ser vizinho do queixoso sabe por ver, que o Réu fazia acenos com os olhos para a ofendida e esta lhe correspondia. Disse mais que por duas vezes indo ela testemunha a sua roça que fica perto de sua casa ai vira debaixo de um arvoredo … o Réu com a ofendida, unidos deitados, um por cima do outro, e fazendo movimento com o corpo. Disse mais que a ofendida dissera a ela testemunha que o Réu lhe havia prometido casamento, um corte de vestido e um par de brincos, e que se alguma coisa acontecesse o Réu lhe havia de amparar …”.

Singela, quase simplória esta cartografia de nossa sedução: uma promessa, um lugar tranquilo, mas, sem privacidade, a condição de pobreza dos amantes. Condição, diga-se, da majoritária população da Colônia, e na qual se fabricavam muitas famílias chefiadas por mulheres.

Longe de passar uma impressão de promiscuidade das classes subalternas, a confissão das “ofendidas” realça, bem ao contrário, que os amantes se submetiam a um verdadeiro código de sedução. Nada se fazia sem galanteios, presentes, visitas. Mais do que discutir o defloramento ou a gravidez, ao juiz elas recordam as cartas de amor, a frase apaixonada, a troca de presentes e mimos, as eternas promessas de casamento, enfim, contas de um rosário cuja cruz é um filho que não se quis. Ah, os infortúnios da virtude! Ser seduzida “com promessas de amor” e depois “levada de sua virgindade” era comum. Carinhos, afagos, “sinais amatórios” são alguns dos muitos signos do ritual de sedução encontrados nos relatos processuais. “Eu hei de casar com você” era capaz de prometer um pretendente, aparentemente, apaixonado para conseguir o seu intento.

A presença de rituais amorosos se refletia, também, nas prédicas da igreja. Os manuais de confissão são um bom retrato do que se permitia ou se proibia entre namorados e cotejados com os processos mostram as diferenças e semelhanças entre o que se dizia e o que se fazia. Referências a “retratos, prendas ou memórias de quem se ama lascivamente” ou sobre práticas de “recados”, “palavras torpes” e “jogos de abraços desonestos” tinham suas respostas nos processos. Neles, fica-se sabendo que as mulheres, como Felicidade Maria, além de brincos ou cortes de vestidos recebiam corações de ouro, fitas achamalotadas, coifas de cabeça, utensílios até de cozinha e para as mais simples, mesmo alimentos como “laranjas e palmitos”, tinham sentido de “dádiva amorosa”. As promessas de casamento selavam-se por meio de correspondência enamorada, na qual os amantes se chamavam “meu benzinho da minh’alma”, ou “meu coração” e prometiam viver e morrer juntos assinando-se como “o amante firme”. A sedução se fabrica, pois, com a palavra, o gesto e o escrito.

Diferentemente da metrópole, onde segundo os viajantes estrangeiros, os namorados conversavam dentro de coches e cadeirinhas, noite adentro na Praça do Rossio, os lugares do amor na Colônia eram bem outros. Entre nós, os encontros tinham lugar nos quintais, becos, roças, beiras de rios e adros de igrejas.  Segundo Ronaldo Vainfas, esta era uma Colônia de poucas cidades e casas devassadas. Entre nós as coisas se faziam pelos matos, “em cima das ervas”, especialmente no caso de relações proibidas. E o autor chama atenção para o grande paradoxo: um espaço por assim dizer, público, como era o mato ou a beira de um rio, podia ser mais apto à privacidade exigida por intimidades secretas do que as próprias casas de parede-meia ou cheia de frestas. – Mary del Priore.

costumes Rio- Rugendas

“Costumes do Rio de Janeiro”, de Rugendas (detalhe).

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