Santo Antônio: entre o amor e a ira

Publicado em 13 de junho de 2015 por - História do Brasil

 

          Hoje é dia de Santo Antônio, um dos santos mais populares do Brasil e de Portugal, que é conhecido por ser “casamenteiro” e por ajudar os fiéis a encontrar objetos perdidos. Luís da Câmara Cascudo destaca: “O Santo Antônio de Pádua ficou sendo o deparador das coisas perdidas. Dessa habilidade decorre a notoriedade de casamenteiro quase infalível. Encontrar noivo é também um milagre de paciência incrível. Em Portugal e no Brasil diz-se que o santo era visitado comumente pelo Menino Deus, e a iconografia antonina reproduz abundantemente essa tradição. As moças submetem a imagem de Santo Antônio a todos os suplícios possíveis, na esperança de um rápido deferimento”.

          Esse aspecto do culto a Santo Antônio nos mostra um lado interessante da religiosidade popular brasileira, formada em meio a influências europeias, africanas, indígenas e judaizantes.  Desde os tempos coloniais, como observa Laura de Mello e Souza, em “O Diabo e a Terra de Santa Cruz”, a afetividade é um elemento muito forte na fé popular, pois, “afetivizando-se a religião procurava-se inseri-la no cotidiano”. Isso leva a situações curiosas: “O santo que se venera, que se adora, com quem se trocam confidências é também aquele que, no contexto da economia religiosa do toma-lá-dá-cá, pode-se atirar num canto, xingar, odiar em rompantes de cólera ou de insatisfação”, diz a historiadora.

        Daí algumas atitudes extremas em relação às imagens de Santo Antônio, que podiam ser penduradas de cabeça para baixo em poços, cacimbas ou até em urinóis velhos, com o intuito de pressionar o santo a agir mais rapidamente. Outro expediente era tirar o menino Jesus dos braços do santo e só devolvê-lo quando a questão amorosa fosse resolvida. Mas, os suplícios podiam ter outras razões, além da demora em encontrar marido e das decepções amorosas.

       Em meados do século XVIII, em Sabará, conta Laura de Mello e Souza, a negra Rosa Gomes, que estava desesperada e sozinha em sua casa, clamando aos santos por ajuda sem sucesso, “não achando pau nem corda para se enforcar, assim desesperada e fora de si, partiu a facão as imagens de Nossa Senhora, Santo Antônio, inclusive o menino Jesus, decepando-lhe a cabeça e arrancando-lhe os braços”. A ira de Rosa lhe rendeu áspera repreensão dos inquisidores.

      As relações com o santo eram bastante ambíguas. No século XVII, os inquisidores registraram o caso de Lázaro Aranha que invocava Santo Antônio para ganhar no jogo de cartas e o agradecia chamando-o de “velhaquinho”, com uma intimidade desconcertante. O mesmo Lázaro prometeu uma esmola ao santo se ele o ajudasse a encontrar um negro fugido, mas quando o encontrou, enganou o santo e não lhe deu “um cruzado” sequer.

      Luís da Câmara Cascudo lembra que, dentre as inúmeras habilidades do santo, estava incluída a de recuperar escravos, sua faceta “menos simpática”. Por outro lado, o folclorista destaca que Santo Antônio Preto era venerado pelos escravos. “Podia ser apenas a comum imagem, pintada de negro por solidarismo e sublimação de seus devotos”, conta.

Texto de Márcia Pinna Raspanti.

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