Retratos do Brasil: a babá e a manifestação

Publicado em 15 de março de 2016 por - temas atuais

           Causou enorme polêmica a foto de um casal, a caminho das manifestações pró-impeachment, em que a família vestia verde e amarelo e a babá, de branco, levava as duas crianças devidamente produzidas para o evento. A imagem viralizou e causou reações indignadas, pois seria um retrato de um país racista e de uma classe dominante arrogante. O homem da foto defendeu-se dizendo que pagava todos os direitos trabalhistas da funcionária e que ela estaria recebendo em dobro (como determina a lei) para trabalhar em um domingo. Imediatamente, muitos vieram em sua defesa, com o argumento de que ser babá é uma profissão digna e que não havia nada demais na foto, a não ser “mimimi esquerdista“. Mais do que condenar ou defender qualquer um dos envolvidos, podemos levar a discussão para o nível simbólico. O que toda essa celeuma diz sobre a sociedade brasileira?

amams

          Em primeiro lugar, acredito que a foto nos incomoda por alguma razão. Se fosse algo tão corriqueiro, não teria causado tanto impacto. Em época de polarização política, muitos temas importantes acabam sendo reduzidos ao campo falsamente “ideológico”. A mim, me chamou atenção, logo que pus os olhos na imagem, o fato dos pais terceirizarem os cuidados com os filhos em um evento como esse. Ora, levar as crianças em manifestações é importante para incutir nos pequenos, desde cedo, a ideia de cidadania e participação política. A iniciativa é louvável, por isso, causa estranheza deixá-los com a babá, em vez interagir com eles.

           É difícil não fazer relações com o passado, principalmente para nós, historiadores. O Brasil herdou de Portugal o horror aos trabalhos “mecânicos” ou seja, qualquer atividade manual. Nos tempos coloniais, os escravos “de dentro” cuidavam dos afazeres domésticos, inclusive cuidando das crianças e até amamentando-as. “Quando marido e mulher saem de casa, seja para visitarem uma família, seja para irem a alguma festa, levam consigo todos os filhos, cada um com a sua ama”, dizia o médico Francisco de Melo Franco, em Tratado para a educação física dos meninos para uso da nação portuguesa, Lisboa, Academia Real de Ciências, 1790.

          Era muito comum a presença de amas de leite, tanto em Portugal quanto no Brasil, apesar dos ataques ao costume, por parte da Igreja e dos médicos. “A amamentação passou a ser um meio de vida para mulheres pobres na Europa Ocidental, enquanto as mulheres de elite se revezavam em torno de fórmulas para conservar a beleza de seus seios”, conta Mary del Priore, em “Ao Sul do Corpo”. No Brasil, continua a historiadora, segundo os trabalhos pioneiros de Miriam Moreira Leite, a amamentação foi no século XIX assunto de viajantes estrangeiros na redação de seus diários de viagem. “Nesses textos, fica clara a preocupação de observar e, indiretamente, comparar hábitos de seus países de origem com o Brasil. Sublinha-se nas amas de leite escravas e negras, pardas e mulatas desde o seu ‘luxo insolente’ ao abandono a que são obrigadas a deixar seus próprios filhos”.

         Ainda hoje, as empregadas domésticas parecem ser invisíveis, até mesmo no discurso de alguns grupos feministas. Houve avanços, sem dúvida, principalmente no que se refere aos direitos trabalhistas, mas ainda há muito por fazer nas Ciências Sociais. “A inclusão na história contemporânea de um olhar sobre os regimes de servilismo doméstico é um exercício de desocultação necessário, porque a sociedade luso-brasileira transformou a figura da criada em um anátema. A memória social ocultou o fato de estarmos perante uma massa de trabalhadores – análogas aos regimes de dominação ligados ao tráfico e à escravatura (…)”, afirma Inês Brasão, na Revista de História da Biblioteca Nacional, nº 113, no artigo “Da porta para dentro”. Muitos autores começam a abordar aspectos da vida dessas mulheres que, por vezes, precisam negligenciar seus filhos para criar filhos de famílias abastadas. No cinema, “Que horas ela volta”, com Regina Casé, discutiu a questão.

          Voltemos à imagem da família nas manifestações. Todos de verde e amarelo, com exceção da babá de uniforme branco. Isso nos faz questionar: ela queria participar dos protestos? não queria? era indiferente? estava apenas fazendo o seu trabalho? Não sabemos, porque apenas o patrão se pronunciou sobre o caso. Não ouvimos a voz da babá. Será que a fizeram ir de branco para marcar mais claramente as diferenças de classe, deixar bem claro quem é quem, distinguir o patrão do empregado? Não vejo nada demais em usar uniforme, muitas categorias o fazem. No trabalho doméstico não há uma regra única, depende da negociação entre patrões e empregados. Seria essa moça uma das que prefere usar branco? Também não sabemos, e isso é bastante sintomático. Encontrei apenas uma reportagem em que ela era ouvida de forma bem superficial, o que ela deixou claro é que se sentiu incomodada com a fama inesperada.

