Sangue e Família

Publicado em 20 de janeiro de 2015 por - História do Brasil

Por Gian Carlo de Melo Silva.

O sangue é o elo de ligação entre pais e filhos, passado de geração em geração. A a velha frase “sangue do meu sangue” já foi dita tantas vezes por pais orgulhosos de seus rebentos. Contudo, nem sempre o sangue consegue frear certas ações de pais contra seus filhos. São mães e pais que ferem, torturam e matam crianças oriundas de seus ventres, enteadas ou adotadas. Quem não lembra do caso da pequena Isabella Nardoni, jogada pela janela de um edifício em São Paulo pelo seu pai e sua madrasta? Ou da mãe que, mesmo tendo filmado o filho dizendo “te amo”, jogou-o contra a parede e depois escondeu o corpo na casa de seu cunhado, em Minas Gerais? No período colonial causava horror o abandono de crianças nas ruas, muitas jogadas na beira da praia ou pior, devoradas pelos animais soltos que circulavam na noite e literalmente comiam os pequenos expostos. Hoje não deixa de ser monstruoso saber que um pai matou suas filhas enforcadas. Mais horrendo, filmou tudo e deixou registrado. Se antes os menores eram abandonados com bilhetes, a tecnologia agora é usada para registrar dois assassinatos seguidos de um suicídio.

A história é cheia de casos de pais que mataram seus filhos, infanticídios ou filicídios. Vários são os motivos, muitos deles banais como o ciúme, a traição ou a vingança. Um caso que ocorreu no Brasil Imperial ilustra o que um pai poderia e pode fazer com seus filhos. Foi Marcelino, um homem crioulo que tinha sido alforriado e morava na Cidade de Campos dos Goitacazes com sua mulher. Desta união, nasceram Josino de sete anos e Paulina, de seis. Os filhos continuavam escravos naquela região cercada por canaviais. A cena da tragédia da conta de duas crianças mortas, com cortes feitos por um facão, um único e preciso corte acima da clavícula feito de cima para baixo. O pai foi acusado de cometer um crime hediondo, um horroroso assassinato como foi denunciado ao delegado de polícia na época. As motivações? Ele alegava não ser bom do juízo. Outra versão: mataria por querer ver seus filhos libertos e não conseguir. Qual delas era a verdadeira? Não saberemos, o que restou foram os registros de um crime tão terrível.

Mudam as épocas, mas os crimes continuam. A menos de uma semana, no domingo dia 11 de janeiro de 2015 nos arredores de Belo Horizonte uma mãe matou suas filhas. Sentia-se perseguida, tinha perdido a guarda das crianças. No bilhete deixado por ela dizia: “Meu ex-marido acabou com minha vida e das minhas filhas“. Talvez ele posa ter feito isso, mas ela acabou com as chances reais de vida das filhas, matando as crianças. No cenário final do quarto de hotel, uma mãe enforcada, duas filhas mortas, uma delas na cadeirinha de bebê. Em maio de 2014, na cidade de Guarulhos um pai matou sua filha de sete anos. A criança foi enforcada e o pai suicidara-se após o ocorrido. Ontem, o crime do Paraná. O pai, segundo informações dadas para polícia, já esteve internado em um hospital psiquiátrico, mas a internação foi voluntária. Na época, já carregava nas costas o assassinato de um cunhado com um tiro na testa. O motivo ainda não sabemos, as investigações iniciais dão conta de ameaças feitas a antiga companheira de matar seus familiares caso ela não retornasse dos Estados Unidos. Mas o novo assassinato, premeditado?

Os assassinatos descritos acima são somente um fragmento, de um universo mais amplo de crimes que ocorrem diariamente contra família. São pais que matam filhos, filhos que matam seus pais. Matricídios, parricídios, infanticídios, filicídios, sem falar das torturas físicas e psicológicas que estão ocorrendo enquanto estou redigindo este texto que vocês vão ler. Segundo dados apontados para outros países, dentre as motivações para tal crime estão: “o baixo nível socioeconômico, a história familiar marcada por episódios de separação e violência, a perturbação psicopatológica, bem como a história anterior de maus tratos”. Se considerarmos os casos apresentados aqui, a associação de maus tratos em decorrência da escravidão e a perturbação psicopatológica podem ser inferidas no caso de Marcelino. Para os pais assassinos dos últimos dias, as separações não aceitas e que destruíram suas famílias.

No final de tudo a família foi desfeita, o sangue que unia não existe mais. Ao matar as filhas fruto do casamento, o pai quis atingir a mãe, o sentimento de rejeição o fez destruir a família. Não atacar sua ex-esposa pode ter significado o medo de não conseguir. As filhas… Ahh!!! Elas eram mais fracas, crianças de corpos frágeis e inocentes que deveriam acreditar no pai. Um ser que tinha por obrigação dar proteção e não destruir suas vidas.

Para nós, estarrecidos perante tamanha atrocidade resta tentar entender os motivos. se estes forem passiveis de entendimento perante tamanho absurdo.

Gian Carlo de Melo Silva é autor de “Um só corpo, uma só carne – Casamento, Cotidiano e Mestiçagem no Recife Colonial”. (Edufal, Maceió, 2014 – 2ª edição).

Mais informações sobre o crime:

http://noticias.bol.uol.com.br/ultimas-noticias/brasil/2015/01/19/homem-mata-as-duas-filhas-filma-o-crime-e-comete-suicidio-no-parana.htm

 http://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2014/05/10/comerciante-enforca-filha-de-sete-anos-em-guarulhos-na-grande-sp.htm

http://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2015/01/12/mulher-e-suspeita-de-matar-as-duas-filhas-e-se-suicidar-em-mg.htm

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