São Paulo: passado e futuro

Publicado em 25 de janeiro de 2014 por - História do Brasil

Aniversário da cidade de São Paulo: é hora de recordar! De 1820 a 1870, poucas mudanças. O pequeno burgo de casinhas brancas se aninhava na lombada de um pequeno morro, entre dois rios de águas escuras. No campo do Bexiga, caçavam-se patos veados e escravos fugidos. O clima, – segundo viajantes estrangeiros de passagem no século XIX – marcado por um frio saudável, contrastava com o calor tropical de outras regiões. Conta um deles, John Mawe que ao chegar a São Paulo, a população se aproximou, curiosa, da casa onde estava hospedado, para ver “como comia e bebia em inglês”. Chácaras como a dos Fagundes ou de D. Ana Machado abraçavam a cidade. No morro do Chá, o brigadeiro Francisco Xavier dos Santos cultivava as preciosas folhas da bebida que era então, mais comum, do que o café. Na Mooca, leões de louça, nos pilares dos portões de ferro, vigiavam os passantes. Em Pinheiros se escondiam negros fugidos e quilombos. No largo da Liberdade, então chamado da Forca, o povo acendia velas pela alma do Chaguinhas, executado em 1821 e considerado santo e mártir. Na frente dos oratórios públicos, beatos puxavam o terço. No de santo Antônio, era o mulato Lauriano. No de nossa senhora da Lapa, era nhá Bupi. Quando não rezavam, os paulistanos passavam o tempo jogando a bisca, a douradinha e o vive l’amour. Homens cobriam-se com capotes e mulheres com mantilhas. Os mascates, as vendas, as tamancarias, a carne verde disputavam espaço entre as ruas de São Bento, Direita e Imperatriz. A água vinha das nascentes do Anhangabaú e da caixa d’água da rua Cruz Preta e, suja e barrenta, era distribuída à população em bicas ou pipas que rodavam a cidade. A abundância de araçás deu nome ao lugar do atual cemitério enquanto as saúvas torradas eram o regalo preferido: “comendo içá, comendo cambuquira, vive a afamada gente paulistana”, observou outro viajante.

As histórias e reminiscências paulistanas são inúmeras e deliciosas. Mas elas fazem, pensar, em quanto essa revalorização sentimental do passado é proporcional ao cenário da cidade hoje: inchada, empobrecida, suja e congestionada. Frente aos problemas urbanos e humanos, ai que saudade dos tempos de antes.  Para lutar contra a nostalgia, fabricamos, sem parar, uma memória da cidade; uma memória cheia de espaços onde se cruzam as lembranças pessoais, familiares e coletivas. Lugares materiais ou não, onde se cristalizam as histórias do paulistano: a praça da Sé, o Borba Gato, o cuscuz, as Arcadas de São Francisco. Neles, se reconstrói a representação que o cidadão faz de si mesmo: bandeirante, tropeiro, cafeicultor, modernista.

Mas, se a hora é de comemoração, convém tomar cuidado e resistir contra certa moda que tudo quer transformar em memória. Em festa. O dever de memória não deve, sobretudo, conduzir a sacralizações. Ele deve ser uma liberação e não uma escravidão, como por vezes se vê. Desconfiemos de um culto da memória pela memória e afirmemos a necessidade de continuar a fazer um bom uso da memória crítica. Da memória que nos lembra que em São Paulo existe o Jardim Ângela, além de outros. Da memória que nos faz pensar na outra cidade, além dos Jardins. O bom uso da memória consiste em lutarmos permanentemente e sem cansaço, contra os abusos dela mesma. Para isso é preciso que se tenha guardado algo do passado – um « baú de ossos » – para que possamos construir com esses ossos, encadeados uns aos outros, um horizonte para o futuro.

Bem diz Pedro Nava, todos tem a « sua madeleine ». Só que ninguém a tinha explicado como Proust, ao desarmar implacavelmente, peça por peça a mecânica lancinante desse processo mental. “Madeleine” no cheiro de mato, no farfalhar de folhas ao vento noturno, no cheiro de resina na lenha dos fogões, no gosto d’água na moringa nova. Vivemos, assim, entre a recapitulação de nós mesmos, a vontade de fazer sentido com tudo o que nos aconteceu, a projeção de nossas expectativas, mas, também, de atos de vontade que se constituem, sempre, em coisas a realizar. Oscilamos entre a lembrança e ao trabalho histórico de recapitular. Aos homens que somos nós, homens capazes de linguagem, de ação, de narrativa, de acusar e perdoar, acrescente-se, somos homens capazes de lembrar e de esquecer; logo, homens capazes de memória. De memória que nos ajude a continuar construindo uma cidade melhor. – Mary del Priore

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Largo São Bento e Estação da Luz, em meados do século XIX.

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