            O episódio me faz voltar ao passado, mais uma vez. Nos tempos coloniais, havia regras rígidas de vestuário (que constantemente eram burladas). Os escravos não podiam usar sapatos, nem joias, nem tecidos finos. A elite não economizava no luxo na hora de sair à rua: tecidos, joias, acessórios, liteiras e muitos escravos. Era assim que o fidalgo, ou pretenso fidalgo, se diferenciava da “arraia-miúda”, do populacho.  As aparências eram muito importantes na época colonial, para manter uma ilusória harmonia social.

Uma imagem pode levar a muitas reflexões e pode nos ajudar a entender nossa sociedade. Mais do que criticar ou atacar quem quer que seja, acho que devemos aproveitar esse episódio para isso. A fotografia, sem dúvida, mostrou um flash da nossa realidade que não gostamos de ver. E a História nos faz ver os fatos sob outras perspectivas… – Texto de Márcia Pinna Raspanti.

Após a publicação desse texto, finalmente, a babá Angélica foi ouvida pela imprensa.  Confira o depoimento dela:

Angélica

 

 babababa2

Fotos: Revista Fórum. Acima, foto de uma ama no século XIX, do acervo do Instituto Moreira Salles.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

16 Comentários

  1. Leandro Piazzon Corrêa disse:

    Márcia, me parece que a babá, que se chama Angélica, pronunciou-se a respeito.

    • Márcia disse:

      Oi, Leandro. Sim, eu assisti ao vídeo. Demorou, mas ela foi ouvida. Acho que deveria ter sido a primeira a ser procurada pela imprensa. No entanto, não creio que isso invalide as reflexões propostas, pois, como expliquei no meu artigo, estou analisando a foto pelo seu aspecto simbólico, emblemático. Não estamos aqui para julgar as pessoas, mas para propor discussões sobre aspectos históricos e culturais da sociedade brasileira. Obrigada.

  2. Natália Belizario Silva disse:

    O melhor texto que eu li sobre o assunto. Obrigada!

  3. LANA disse:

    O pai preferiu cuidar do cachorro…

  4. Rose Khusala disse:

    Márcia, excelente texto, como sempre. E importante contribuição da sua leitora Sônia Coelho. Eu não tinha visto esta entrevista com a babá. E ela fortalece a primeira opinião que tive quando me deparei com mais essa polêmica. Acho que as pessoas estão perdendo a mão, de uma maneira muito perigosa e desagradável. Não se deve expor uma pessoa assim, nem a tomar por mártir ou vítima, sem ao menos ouvir sua opinião. É premissa do bom jornalismo, há muito abandonado em nosso país. Só que rede social não é jornalismo, né. Então se viraliza uma foto, uma análise parcial, e a coisa toma uma proporção assustadora, principalmente para quem está na cena. Poucos ouvem o outro lado, como fez O Extra (e será que a teria publicado, se não lhe conviesse?), ou propõe uma reflexão mais aprofundada e cuidadosa, como fez você. E assim, leviana e superficialmente seguimos tirando conclusões e espalhando meias verdades…

    • Márcia disse:

      Obrigada, Rose! Concordo, acho que a primeira pessoa a ser ouvida deveria ser a babá. Demorou, mas alguém se lembrou de perguntar o que ela achava disso tudo. Tentei fazer uma reflexão sobre o aspecto simbólico da foto e não sobre seus personagens. Não temos o objetivo de julgar ninguém, mas de debater aspectos históricos da nossa sociedade. Pelas reações registradas no Facebook, podemos ter certeza de que a foto incomodou bastante, seria bom se as pessoas tentassem entender os motivos. Beijo!

  5. Elaine Marcelina disse:

    Ótima abordagem Márcia, precisamos aprofundar a discussão sempre, sair do senso comum e analisar o imaginário social brasileiro. Adorei!

  6. Kayo Fonseca disse:

    Vocês não teriam uma página no Facebook que divulgue os artigos aqui publicados?
    Texto excelente!

  7. César Jeansen Brito disse:

    Texto maravilhoso. Melhor por retirar a discussão da histeria generalizada entre duas bandeiras – que infelizmente vem dominando a tônica discursiva – e nos levar a uma reflexão mais profunda, a das estruturas (o que traz outra questão: por que o interesse em se inflamar um debate tão superficial se por uma abordagem mais estrutural podemos lidar com tantas questões de forma mais madura e responsável, né?).

    • Márcia disse:

      Boa pergunta. Infelizmente, sofri muitos ataques no Facebook por causa desse texto. Mas acho que é importante tentarmos, ao menos, discutir essas questões estruturais de maneira mais serena. Obrigada!

    • Márcia disse:

      Demorou, mas ela finalmente foi ouvida. Na minha opinião, ela deveria ter sido a primeira a ser procurada. Acho que as conquistas trabalhistas e a abordagem do tema do trabalho doméstico na academia e nos meios de comunicação podem retirar esses trabalhadores da invisibilidade.

  8. Marcia Miguel disse:

    Texto impecável , esclarecedor.

Deixe o seu comentário!